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Em uma Roma esvaziada pela pandemia, um soldado americano procura o irmão desaparecido enquanto investiga uma ameaça terrorista contra o Vaticano. A missão exige discrição, mas as pessoas envolvidas parecem ter interesses bastante diferentes dos seus. Dirigido por Abel Ferrara, “Zeros e Uns” (2021) acompanha uma operação militar cercada de espionagem, disputas políticas e informações incompletas, com Ethan Hawke interpretando dois irmãos separados por convicções ideológicas. Entre militares, agentes estrangeiros e suspeitos de terrorismo, o protagonista precisa descobrir em quem confiar antes que a situação saia de controle.

JJ (Ethan Hawke) é um soldado americano enviado a Roma durante a pandemia de Covid-19 para investigar uma ameaça terrorista contra o Vaticano. Sua tarefa seria suficientemente complicada mesmo sem os problemas familiares que carrega. O militar também procura Justin (Ethan Hawke), seu irmão gêmeo, um militante anarquista mantido como prisioneiro político e cujo paradeiro permanece incerto. Existe a possibilidade de que esteja morto, mas JJ ainda espera conseguir alguma informação sobre ele.

Em “Zeros e Uns”, Abel Ferrara coloca o protagonista numa cidade bastante diferente daquela que costuma receber milhões de turistas. As restrições sanitárias esvaziaram as ruas, limitaram a circulação de pessoas e deixaram uma atmosfera de abandono em lugares habitualmente movimentados. O cenário favorece operações clandestinas, encontros discretos e uma sensação permanente de vigilância.

JJ percorre Roma carregando uma câmera e registrando parte de suas atividades. Precisa reunir informações sobre o possível atentado, identificar os envolvidos e descobrir até que ponto pode confiar nas pessoas que cruzam seu caminho. A dificuldade está na quantidade de interesses políticos e militares presentes na investigação. Cada contato oferece uma parcela da história, mas quase ninguém parece disposto a revelar tudo o que sabe.

Ferrara, responsável por “Vício Frenético” (1992), trabalha com uma abordagem bastante particular do cinema de espionagem. Seu protagonista desconhece boa parte do que acontece ao redor e frequentemente depende de pessoas cujas intenções permanecem obscuras. A experiência militar de JJ ajuda a mantê-lo na operação, embora esteja longe de garantir sua segurança.

Dois irmãos em lados opostos

A procura por Justin acrescenta uma preocupação pessoal à missão. Os irmãos compartilham a aparência, mas possuem convicções políticas distintas. JJ pertence à estrutura militar americana, enquanto Justin é um militante anarquista associado a grupos que contestam o poder estabelecido. Seu envolvimento político o transformou em prisioneiro, e as circunstâncias de seu desaparecimento aumentam as suspeitas em torno dele.

Ethan Hawke interpreta os dois personagens, trabalhando com diferenças de comportamento que ajudam a distinguir suas personalidades. JJ é disciplinado e acostumado a cumprir ordens, embora demonstre inquietação diante das informações que recebe. Justin representa uma postura de contestação, ligada às disputas ideológicas que atravessam a história.

A relação familiar ganha importância porque Justin pode possuir informações relevantes sobre os acontecimentos investigados pelo irmão. Encontrá-lo passa a interessar tanto ao homem preocupado com a família quanto ao soldado encarregado de impedir um possível ataque. Há uma contradição incômoda nessa situação. JJ precisa proteger uma instituição enquanto procura alguém que passou a ser perseguido por suas posições políticas.

Ferrara aproveita essa diferença para introduzir questões relacionadas à autoridade, à liberdade individual e ao uso da violência por organizações políticas. Essas discussões surgem durante os acontecimentos, embora algumas conversas sejam tão fragmentadas que exigem atenção redobrada do espectador.

Espionagem e interesses conflitantes

A investigação coloca JJ em contato com personagens que tornam sua permanência em Roma ainda mais arriscada. Entre eles estão agentes russas interpretadas por Cristina Chiriac e Dounia Sichov, além de Luciano (Valerio Mastandrea) e Phil (Phil Neilson). Cada um participa desse ambiente marcado pela circulação de informações, pelas suspeitas e pelos interesses de organizações diferentes.

O militar precisa continuar trabalhando sem conhecer inteiramente as intenções de seus interlocutores. A possibilidade de um atentado contra o Vaticano aumenta a pressão, enquanto a situação de Justin permanece indefinida. As duas preocupações passam a ocupar seus pensamentos, prejudicando qualquer tentativa de separar a missão dos problemas familiares.

Quem espera um suspense militar repleto de perseguições, tiroteios e explicações minuciosas encontrará uma proposta diferente. Ferrara prefere acompanhar os deslocamentos do protagonista, suas conversas e as circunstâncias pouco confortáveis dos encontros clandestinos. A violência integra aquele ambiente, mas boa parte da tensão nasce da dificuldade de reconhecer quem representa uma ameaça.

Essa escolha possui qualidades e problemas. A fotografia escura e as ruas desertas reforçam a insegurança vivida pelo soldado, enquanto o registro irregular de determinadas situações aproxima o público de sua percepção fragmentada. Entretanto, o excesso de informações incompletas prejudica a compreensão de alguns acontecimentos. Existem momentos em que o mistério parece decorrer mais da maneira pela qual Ferrara apresenta os fatos do que das próprias circunstâncias da investigação.

O Vaticano sob ameaça

A possibilidade de um ataque contra o Vaticano permanece como uma das principais preocupações do protagonista. A importância religiosa e política do território acrescenta gravidade à operação, especialmente porque a identidade dos envolvidos e seus interesses permanecem cercados de suspeitas.

O contexto da pandemia também oferece uma característica particular à produção. Filmado durante aquele período, “Zeros e Uns” incorpora o isolamento urbano, as restrições de circulação e a insegurança coletiva à rotina de seus personagens. Roma aparece distante da imagem turística habitual, transformada num território de vigilância e encontros reservados.

Ferrara utiliza esse ambiente para desenvolver uma história que mistura terrorismo, espionagem, radicalização política e relações familiares. A proposta é interessante, embora sua execução nem sempre consiga sustentar o envolvimento emocional. A maneira fragmentada de apresentar determinados acontecimentos exige bastante paciência, especialmente de quem deseja acompanhar cada etapa da operação militar sem precisar reconstruir informações constantemente.

Ethan Hawke permanece como o principal motivo para acompanhar a produção. Sua interpretação ajuda a dar alguma humanidade a uma história povoada por personagens desconfiados e relações pouco transparentes. JJ carrega a responsabilidade de impedir uma tragédia, mas também deseja descobrir o que aconteceu com alguém de sua família. Mesmo cercado por ordens militares e interesses políticos, continua procurando notícias do irmão.

“Zeros e Uns” é um suspense de guerra incomum, interessado nas incertezas de uma operação clandestina e nas dificuldades de um homem dividido entre suas obrigações e seus vínculos pessoais. Abel Ferrara encontra na Roma pandêmica um cenário apropriado para essa história, mas sua preferência por informações dispersas compromete parte da experiência. O espectador acompanha JJ pelas ruas praticamente vazias da capital italiana, enquanto o soldado procura Justin e tenta impedir que a ameaça contra o Vaticano se concretize.


Filme: Zero e Uns
Diretor: Abel Ferrara
Ano: 2021
Gênero: Ação/Aventura/Guerra/Mistério/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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