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Na cidade de Bayonne, em Nova Jersey, o estivador Ray Ferrier (Tom Cruise) recebe os dois filhos para passar alguns dias em sua casa. Divorciado de Mary Ann (Miranda Otto), ele mantém uma relação distante com Robbie (Justin Chatwin) e Rachel (Dakota Fanning). A visita, já marcada pela falta de intimidade entre os três, ganha proporções assustadoras quando uma tempestade anuncia uma invasão alienígena. Sem preparo ou informações, Ray precisa levar as crianças até Boston e mantê-las vivas durante o colapso.

Ray sabe operar guindastes enormes no porto, mas parece perdido diante das necessidades mais básicas dos filhos. Sua geladeira oferece poucas opções, a casa não transmite muito conforto e Robbie mal disfarça o ressentimento. Rachel, mais nova e sensível, percebe a tensão entre o pai e o irmão, embora tente atravessar aqueles dias sem criar problemas.

Mary Ann deixa as crianças com o ex-marido antes de viajar para a casa dos pais, em Boston. A conversa entre os dois revela que Ray conhece pouco a rotina dos filhos. Ele tenta compensar a distância com alguma simpatia, mas Robbie não aceita sua autoridade com facilidade. A família já está fragmentada antes de qualquer ameaça surgir, e Steven Spielberg usa esse desconforto para dar peso à aventura.

“Guerra dos Mundos” acompanha um homem que precisa aprender a cuidar de duas crianças enquanto o mundo ao redor perde qualquer ordem. Ray não recebe uma missão militar, não conhece os invasores e tampouco sabe o que está acontecendo em outras cidades. Sua prioridade é chegar até Mary Ann, única pessoa que ainda representa segurança para Robbie e Rachel.

A tempestade muda o bairro

A ameaça começa com uma tempestade estranha. Raios atingem repetidas vezes o mesmo ponto, aparelhos deixam de funcionar e os carros param nas ruas. Curioso, Ray segue outros moradores até um cruzamento danificado. O que surge do chão encerra qualquer possibilidade de rotina e transforma o bairro em uma zona de fuga.

Spielberg revela a invasão pelo olhar de quem está no meio da rua, sem acesso a autoridades ou informações confiáveis. Ray vê uma gigantesca máquina de três pernas atacar as pessoas ao redor e corre de volta para casa. Coberto pela poeira deixada pela destruição, ele demora alguns segundos para falar. Tom Cruise transmite o pavor daquele homem sem transformá-lo em herói invencível. Pela primeira vez, Ray sabe apenas que precisa retirar os filhos dali.

Uma minivan reparada por Manny (Lenny Venito), mecânico do bairro, oferece a chance de fuga. Ray coloca Robbie e Rachel no veículo e segue rumo à casa de Mary Ann. A decisão parece simples, porém quase todas as referências desapareceram. As estradas estão congestionadas, os telefones não funcionam e ninguém sabe quantas máquinas existem. Cada pessoa possui apenas um pedaço da história, geralmente acompanhado de medo e boatos.

A família pega a estrada

O percurso revela diferenças profundas entre pai e filhos. Robbie deseja observar a movimentação militar e demonstra uma coragem misturada com raiva. Rachel quer saber para onde estão indo, quando verão a mãe e se estarão protegidos. Ray tenta manter os dois dentro do carro, mas suas ordens carregam pouca força porque ele passou tempo demais ausente.

Dakota Fanning entrega uma atuação muito convincente. Rachel grita, chora e faz perguntas, reações coerentes para uma criança diante de uma ameaça impossível de compreender. A menina também possui crises de ansiedade e conhece maneiras de controlar a própria respiração. Esses detalhes tornam sua presença mais humana e lembram que sobreviver não depende apenas de correr. Ray precisa cuidar do corpo e do medo da filha enquanto vigia um filho adolescente disposto a agir por conta própria.

