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Em “Presságios de um Crime”, dois agentes do FBI investigam assassinatos sem vestígios nos Estados Unidos e procuram um médico clarividente para identificar o criminoso. Joe Merriwether (Jeffrey Dean Morgan) e Katherine Cowles (Abbie Cornish) enfrentam uma investigação que parece ter sido cuidadosamente planejada para humilhar qualquer especialista em perícia. As vítimas são mortas de maneira precisa, as cenas apresentam poucos vestígios e o responsável pelos crimes desaparece sem oferecer uma rota segura aos agentes.

Joe conhece alguém capaz de observar aquilo que uma análise convencional dificilmente alcançaria. O doutor John Clancy (Anthony Hopkins) possui uma habilidade incomum. Ao tocar pessoas ou objetos, ele recebe imagens relacionadas ao passado e a possíveis acontecimentos futuros. O problema é que Clancy abandonou esse tipo de trabalho após uma perda familiar e passou a viver isolado.

Dirigido pelo brasileiro Afonso Poyart e lançado em 2015, “Presságios de um Crime” começa como um suspense policial e logo acrescenta uma camada sobrenatural à investigação. A proposta desperta curiosidade porque o dom de Clancy está longe de resolver tudo. Suas visões chegam fragmentadas, misturam tempos diferentes e exigem interpretação. Em outras palavras, o FBI ganha um vidente, mas continua sem receber endereço, horário e nome completo do suspeito. Seria conveniente demais.

Joe insiste para que o antigo amigo examine os arquivos do caso. Katherine, mais ligada aos procedimentos do FBI, recebe o consultor com desconfiança. A resistência da agente faz sentido. Ela trabalha com evidências que podem ser apresentadas, verificadas e usadas numa operação policial, enquanto Clancy oferece imagens que apenas ele consegue ver.

Uma visão muda a investigação

O contato entre Clancy e Katherine produz uma visão perturbadora relacionada ao futuro da agente. O médico aceita participar do caso porque teme que ela esteja em perigo. Sua entrada aproxima o grupo de informações antes inacessíveis, mas também coloca os três numa corrida contra acontecimentos que talvez ainda possam ser impedidos.

Clancy visita cenas dos crimes, toca objetos e observa os corpos em busca de alguma ligação entre as vítimas. As imagens surgem em pequenos fragmentos, com sangue, corredores, rostos e movimentos cuja ordem permanece incerta. A montagem acelerada procura reproduzir a confusão do personagem. Em alguns trechos, esse recurso sustenta o suspense. Em outros, o excesso de cortes deixa a sequência mais agitada do que reveladora.

A investigação avança quando os agentes descobrem um detalhe comum nos históricos médicos das pessoas assassinadas. Cada vítima sofria de uma doença terminal que nem sempre era conhecida por familiares ou amigos. A descoberta oferece um padrão, mas cria outra pergunta. Como o criminoso teve acesso a informações tão reservadas sobre indivíduos aparentemente distantes entre si?

Esse dado leva “Presságios de um Crime” para uma discussão delicada, ligada ao sofrimento, à morte e ao direito de decidir quanto vale um dia de vida. O roteiro aborda o tema por meio das escolhas do assassino, sem abandonar a perseguição policial. A questão moral ganha peso porque Clancy carrega uma experiência pessoal dolorosa, embora o filme revele essa ferida aos poucos.

Um assassino sempre adiante

O caso se torna ainda mais difícil quando Clancy percebe que o criminoso também possui uma habilidade de antecipação. Charles Ambrose (Colin Farrell) parece conhecer os passos da equipe antes que Joe e Katherine consigam agir. A vantagem muda a dinâmica da caçada. O médico já não precisa somente interpretar suas visões. Ele deve considerar que cada iniciativa pode ter sido prevista pelo adversário.

Colin Farrell participa menos da primeira parte, mas sua presença cresce quando Charles se aproxima de Clancy. O personagem fala com segurança, conhece pontos sensíveis do médico e apresenta uma justificativa calculada para os homicídios. Essa postura transforma o assassino em algo além de um fugitivo habilidoso. Ele deseja convencer Clancy de que suas ações possuem uma razão aceitável.

É nesse duelo psicológico que o longa encontra suas melhores passagens. Charles conhece possibilidades futuras, enquanto Clancy recebe imagens incompletas e precisa decidir em quais delas confiar. A diferença entre os dois cria uma perseguição curiosa. A polícia tenta alcançar alguém que, em tese, já viu a chegada dos agentes e preparou a saída.

Anthony Hopkins oferece ao médico um ar cansado, distante da figura de um herói infalível. Clancy sofre com o próprio dom porque qualquer toque pode trazer uma morte, uma lembrança ou uma ameaça. Hopkins trabalha essa angústia com gestos contidos e olhares que carregam mais do que algumas falas solenes do roteiro.

Os agentes por trás do caso

Jeffrey Dean Morgan dá humanidade a Joe Merriwether. O agente acredita em Clancy porque conhece sua capacidade e também porque já não possui muitas alternativas. Sua amizade com o médico fornece afeto à história e impede que a investigação vire apenas uma coleção de cadáveres e imagens inquietantes.

Katherine Cowles começa numa posição mais cética. Abbie Cornish preserva a firmeza da personagem sem transformá-la numa policial criada apenas para discordar do protagonista. A agente questiona Clancy, observa seus resultados e procura proteger a investigação de decisões baseadas exclusivamente em pressentimentos. Sua relação com o médico cresce conforme os riscos deixam de pertencer somente às vítimas.

Afonso Poyart imprime energia ao longa, sobretudo quando aproxima as visões de Clancy da movimentação dos agentes. O diretor mostra acontecimentos possíveis antes de confirmar se eles realmente ocorrerão. Essa escolha cria dúvida e mantém o público atento, embora algumas repetições enfraqueçam o efeito das imagens.

Uma boa ideia entre excessos

“Presságios de um Crime” reúne investigação criminal, drama e suspense sobrenatural numa história acessível. O enredo possui uma boa questão central e apresenta seus personagens sem exigir que o espectador decifre regras complicadas. Basta aceitar que duas pessoas podem enxergar fragmentos do futuro e que uma delas usa esse conhecimento para matar.

O longa perde parte da força quando insiste demais na edição frenética ou entrega diálogos carregados de solenidade. Mesmo assim, Hopkins e Farrell sustentam o embate entre dois homens marcados por experiências dolorosas e separados pela forma como usam aquilo que conseguem prever. Morgan e Cornish mantêm a investigação ligada ao mundo policial, onde uma visão pode sugerir o caminho, mas ninguém efetua uma prisão com base em arrepios.

Sem depender apenas da identidade do criminoso, “Presságios de um Crime” preserva o interesse ao perguntar se conhecer o futuro concede autoridade para decidir a vida de outra pessoa. Clancy precisa voltar ao convívio, enfrentar a própria culpa e ajudar Joe e Katherine antes que uma nova previsão se torne fato. Cada pista oferece algum avanço, porém também entrega ao assassino outra oportunidade de permanecer um passo à frente. Bbb


Filme: Presságios de um Crime
Diretor: Afonso Poyart
Ano: 2015
Gênero: Crime/Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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