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Ambientado na Califórnia, “Querido Menino” acompanha o jornalista David Sheff (Steve Carell), que procura tratamento para o filho Nic Sheff (Timothée Chalamet) após descobrir que o consumo de drogas se transformou em uma grave dependência de metanfetamina. Dirigido por Felix van Groeningen, o drama apresenta uma história real de recaídas, internações e tentativas de recuperação sem tratar o amor familiar como uma solução milagrosa.

David vive com a segunda esposa, Karen Barbour-Sheff (Maura Tierney), e os filhos menores, Jasper (Christian Convery) e Daisy (Oakley Bull). A casa cercada pela paisagem ensolarada da Califórnia parece protegida das grandes tragédias. Essa aparência desaparece quando Nic, o filho mais velho de David, começa a faltar aos compromissos, some durante dias e retorna com sinais cada vez mais preocupantes do uso de drogas.

O rapaz já havia experimentado diferentes substâncias, mas a metanfetamina muda a dimensão do problema. Nic perde peso, abandona responsabilidades e passa a esconder informações da família. David tenta descobrir onde o filho esteve, o que consumiu e quanto perigo existe em cada desaparecimento. A procura por fatos, tão familiar ao jornalista, oferece pouca segurança quando o assunto é alguém que ele ama.

Um pai procura explicações

A primeira reação de David é pesquisar. Ele conversa com médicos, lê estudos sobre dependência e procura clínicas capazes de receber Nic. Quer saber o que a droga provoca no cérebro e quais tratamentos apresentam melhores possibilidades de recuperação. Sua formação profissional o leva a acreditar que reunir informações poderá ajudá-lo a tomar decisões mais seguras.

A dependência, porém, não respeita a lógica de uma reportagem bem apurada. David consegue pagar internações e acompanhar avaliações médicas, mas não controla as escolhas do filho fora das clínicas. Nic aceita ajuda em alguns períodos, recupera peso e volta a demonstrar interesse pela escrita e pelos estudos. Pouco depois, pode desaparecer novamente, deixando a família diante de outro ciclo de buscas e telefonemas.

Steve Carell interpreta David com sobriedade. Conhecido por muitos papéis cômicos, o ator trabalha aqui com gestos contidos, olhares cansados e uma angústia que cresce a cada nova ausência. David ama o filho, mas esse amor também alimenta sua necessidade de vigilância. Ele examina comportamentos, faz perguntas e procura indícios de consumo porque sabe que uma recaída pode terminar em hospitalização ou morte.

Nic entre a culpa e o desejo

Timothée Chalamet oferece a Nic inteligência, carisma e uma fragilidade difícil de ignorar. O personagem conhece o sofrimento causado à família e sente vergonha depois de cada recaída. Ainda assim, a consciência da dor não basta para afastá-lo das drogas. Sua dependência ultrapassa qualquer promessa feita ao pai durante uma conversa emocionada.

Nic sonha em escrever e demonstra capacidade para retomar os estudos. Em seus períodos de sobriedade, o jovem volta a conviver com os irmãos, participa da rotina doméstica e recupera parte da confiança perdida. Esses intervalos permitem que a família acredite em uma mudança duradoura. Também tornam cada novo desaparecimento mais doloroso, pois David nunca sabe se está diante de um tropeço passageiro ou de outra crise grave.

O roteiro incorpora lembranças da infância para mostrar a intimidade construída entre pai e filho. Jack Dylan Grazer interpreta Nic aos 12 anos, enquanto Zachary Rifkin e Kue Lawrence representam o personagem em fases anteriores. David recorda viagens, brincadeiras e conversas afetuosas. As memórias explicam por que ele insiste em procurar o garoto que conhecia dentro do jovem agora dominado pela droga.

Van Groeningen alterna passado e presente sem transformar a infância de Nic numa investigação em busca de culpados. O rapaz cresceu cercado por carinho, estudou, praticou esportes e manteve uma relação próxima com o pai. O filme afasta a ideia confortável de que toda dependência pode ser explicada por abandono familiar ou falta de oportunidades. Às vezes, uma família presente também se vê sem instrumentos para impedir a destruição de alguém.

Karen também protege os filhos

Karen ocupa um lugar importante nessa dinâmica. Maura Tierney interpreta uma madrasta carinhosa, mas consciente de que Jasper e Daisy continuam precisando de estabilidade. Ela acolhe Nic, participa das buscas e apoia David, embora perceba quando a tentativa de salvar o rapaz passa a consumir toda a casa.

A personagem representa uma questão dolorosa para famílias que convivem com a dependência. Até onde é possível ajudar uma pessoa sem deixar todos os outros desprotegidos? Karen não trata Nic com frieza. Ela apenas reconhece que os irmãos menores veem os sumiços, escutam as discussões e também sofrem com o medo de receber uma notícia ruim.

Vicki Sheff (Amy Ryan), mãe de Nic e ex-mulher de David, mora em Los Angeles e participa das decisões sobre o tratamento. A distância entre as duas casas cria outras possibilidades de acolhimento, mas exige que os pais dividam informações e responsabilidades. Quando uma alternativa fracassa na Califórnia, Nic pode ser levado para outro ambiente. A mudança de endereço, contudo, não elimina a dependência.

O desgaste de começar outra vez

“Querido Menino” repete internações, períodos de sobriedade, suspeitas e recaídas. Essa repetição pode cansar o espectador em alguns trechos, mas traduz a experiência dos personagens. Para David, cada recuperação parece abrir uma porta. Cada desaparecimento devolve a família ao medo, às ligações e às salas de espera.

A trilha sonora por vezes insiste demais em emoções que Carell e Chalamet já comunicam sem ajuda. O drama também poderia ser mais enxuto em algumas lembranças. Ainda assim, a atuação da dupla sustenta os momentos mais delicados. Pai e filho compartilham afeto verdadeiro, raiva, culpa e exaustão sem perder a humanidade.

O mérito de “Querido Menino” está na maneira sensível com que separa a pessoa da dependência. Nic mente, rouba e fere quem tenta ajudá-lo, mas não vira um vilão. David oferece tratamento, dinheiro e abrigo, porém também erra quando acredita que poderá administrar sozinho a recuperação do filho. Nenhum deles cabe numa definição confortável.

Inspirado nos livros escritos por David e Nic Sheff, o longa observa a dependência química dentro de quartos, clínicas, carros e cozinhas. A doença deixa marcas em quem usa drogas e em todos os que permanecem por perto. Quando David percebe que não possui controle sobre a sobriedade do filho, precisa decidir quais formas de ajuda ainda pode oferecer sem abandonar Karen, Jasper, Daisy e a própria vida.


Filme: Querido Menino
Diretor: Felix van Groeningen
Ano: 2018
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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