Justin Chatwin interpreta Robbie com a impaciência de quem já não acredita muito no pai. Ele observa os soldados, procura participar de algo maior e se incomoda com a fuga permanente. Ray, por sua vez, sabe que não pode oferecer certezas. A relação entre os dois fica mais tensa porque qualquer discussão consome segundos preciosos e pode separar a família em meio à multidão.

A minivan garante alguma vantagem, mas também atrai pessoas desesperadas por transporte. “Guerra dos Mundos” acerta ao mostrar que o medo coletivo pode ser tão ameaçador quanto as máquinas. Gente comum disputa espaço, comida e veículos porque ninguém sabe onde buscar proteção. Spielberg não transforma essas pessoas em vilões. São sobreviventes assustados, presos em uma situação na qual possuir um carro significa ganhar alguns quilômetros de esperança.

O abrigo também ameaça

Durante a fuga, Ray e Rachel cruzam o caminho de Harlan Ogilvy (Tim Robbins), homem que oferece abrigo em seu porão. O lugar protege os dois por algum tempo, porém traz outra fonte de tensão. Harlan está abalado, fala em resistir e acredita que pode enfrentar os invasores. Ray percebe que permanecer escondido exige controlar o barulho, a filha e também o comportamento imprevisível do anfitrião.

Tim Robbins interpreta Ogilvy com uma inquietação crescente. Seu personagem representa uma reação diferente ao desastre. Enquanto Ray deseja seguir adiante e reencontrar Mary Ann, Harlan quer permanecer e combater. O porão fica pequeno para duas formas tão distintas de sobrevivência, e o perigo do lado de fora torna qualquer desacordo ainda mais grave.

Spielberg trabalha bem a diferença entre os grandes espaços destruídos e o ambiente apertado do esconderijo. Nas ruas, Ray teme aquilo que pode surgir diante dele. No porão, precisa lidar com sons, sombras e movimentos percebidos apenas em partes. A câmera permanece próxima aos personagens e limita o conhecimento do público. Sabemos praticamente o mesmo que eles, condição que mantém a insegurança durante toda a fuga.

A guerra vista do chão

Adaptado livremente do romance de H. G. Wells, “Guerra dos Mundos” transfere a invasão para os Estados Unidos do início dos anos 2000. Spielberg prefere acompanhar civis em vez de apresentar longas reuniões governamentais ou planos de defesa. A guerra chega por sirenes, estradas fechadas, roupas abandonadas e famílias procurando abrigo. Ray não busca derrotar os invasores. Ele quer atravessar a cidade com os filhos e entregá-los em segurança à mãe.

Essa escolha dá ao longa uma força que permanece duas décadas depois. A destruição possui escala gigantesca, mas o drama continua preso a uma família pequena e cheia de problemas antigos. Ray começa a história sem saber conversar com Robbie ou cuidar de Rachel. A invasão obriga o personagem a prestar atenção em ambos, mesmo quando eles recusam suas ordens ou duvidam de suas escolhas.

Tom Cruise deixa de lado a confiança habitual de muitos de seus papéis. Seu Ray corre, tropeça, erra e decide com as poucas informações disponíveis. Há algo quase irônico em ver um homem capaz de controlar um guindaste no porto, mas incapaz de oferecer uma refeição decente aos próprios filhos. Quando a situação desaba, contudo, ele assume uma responsabilidade que adiou por anos.

“Guerra dos Mundos” enfraquece em algumas coincidências e apressa certas passagens, especialmente quando procura encerrar uma história marcada por tanta destruição. Ainda assim, Spielberg sustenta uma aventura angustiante, sensível e muito próxima das pessoas comuns. O espetáculo impressiona, mas são os gestos de Ray, Rachel e Robbie que mantêm o filme vivo. Em meio a estradas bloqueadas e cidades arrasadas, a maior urgência daquele pai permanece simples e dolorosamente humana. Ele precisa impedir que sua família se perca outra vez.


Filme: Guerra dos Mundos
Diretor: Steven Spielberg
Ano: 2005
Gênero: Ação/Aventura
Avaliação: 3.5/5 1 1
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