Na ensolarada Califórnia, Samantha Montgomery (Hilary Duff) trabalha para uma madrasta autoritária enquanto sonha com Princeton e vive um romance anônimo pela internet. Dirigida por Mark Rosman, a comédia romântica “A Nova Cinderela” transporta o conhecido conto de fadas para uma escola norte-americana povoada por atletas, líderes de torcida e adolescentes que ainda dependiam de e-mails para declarar sentimentos. O resultado envelheceu em alguns detalhes, mas conserva uma simpatia difícil de negar.
Uma Cinderela de uniforme
Sam perde o pai, Hal Montgomery (Whip Hubley), durante um terremoto ainda na infância. Sem o homem que cuidava dela e administrava a lanchonete da família, a menina fica sob a responsabilidade de Fiona (Jennifer Coolidge), sua madrasta. A mulher assume a casa, o restaurante e qualquer decisão ligada à enteada.
Anos depois, Sam divide seus dias entre as aulas e o trabalho na lanchonete. Fiona exige que ela limpe o estabelecimento, sirva os clientes e ainda cuide das necessidades de Brianna (Madeline Zima) e Gabriella (Andrea Avery), suas duas filhas mimadas. As irmãs vivem ocupadas com compras, roupas e planos desastrados para conquistar garotos. Trabalhar, definitivamente, nunca entrou na programação das duas.
Apesar da rotina cansativa, Sam mantém boas notas e pretende estudar na Universidade de Princeton. Ela guarda dinheiro para realizar esse projeto, embora Fiona despreze a ideia e prefira conservar a enteada atrás do balcão. A jovem possui casa, família e emprego, mas quase nada disso está sob seu comando.
Hilary Duff interpreta Sam com a delicadeza esperada de uma protagonista voltada ao público adolescente. Sua personagem sofre humilhações, porém não passa o filme inteiro esperando por um salvador. Ela estuda, trabalha e procura uma saída possível, mesmo quando lhe faltam dinheiro e apoio dentro de casa.
Um romance escondido na internet
O pequeno alívio de Sam vem das conversas virtuais com um rapaz identificado apenas pelo apelido Nomad. Os dois frequentam a mesma escola, desejam cursar Princeton e compartilham inquietações que dificilmente revelariam em público. Sem saber o nome ou o rosto um do outro, criam uma intimidade baseada em textos e confidências.
Nomad é Austin Ames (Chad Michael Murray), o jogador mais popular do colégio. Bonito, admirado e cercado por colegas, ele parece ocupar a posição que qualquer adolescente desejaria. A imagem bem cuidada esconde um rapaz pressionado pelo pai, Andy Ames (Kevin Kilner), que já escolheu seu futuro universitário e esportivo.
Sam e Austin vivem problemas parecidos, embora estejam separados pela hierarquia escolar. Ela trabalha servindo alunos que mal a cumprimentam. Ele atravessa os corredores cercado por amigos e namora Shelby Cummings (Julie Gonzalo), líder de torcida acostumada a tratar popularidade como propriedade particular. Pela internet, ambos conseguem abandonar esses papéis durante algumas horas.
A escolha funciona especialmente bem por registrar um período muito específico da cultura juvenil. “A Nova Cinderela” nasceu quando conversas virtuais ainda carregavam certo mistério e conhecer alguém pela rede parecia uma aventura. O celular ocupa o lugar do sapatinho de cristal, enquanto os e-mails substituem as cartas secretas. Vinte anos depois, essa tecnologia ganhou um ar quase arqueológico, o que tornou o filme ainda mais agradável para quem atravessou os anos 2000.
O encontro no baile
Austin convida Nomad para um encontro no baile de Halloween da escola. Sam aceita, mas Fiona se recusa a liberá-la do expediente. A adolescente recebe ajuda de Carter Farrell (Dan Byrd), seu melhor amigo, e de Rhonda (Regina King), gerente da lanchonete e antiga amiga de seu pai.
