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Vingança é uma palavra grande para uma coisa quase sempre miseravelmente pequena. Chama-se vingança ao instante em que alguém, depois de perder o que importava, aceita reduzir o próprio mundo àquele que lhe causou a perda. Jang Ok-ju não tem muito de onde recuar. Antes guarda-costas de clientes endinheirados, treinada para perceber ameaças antes que elas se concretizem, ela vive numa espécie de intervalo até que Min-hee reaparece, trazendo para sua rotina a inconveniência maravilhosa da amizade. Quando a bailarina morre e deixa um pedido de reparação, Ok-ju não reage como heroína. Reage como alguém que chegou tarde.

Lee Chung-hyun faz de “A Bailarina” um filme de ação mais triste do que sua superfície de néon, sangue e música eletrônica permite supor. Min-hee, interpretada por Park Yu-rim, aparece pouco, mas sua ausência organiza tudo. Ok-ju descobre que a amiga fora drogada, violentada, filmada e chantageada por Choi Pro, sujeito que transformou a humilhação de mulheres em atividade paralela a negócios criminosos igualmente imundos. Kim Ji-hun acerta ao não procurar profundidade onde não há. Choi é vaidoso, sádico, covarde, e sobretudo convencido de que dinheiro, homens armados e uma aparência cuidadosamente construída bastam para protegê-lo das consequências. Não bastam.

Ok-ju e o corpo em alerta

Jun Jong-seo já havia trabalhado com Lee Chung-hyun em “A Ligação”, e o diretor declarou que, terminado o roteiro de “A Bailarina”, não conseguia imaginar outra atriz como Ok-ju. A escolha importa menos pela relação anterior entre os dois do que pelo uso que o filme faz de uma qualidade rara de Jun. Ela consegue parecer imóvel e perigosíssima ao mesmo tempo. Ok-ju fala pouco, não declama a própria dor, não oferece ao espectador uma cartilha psicológica sobre trauma, culpa e amizade. O corpo cumpre essa tarefa. Há qualquer coisa de permanentemente contraído nela, como se todos os músculos estivessem esperando autorização para atacar.

Lee entende isso e economiza cerimônia. A investigação conduz Ok-ju ao apartamento de Choi, a vídeos armazenados como troféus e, depois, a um motel onde o criminoso reproduz seu método. A sequência poderia degenerar no velho jogo de exploração em que o cinema denuncia a violência contra mulheres dedicando tempo excessivo a mostrá-la. O diretor prefere deslocar a cena. Choi acredita ter outra vítima diante de si quando na verdade abriu a porta para alguém que sabe exatamente o que está acontecendo. A mudança de poder é brutal e satisfatória, embora o filme tenha a inteligência de não fingir que uma surra possa desfazer o que Min-hee sofreu.

É também aí que “A Bailarina” encontra seu melhor desvio. Outra jovem, mantida sob domínio dos criminosos, surge no percurso de Ok-ju, e a vingança começa a deixar de ser uma operação funerária. Há alguém vivo que ainda pode ser retirado daquele inferno. O filme, felizmente, não transforma a relação das duas numa aula sobre sororidade. Elas se ajudam porque precisam. Já é muito.

Uma fábula sanguínea

Visualmente, Lee Chung-hyun não conhece a modéstia. Luzes rosadas e azuis, corredores, boates, armas de fogo, facas, carros, lança-chamas e uma trilha ostensiva transformam a caçada numa fantasia pop de retaliação. Em outros filmes, tamanho capricho talvez banalizasse a violência. Aqui, a estilização assume seu artificialismo desde o começo. Não estamos diante de uma reconstituição realista de redes de exploração sexual, mas de uma fábula sanguínea em que a vítima que ficou para trás ganha um braço armado.

O perigo aparece quando Lee se encanta demais pela própria embalagem. Há criminosos que parecem existir só para cair diante de Ok-ju, situações resolvidas com facilidade providencial e uma organização que oscila entre assustadora e ridícula conforme o roteiro precisa abrir caminho para a protagonista. Em noventa e poucos minutos, contudo, essa pressa chega a ser uma virtude. Não há interesse em construir a genealogia do mal. Choi é suficiente.

Quando Ok-ju enfim chega ao homem que procura, o filme abandona qualquer possibilidade de equivalência moral. Não quer saber se a vingança é correta, civilizada, restauradora, terapêutica ou juridicamente defensável. Choi teve inúmeras oportunidades de enxergar pessoas nas mulheres que tratava como arquivos. Não enxergou. Ok-ju, ao contrário, passou o filme inteiro olhando para uma pessoa que já não estava ali. É por Min-hee que ela continua.


Filme: A Bailarina
Diretor: Lee Chung-hyun
Ano: 2023
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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