Não é nada fácil tentar corresponder ao que podem esperar de nós todos aqueles que não nos conhecem e arvoram-se em nossos advogados ou juízes, mas é escandalosamente melancólico fazer da vida uma mercadoria vulgar, a ser comprada ao preço mais em conta pelo primeiro que aparecer. Desajustes são comuns quando tudo o que se tem é pouco mais que a gana de seguir em frente, mas há quem enverede pelo lado mais obscuro da estrada com tanto gosto que passa a achar-se credor de tudo o que o mundo tenha a oferecer para que se escape ao tédio do existir. Impasses da juventude contemporânea pipocam da forma mais lúdica em “A Nova Cinderela”, uma releitura da célebre fábula sobre a busca por aceitação — com o amor romântico por pano de fundo, claro —, e não existe período mais adequado para tratar do assunto do que aquele já longínquo começo dos anos 2000. Telefones celulares e serviços de mensagens instantâneas ainda exordiais, porém sedutores, numa quadra de isolamento e horror ao diálogo constituem o paradoxo que Mark Rosman esmiúça abusando da nostalgia, evocando o adolescente em nós.
Conto de fadas na escola
Samantha Montgomery está numa péssima fase. Depois da morte do pai, Sam depende da generosidade da madrasta, Fiona, e se esfalfa na lanchonete da família, sem deixar o sonho de ir à universidade. Mas os deuses parecem querer sorrir-lhe. Ela começa uma estranha correspondência com Austin, um colega da escola, e o roteiro de Leigh Dunlap prefere conferir ao destino a aura benevolente de um messias piedoso, consolando a garota com os auspícios de uma vida completamente nova. Hilary Duff capta a doçura da mocinha, equilibrando-a com bocados de uma refrescante pândega, fazendo um casal persuasivo com Chad Michael Murray. Propositalmente exagerada, Jennifer Coolidge é um respiro cômico que cai como uma luva, dando ainda mais vigor a essa liga do conto de fadas publicado por Charles Perrault (1628-1703) em 1697 com “Meninas Malvadas” (2004), dirigido por Mark Waters, num manifesto genuinamente schopenhaueriano acerca da perdição humana. Mas com um final feliz.