Rhonda providencia o vestido e a máscara usados por Sam. Carter cuida do transporte e acompanha a amiga até a festa, mesmo preocupado com o horário. A jovem precisa conhecer Austin e regressar ao restaurante antes que Fiona descubra sua ausência. A referência à meia-noite ganha, dessa maneira, uma versão bastante comum para qualquer adolescente criado por um adulto controlador.
No baile, Austin revela sua identidade, mas não reconhece Sam sob a máscara. Os dois dançam e conversam longe da plateia habitual do colégio. Ela finalmente fica diante do rapaz com quem dividia seus pensamentos, embora ainda não tenha coragem de revelar quem é. Quando o tempo acaba, Sam deixa a festa e perde o celular durante a saída.
Austin encontra o aparelho e inicia uma busca pela garota misteriosa. O colégio logo vira palco para candidatas interessadas em ocupar o lugar de Cinderela. Algumas realmente acreditam que podem enganá-lo. Outras parecem apenas felizes com a chance de chegar perto do jogador. A situação rende passagens divertidas e movimenta personagens secundários sem abandonar o romance central.
Jennifer Coolidge rouba atenção
A parte mais divertida de “A Nova Cinderela” pertence a Jennifer Coolidge. Fiona poderia ser apenas uma madrasta cruel, mas a atriz acrescenta vaidade, preguiça e uma completa falta de noção à personagem. Ela transforma atividades banais, incluindo refeições e sessões de bronzeamento, em demonstrações de egoísmo. Cada entrada sua deixa a casa mais barulhenta e a vida de Sam um pouco mais difícil.
Madeline Zima e Andrea Avery acompanham o exagero da mãe nas figuras de Brianna e Gabriella. As irmãs tentam parecer sofisticadas, porém quase sempre revelam pouca inteligência e coordenação. A comédia nasce dessa confiança sem qualquer fundamento. Elas fracassam com tamanha convicção que às vezes merecem alguns segundos de admiração.
Regina King oferece o necessário contraponto afetivo. Rhonda trata Sam com carinho, protege seus planos e recorda a existência de adultos capazes de escutar. Dan Byrd também se destaca como Carter, um aspirante a ator que enfrenta suas próprias frustrações no colégio. Os dois impedem que a protagonista permaneça inteiramente isolada diante de Fiona.
Um romance preso ao seu tempo
Mark Rosman mantém a história simples e movimentada. A direção alterna a casa, a escola, o baile e a lanchonete sem transformar o enredo numa sucessão confusa de coincidências. O roteiro de Leigh Dunlap recupera elementos conhecidos de Cinderela e encontra equivalentes compreensíveis dentro da adolescência norte-americana.
Nem todas as escolhas resistiram bem ao passar dos anos. O ambiente escolar segue divisões muito rígidas, e certos personagens existem apenas para humilhar Sam ou alimentar piadas. Também é difícil acreditar que uma máscara tão discreta impeça Austin de reconhecer uma colega que ele vê com frequência. O conto original já pedia alguma boa vontade, e sua versão de 2004 pede um pouco mais.
Ainda assim, Hilary Duff e Chad Michael Murray sustentam o casal com leveza. Sam deseja ser reconhecida além do uniforme da lanchonete. Austin precisa reunir coragem para contrariar as expectativas do pai e dos colegas. O romance cresce porque ambos encontram, nas mensagens anônimas, uma sinceridade ausente em suas relações presenciais.
“A Nova Cinderela” entrega uma fantasia romântica confortável, recheada de moda dos anos 2000, celulares antigos e uma trilha sonora marcada pelo pop adolescente. Sua ingenuidade pode parecer excessiva para parte do público adulto, mas combina com uma história feita para quem deseja acreditar que uma festa, uma mensagem e um telefone perdido ainda podem mudar uma noite inteira. E Jennifer Coolidge, coberta de bronzeador e autoridade doméstica, garante que o conto de fadas nunca fique comportado demais.

