Quando a burocracia governamental resolve ignorar a constituição, o resultado costuma ser um rastro de poeira e decisões questionáveis. Em “Sicario: Dia do Soldado”, longa-metragem lançado nos cinemas no ano de 2018 sob a direção do cineasta italiano Stefano Sollima, o público acompanha o retorno de uma dupla de operativos bastante peculiar. O agente federal Matt Graver, interpretado com uma brutalidade calma pelo ator Josh Brolin, recebe uma autorização quase ilimitada do alto escalão do governo americano. A justificativa para essa liberdade tática surge após um atentado a bomba em um supermercado no Texas, evento que leva as autoridades federais a acreditarem que os cartéis mexicanos alteraram o foco de negócios, passando a transportar extremistas internacionais através da divisa entre os países.
Para colocar essa engrenagem em movimento, o personagem de Josh Brolin não hesita em recorrer aos serviços do misterioso Alejandro Gillick, vivido pelo ator Benicio Del Toro. Alejandro carrega o peso de um passado trágico, marcado pelo assassinato de sua família pelas mãos de um grande chefão do narcotráfico. A proposta apresentada por Graver não envolve a aplicação clássica da lei, mas a criação de um conflito interno entre as próprias facções criminosas. A ideia dos burocratas é provocar o caos na estrutura dos cartéis para que eles se destruam mutuamente, permitindo que Washington mantenha as mãos limpas enquanto assiste ao massacre a uma distância confortável.
O sequestro que altera as regras
O ponto central da estratégia tática desenhada por Graver consiste em raptar a jovem Isabela Reyes, interpretada pela atriz Isabela Merced. A garota é filha do líder de uma das organizações criminosas mais poderosas do México, o mesmo homem responsável pelas dores do passado de Alejandro. A operação é executada nas ruas da Cidade do México simulando um ataque promovido por um grupo rival, com a intenção de atiçar o desejo de vingança dentro da família da jovem. A equipe captura a adolescente com precisão e passa a transportá-la em um comboio de veículos blindados em direção ao território do país vizinho.
Contudo, a dinâmica de uma missão clandestina raramente permanece perfeita por muito tempo. Durante a viagem de regresso, os veículos oficiais sofrem uma emboscada violenta por parte da própria polícia mexicana, cujos oficiais recebiam propina do crime organizado local. O ataque forçado obriga a equipe de Graver a retaliar duramente para garantir a sobrevivência no local. O tiroteio na estrada resulta em dezenas de policiais mortos, criando uma Crise Diplomática internacional que estampa as capas dos principais jornais do planeta em poucos minutos. Na confusão gerada pelas balas, a jovem Isabela aproveita o desespero geral para escapar em disparada em direção à imensidão do solo árido.
A caçada e a virada de lealdade
Ao perceber o risco de ver a garota capturada por forças inimigas ou morrer sob o sol forte, o personagem de Benicio Del Toro decide se separar do grupo principal para resgatá-la. Ele alcança a adolescente no deserto e passa a caminhar com ela em busca de uma rota segura de evacuação. Enquanto isso, em Washington, a pressão do Presidente e da opinião pública força a secretária de defesa a cancelar todo o projeto secreto. A ordem que chega ao rádio do agente interpretado por Josh Brolin é fria e sem espaço para debate. Ele precisa eliminar qualquer testemunha do incidente, o que inclui matar a própria garota e também seu parceiro Alejandro, apagando qualquer vestígio de envolvimento dos Estados Unidos no caso.
A partir desse momento, a narrativa estabelece uma fratura profunda na relação entre os dois protagonistas. Quando Graver comunica as novas instruções pelo rádio, Alejandro deixa transparecer sua recusa velada em assassinar a menina. O homem que antes servia como uma ferramenta implacável de vingança demonstra uma centelha de humanidade ao enxergar na jovem a lembrança de sua própria filha morta anos atrás. Ele decide proteger a garota a qualquer custo, mesmo sabendo que isso o transforma automaticamente em um alvo primário para os helicópteros e satélites do governo que antes sustentavam suas ações.
O desgaste humano na travessia
A caminhada de Alejandro e Isabela pela paisagem desértica assume um tom angustiante e arrastado. O veterano tenta disfarçar a identidade da dupla vestindo roupas humildes e se misturando aos grupos de migrantes que tentam cruzar a divisa ilegalmente com o auxílio de coiotes. Em um ponto do trajeto, a dupla precisa interagir com um jovem recrutado pelas gangues locais para facilitar a travessia. O rapaz reconhece o rosto do personagem de Benicio Del Toro por causa de um encontro anterior em um restaurante, percebendo que aquele homem com cara de poucos amigos não pertence ao universo das pessoas comuns daquela região.
A denúncia do jovem coiote leva à captura imediata de Alejandro e da garota pelas forças do cartel local. Amarrado e com o rosto coberto por um saco de pano, o personagem vive momentos de extrema tensão à beira de uma estrada de terra. O jovem recruta, pressionado pelos líderes da gangue para provar seu valor dentro do grupo criminoso, é obrigado a disparar contra a cabeça de Alejandro. O tiro parece decretar o fim trágico do operativo enquanto os criminosos abandonam o corpo ensanguentado na poeira e levam a jovem Isabela embora como moeda de troca.
A varredura e as marcas no terreno
Pouco tempo depois da partida dos criminosos, a equipe comandada por Josh Brolin chega ao local a bordo de um helicóptero militar para interceptar os sequestradores e cumprir as ordens do departamento. Os mercenários americanos atacam o comboio do cartel com um volume massivo de fogo, eliminando os bandidos sem dar margem para qualquer tipo de reação. Ao vasculhar os veículos, Graver encontra a garota Isabela assustada no banco traseiro. Em vez de cumprir a ordem estrita de execução dada por seus superiores em Washington, a figura durona do agente cede a um momento de hesitação ética, decidindo colocar a menina no programa de proteção a testemunhas longe do alcance da imprensa.

