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Chihiro sabe comer sozinha. Sabe conversar com desconhecidos, entrar e sair da vida de alguém sem pedir licença, ouvir sem oferecer o consolo automático que quase sempre serve mais a quem consola que ao consolado. Também não faz questão alguma de esconder que trabalhou numa casa de massagens oferecendo sexo a homens, e talvez seja essa ausência de vergonha, mais do que o passado em si, que desconcerte as pessoas. Rikiya Imaizumi compreende muito cedo que sua personagem não precisa ser redimida e, ao tomar essa decisão, livra “Call Me Chihiro” de uma das armadilhas mais óbvias de histórias sobre mulheres que abandonam a prostituição. Chihiro não está recomeçando. Está vivendo.

O emprego no Noko Noko Bento, uma pequena loja de refeições numa cidade litorânea, parece o destino improvável para alguém que aprendeu a sobreviver lendo desejos alheios, mas é justamente naquele balcão que ela passa a receber uma coleção de criaturas que não sabem muito bem o que fazer consigo mesmas. Okaji, uma adolescente que almoça escondida e observa o mundo com a atenção dos que ainda não encontraram seu lugar nele; Makoto, um menino abandonado à própria sorte por uma mãe mais interessada na vida noturna; um velho que mora na rua; Tae, a mulher do proprietário do estabelecimento, privada da visão; antigos conhecidos que reaparecem como se a vida de Chihiro estivesse sempre deixando portas entreabertas. Imaizumi não junta essa gente para fabricar uma comunidade exemplar. Alguns se aproximam, outros desaparecem. É assim mesmo.

O mangá de Hiroyuki Yasuda que deu origem ao filme foi publicado na revista “Elegance Eve” entre 2013 e 2018, e Kasumi Arimura contou ter procurado nas lacunas dessa obra a vida anterior da personagem, imaginando inclusive uma mulher que aprendera a manter certa distância dos outros como maneira de preservar a própria estabilidade. Imaizumi, por seu turno, já vinha defendendo um cinema avesso à obrigação de transformar protagonistas em versões melhores de si mesmas ao final da história. As duas coisas encontram aqui uma convergência especialmente feliz.

Kasumi Arimura e a distância de Chihiro

É por isso que “Call Me Chihiro” fica mais interessante quando quase nada acontece. Chihiro serve uma refeição, fuma, anda pela praia, encontra Okaji, oferece comida ao velho sem-teto, fala alguma coisa que poderia soar banal na boca de qualquer outra pessoa e segue seu caminho. Arimura mantém uma serenidade quase insolente, sem fazer da protagonista uma santa de passado pecaminoso, e o diretor resiste à tentação de explicar por que ela se tornou assim. O que houve entre aquela menina, a mãe e a mulher que um dia lhe emprestou o nome interessa menos que o resultado. Chihiro sabe exatamente quanto de si deseja oferecer a cada pessoa. Às vezes, muito. Nunca tudo.

Há uma ironia delicada nisso. Enquanto todos parecem procurar nela alguma espécie de refúgio, a protagonista talvez seja a figura mais solitária do filme. Não porque sofra em silêncio ou espere um homem que a compreenda, mas porque aceita uma ideia intolerável para uma sociedade obcecada por casais, famílias, grupos e fotografias de gente feliz à mesa. Pode-se estar só sem estar abandonado. A convivência não é necessariamente uma cura, e a solidão não é sempre uma doença.

Okaji, Makoto e Tae

Hana Toyoshima e Tetta Shimada são fundamentais para que essa convicção não transforme a personagem num aforismo ambulante. Okaji e Makoto ainda estão formando suas defesas contra o mundo, e Chihiro os trata sem a condescendência com que adultos costumam falar a crianças e adolescentes, qualidade que faz os encontros entre os três respirarem fora do roteiro. O mesmo ocorre com Tae, cuja presença parece alcançar uma região de Chihiro que os demais apenas tangenciam. Diante dela, a máscara da mulher autossuficiente afrouxa um pouco. Não cai. Talvez não deva cair.

Os 131 minutos podem parecer excessivos para um enredo que deliberadamente recusa clímax, mas a duração também é parte do jogo. Imaizumi quer que se permaneça naquela cidade tempo suficiente para entender que aquelas vidas não foram organizadas para nosso conforto. Não existe grande revelação, punição moral, romance salvador ou solenidade final. Chihiro chega, interfere um pouco, recebe alguma coisa dos outros e torna a partir. Há pessoas que mudam nossa vida ficando. Outras fazem o mesmo porque sabem a hora de ir.


Filme: Meu Nome é Chihiro
Diretor: Rikiya Imaizumi
Ano: 2023
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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