Sophie viaja com o noivo para Verona, na Itália, mas uma carta escrita décadas antes muda completamente suas férias. Dirigido por Gary Winick, “Cartas para Julieta” acompanha a procura de uma mulher pelo namorado que abandonou na juventude e transforma essa busca numa comédia romântica terna, ensolarada e bastante consciente dos desejos de seu público.
Sophie Hall (Amanda Seyfried) trabalha em Nova York verificando informações para uma revista, embora sonhe em publicar seus próprios textos. Antes do casamento, ela viaja para a Itália com Victor (Gael García Bernal), seu noivo e futuro dono de restaurante. A ideia seria aproveitar alguns dias românticos em Verona, cidade associada à história de Romeu e Julieta.
Victor, porém, dedica quase todo o tempo aos preparativos do restaurante. Ele visita fornecedores, participa de degustações e fala com entusiasmo sobre vinhos, queijos, azeites e trufas. Sophie tenta acompanhá-lo, mas logo percebe que ocupa um lugar secundário naquela agenda. A viagem do casal passa a funcionar como uma excursão gastronômica na qual somente um dos dois recebeu o roteiro.
Gael García Bernal não interpreta Victor como um homem cruel. O personagem demonstra carinho pela noiva, mas está tão envolvido com o trabalho que não percebe a distância criada entre eles. Essa escolha deixa a relação mais verossímil. Sophie não enfrenta uma grande traição ou uma briga escandalosa. Ela apenas descobre que se sente sozinha ao lado da pessoa com quem planeja se casar.
Uma carta esquecida em Verona
Enquanto Victor procura produtos para o restaurante, Sophie passeia pela cidade e chega à casa atribuída a Julieta. Mulheres de várias partes do mundo deixam cartas no local, pedindo conselhos amorosos à personagem de William Shakespeare. As mensagens são recolhidas por voluntárias conhecidas como secretárias de Julieta, que respondem às remetentes.
Sophie se aproxima do grupo e participa do trabalho. Durante essa experiência, encontra escondida atrás de uma pedra uma carta enviada cinquenta anos antes. A autora é Claire Smith, uma jovem inglesa que havia desistido de fugir com Lorenzo Bartolini, seu namorado italiano. O medo venceu naquela ocasião, mas a lembrança do rapaz continuou presente durante toda a vida dela.
Comovida pelo relato, Sophie escreve uma resposta. O gesto parece pequeno, ainda que chegue à destinatária com meio século de atraso. Pouco depois, Claire (Vanessa Redgrave) aparece em Verona acompanhada do neto Charlie Wyman (Christopher Egan). Viúva e disposta a rever o passado, ela decide procurar Lorenzo. Charlie considera a ideia arriscada e culpa Sophie por incentivar a avó a perseguir uma lembrança que talvez já não exista.
Uma procura com muitos Lorenzos
Sophie aceita acompanhar Claire e Charlie pelas estradas da Toscana. A tarefa seria simples se Lorenzo Bartolini fosse um nome raro. Não é. A lista de possíveis candidatos reúne dezenas de homens, o que leva o trio a propriedades rurais, pequenas cidades e encontros nem sempre animadores.
Cada visita carrega expectativa, constrangimento e alguma graça. Certos candidatos estão muito longe da descrição feita por Claire. Outros oferecem surpresas pouco românticas. Charlie reage às tentativas com impaciência, enquanto Sophie insiste em continuar. Claire observa os dois com serenidade e raramente perde a compostura, mesmo quando a procura parece prestes a acabar.
Vanessa Redgrave oferece a melhor atuação de “Cartas para Julieta”. Claire poderia ser apenas a senhora delicada que atravessa a Itália atrás do primeiro amor, mas a atriz lhe dá firmeza, inteligência e plena consciência dos riscos. Ela sabe que poderá sofrer outra decepção. Ainda assim, prefere descobrir o que aconteceu a permanecer protegida pela dúvida.
Charlie deseja poupar a avó desse sofrimento, embora sua proteção também esconda certo medo de perder espaço na vida dela. Christopher Egan interpreta o personagem com uma irritação que, às vezes, fica mais carregada do que o necessário. A convivência forçada com Sophie, entretanto, permite que ele revele uma personalidade menos antipática durante as longas horas na estrada.
O romance segue pela Toscana
Sophie encontra na história de Claire a oportunidade de escrever a matéria que sempre quis assinar. Ao mesmo tempo, a convivência com Charlie faz com que ela examine o próprio relacionamento. Victor continua concentrado no restaurante, enquanto Charlie, apesar das provocações, presta atenção ao que Sophie diz e questiona suas escolhas.
Amanda Seyfried sustenta bem essa mudança. Sua personagem não abandona os compromissos anteriores por impulso. Ela observa o carinho de Claire por um homem que não vê há décadas e compara essa lembrança com o casamento que está prestes a assumir. A dúvida cresce aos poucos, alimentada pela ausência de Victor e pelos dias compartilhados com Charlie.
Gary Winick envolve essa história em paisagens italianas que parecem retiradas de uma campanha de turismo. Vinhedos, estradas rurais, praças antigas e refeições ao ar livre tornam a viagem especialmente convidativa. A beleza dos cenários também favorece o caráter idealizado do romance. Há pouco espaço para sujeira, cansaço ou hotéis ruins. Até os desencontros parecem acontecer sob uma luz cuidadosamente escolhida.
O roteiro de José Rivera e Tim Sullivan não procura surpreender o espectador. As intenções dos personagens aparecem cedo e os caminhos amorosos podem ser previstos sem grande esforço. Algumas situações dependem de coincidências convenientes, enquanto certos diálogos entregam sentimentos que já estavam evidentes. Mesmo assim, o longa preserva sua simpatia porque trata Claire com respeito e permite que uma mulher mais velha ocupe o centro da aventura.
Uma história feita para confortar
“Cartas para Julieta” pertence ao grupo das comédias românticas que oferecem conforto em vez de inquietação. O filme acredita em reencontros, novas escolhas e viagens capazes de despertar desejos esquecidos. Faz tudo isso com tamanha sinceridade que suas facilidades acabam se tornando parte do encanto.
A relação entre Sophie e Charlie segue um caminho conhecido, sustentado primeiro pela implicância e depois pela proximidade. O vínculo de Claire com o passado, porém, oferece maior peso emocional. Vanessa Redgrave transforma cada lembrança em algo vivido, sem exagerar a tristeza ou pedir compaixão do público.
Há ingenuidade em “Cartas para Julieta”, mas também existe uma percepção sensível sobre o tempo perdido. Claire não pode voltar à juventude nem apagar a decisão que tomou. Sophie, por sua vez, ainda pode observar a vida que escolheu antes de assinar os próximos capítulos. Entre cartas, vinhedos e uma quantidade impressionante de homens chamados Lorenzo, as duas seguem pela Itália porque permanecer na dúvida já lhes custa mais do que procurar.

