Em uma noite de verão de 1890, numa propriedade rural da Irlanda, a jovem aristocrata Julie transforma sua atração pelo criado John em uma disputa marcada por desejo, ressentimento e diferenças de classe. Dirigido por Liv Ullmann, “Miss Julie” reúne Jessica Chastain, Colin Farrell e Samantha Morton em uma história na qual cada aproximação cobra um preço. A mansão pertence ao pai de Julie, mas a ausência dele abre espaço para que antigas frustrações saiam dos quartos e ocupem a cozinha.
Inspirado na peça escrita por August Strindberg em 1888, o filme concentra quase toda a ação em três personagens. Julie (Jessica Chastain) é a filha do barão, criada entre privilégios e feridas familiares. John (Colin Farrell) trabalha como criado pessoal do proprietário e sonha com uma vida distante daquela casa. Kathleen (Samantha Morton), cozinheira da família, está noiva de John e deseja preservar o emprego, o casamento e a dignidade.
A festa continua fora da casa
Enquanto os empregados participam das celebrações do solstício de verão, John e Kathleen permanecem na cozinha da propriedade. Ela prepara comida, cuida dos afazeres e tenta aproveitar alguma tranquilidade ao lado do noivo. Ele comenta o comportamento de Julie, que o obrigou a dançar diante dos demais funcionários. Kathleen percebe o prazer de John ao contar o episódio e reage com ciúme, embora ainda trate a situação como uma provocação passageira da patroa.
Julie entra na cozinha e interfere na conversa do casal. Inquieta e sem companhia, ela procura John para continuar a brincadeira iniciada na festa. A jovem lhe dá ordens, pede bebida e força uma proximidade que deixa Kathleen desconfortável. Sua autoridade vem do sobrenome e da propriedade, mas sua insistência revela uma mulher solitária, ansiosa por receber atenção de alguém que deveria apenas obedecê-la.
John conhece a desigualdade que separa os dois. Ele sabe que qualquer acusação pode custar seu trabalho e sua moradia. Também percebe que Julie deseja escapar, pelo menos por algumas horas, das regras reservadas à filha de um aristocrata. A atração nasce dessa combinação perigosa. Ela possui dinheiro e prestígio, enquanto ele domina informações sobre a casa, os empregados e o passado da família.
Confissões aumentam a intimidade
Kathleen deixa a cozinha para cuidar do cachorro de Julie, que está doente. A ausência cria a oportunidade procurada pela patroa, que mantém John por perto e prolonga a conversa. Os dois falam de infância, desejo e ambição. John conta que observava Julie quando eram mais jovens e alimentava uma paixão distante pela menina rica da propriedade.
A confissão agrada Julie porque lhe oferece a sensação de ter sido amada antes daquela noite. John, porém, alterna delicadeza e dureza. Em um instante, trata a jovem com reverência. Pouco depois, lembra que ambos ocupam lugares muito diferentes naquela casa. A conversa deixa de parecer um flerte inocente e ganha um tom amargo, pois cada frase guarda alguma cobrança.
Julie também muda de atitude com frequência. Ela ordena que John se comporte como empregado, mas logo pede acolhimento e fala de sua infelicidade. Jessica Chastain faz essas mudanças sem transformar a personagem numa figura incompreensível. Sua Julie é caprichosa, cruel em certos gestos

