Connie Nikas (Robert Pattinson) atravessa uma noite caótica em Nova York tentando libertar o irmão Nick (Benny Safdie), preso após um assalto malsucedido. Dirigido por Josh e Benny Safdie, “Bom Comportamento” acompanha essa corrida pelas ruas, hospitais e bairros periféricos da cidade. Connie precisa conseguir dinheiro para pagar a fiança, mas cada plano improvisado cria outro problema. O drama vem dessa mistura entre afeto, manipulação e uma impressionante incapacidade de parar enquanto ainda existe alguma saída.
A história começa durante uma sessão de terapia de Nick, um rapaz com deficiência intelectual e dificuldades para lidar com situações de pressão. O terapeuta tenta conversar com ele sobre a convivência familiar, mas Connie invade o consultório e retira o irmão dali. Para Connie, aquele atendimento parece uma interferência em uma relação que ele acredita controlar melhor do que qualquer profissional.
Pouco depois, os dois assaltam um banco e escapam com US$ 65 mil. O plano se desorganiza completamente quando um pacote de tinta escondido entre as notas estoura dentro do carro. O motorista bate, o dinheiro fica comprometido e os irmãos precisam continuar a fuga a pé. Eles entram no banheiro de um restaurante para lavar as roupas, mas chamam a atenção de um policial.
Nick entra em pânico e corre. Connie consegue escapar, enquanto o irmão é capturado e levado para a prisão. Em poucos minutos, aquilo que deveria garantir dinheiro aos dois deixa Nick sob custódia e transforma Connie no único responsável por tirá-lo de lá.
A fiança abre outra corrida
Connie procura uma agência de fiança e descobre que precisa levantar mais US$ 10 mil. Boa parte do valor roubado ficou inutilizada pela tinta, e o dinheiro restante já não cobre a libertação de Nick. Sem recursos próprios, ele procura Corey (Jennifer Jason Leigh), sua namorada mais velha e emocionalmente dependente dele.
Corey aceita pagar a diferença com os cartões da mãe. O plano quase avança, mas a mulher cancela o crédito antes da operação. Jennifer Jason Leigh permanece pouco tempo em cena, porém deixa evidente uma relação construída sobre carência e persuasão. Connie fala com doçura quando precisa de alguma coisa e abandona a conversa assim que percebe que Corey perdeu a utilidade financeira.
O tempo dispara quando ele descobre que Nick foi hospitalizado depois de uma briga com outro preso. Connie decide ir até o hospital e retirar o irmão sem autorização. O plano depende de corredores movimentados, funcionários distraídos e informações incompletas. Ele consegue entrar, mas um erro muda o rumo daquela noite e acrescenta um desconhecido à fuga.
Revelar a identidade dessa pessoa comprometeria uma das melhores surpresas de “Bom Comportamento”. Basta dizer que Connie deixa o hospital acreditando ter resolvido um problema e descobre, pouco depois, que carregou outro para dentro do carro. A situação seria engraçada pela falta de competência, caso ninguém estivesse correndo o risco de voltar para a cadeia.
Uma cidade cheia de portas fechadas
A partir do hospital, Connie atravessa residências, ruas pouco iluminadas e estabelecimentos fechados tentando obter dinheiro. Ele passa a depender das lembranças fragmentadas de Ray (Buddy Duress), homem ligado a pequenos delitos e a uma quantia escondida antes de sua prisão. Ray acredita que pode recuperar algo valioso, enquanto Connie aceita acompanhá-lo porque ainda precisa completar a fiança de Nick.
A busca leva os dois a um parque de diversões fechado. O local oferece esconderijos, depósitos e corredores vazios, mas também possui vigilância. Quando o segurança Dash (Barkhad Abdi) percebe a invasão, Connie cria outra mentira para permanecer livre. Cada solução preserva sua fuga por alguns minutos e transfere o perigo para alguém que sequer conhecia Nick.
Esse comportamento define o protagonista mais do que qualquer discurso. Connie afirma estar agindo pelo irmão, mas utiliza Corey, Ray e desconhecidos sempre que precisa de dinheiro, transporte ou proteção. Sua inteligência existe, embora trabalhe quase exclusivamente para remendar decisões ruins. Ele possui o talento curioso de entrar em lugares proibidos e a habilidade ainda maior de piorar o que encontra lá dentro.
Robert Pattinson domina a madrugada
Robert Pattinson larga mão de qualquer vestígio do galã que marcou o início de sua carreira. Com cabelo descolorido, barba irregular e movimentos inquietos, ele interpreta Connie sem transformá-lo em criminoso elegante. O personagem fala baixo, observa quem está ao redor e adapta sua postura às fraquezas de cada interlocutor. Quando precisa parecer carinhoso, oferece atenção. Quando o carinho deixa de render alguma vantagem, parte para a pressão.
Benny Safdie traz o contraponto mais sensível como Nick. O rapaz segue Connie porque confia no irmão, mas não possui recursos emocionais para suportar o assalto e a perseguição policial. A prisão nasce de um plano no qual Nick jamais teve controle verdadeiro. Enquanto Connie circula livremente por Nova York, Nick paga sozinho o preço do crime cometido pelos dois.
A proximidade da câmera mantém o espectador preso aos rostos e limita a visão do que existe ao redor. Os irmãos Safdie mostram apenas a informação disponível naquele instante, impedindo qualquer sensação confortável de segurança. A montagem corta os intervalos entre erro e cobrança, enquanto a música eletrônica de Oneohtrix Point Never mantém a madrugada em estado permanente de urgência.
Afeto que também aprisiona
“Bom Comportamento” possui ritmo acelerado, mas é a relação entre os irmãos que move o filme. Connie ama Nick e acredita sinceramente que pode protegê-lo. O problema está na forma escolhida para exercer esse cuidado. Ele retira o irmão da terapia, inclui o rapaz em um roubo e decide tudo sem considerar sua capacidade de suportar as consequências.
Josh e Benny Safdie observam esse vínculo sem oferecer uma desculpa confortável para Connie. O personagem pode ser dedicado, persuasivo e até brilhante durante alguns improvisos, mas continua deixando pessoas feridas ou comprometidas pelo caminho. Sua corrida para salvar Nick também prolonga uma situação criada por ele próprio.
O suspense preserva várias viradas e não depende de uma investigação complicada. O objetivo permanece simples durante toda a madrugada. Connie precisa conseguir dinheiro e retirar Nick da prisão antes que também seja capturado. A graça amarga está em perceber que ele poderia interromper a sequência de danos, mas sempre acredita estar a apenas mais um golpe da solução.
“Bom Comportamento” transforma uma noite nova-iorquina numa sucessão sufocante de portas abertas por mentira e fechadas pela polícia. Robert Pattinson sustenta o filme com energia nervosa, enquanto Benny Safdie oferece humanidade ao irmão que recebe a menor parcela de escolha. Quando as últimas sirenes se aproximam, Connie já gastou dinheiro, aliados e tempo, mas ainda precisa responder pelo primeiro plano que colocou Nick atrás das grades.

