Em “Garota Infernal”, Karyn Kusama mostra que Jennifer (Megan Fox) e Needy (Amanda Seyfried) não são amigas comuns. As duas cresceram juntas em Devil’s Kettle, uma cidade pequena dos Estados Unidos onde quase nada acontece além de festas escolares, boatos de corredor e adolescentes tentando parecer mais interessantes do que realmente são. Jennifer se sobrepõe em qualquer ambiente que frequenta. Bonita, arrogante e consciente do efeito que provoca nos garotos, ela transforma a própria presença em um evento. Needy vive no extremo oposto. Reservada, estudiosa e mais insegura, ela aceita ocupar um espaço secundário naquela amizade há anos.
O equilíbrio precário entre as duas muda durante uma apresentação da banda Low Shoulder em um bar local. Jennifer insiste para que Needy vá ao show, principalmente porque o vocalista Nikolai, interpretado por Adam Brody, chama sua atenção. O ambiente parece improvisado, apertado e desconfortável, mas os moradores lotam o lugar pela simples possibilidade de algum entretenimento surgir em Devil’s Kettle. Então o incêndio começa. O bar pega fogo diante do público e a cidade inteira mergulha em choque. Pessoas morrem tentando escapar enquanto Jennifer e Needy conseguem sair do local ainda desorientadas.
A situação fica mais estranha quando Jennifer aceita entrar na van da banda logo após a tragédia. Needy percebe que há algo errado nos músicos e tenta impedir a amiga, mas Jennifer ignora os avisos. Horas depois, ela aparece na casa de Needy completamente ensanguentada, vomitando uma substância escura e mal conseguindo falar. Kusama traz essa sequência com um humor perverso que funciona justamente pelo absurdo da situação. Jennifer parece saída de um filme de possessão demoníaca, mas ainda encontra energia para agir como a garota popular da escola.
Jennifer vira ameaça dentro da escola
Nos dias seguintes, Jennifer retorna aparentemente saudável. Ela volta às aulas maquiada, provocadora e estranhamente indiferente às mortes causadas pelo incêndio. Enquanto Devil’s Kettle tenta lidar com o luto coletivo, Jennifer passa a circular pelos corredores como se nada tivesse acontecido. A mudança de comportamento chama atenção de Needy, principalmente porque a amiga demonstra uma fome quase animalesca e começa a desaparecer durante a noite.
Os ataques surgem pouco a pouco. Jennifer usa sua popularidade para atrair rapazes vulneráveis da escola. Alguns acreditam que finalmente conseguiram chamar atenção da garota mais desejada do colégio. Outros enxergam nela uma espécie de refúgio emocional. Kusama trabalha essas cenas misturando humor adolescente e terror corporal de maneira bastante eficiente. Há momentos em que o filme parece zombar do comportamento masculino juvenil, especialmente da facilidade com que aqueles garotos ignoram sinais evidentes de perigo quando Jennifer resolve demonstrar interesse.
Megan Fox compreende perfeitamente o tom do filme. Durante anos, “Garota Infernal” foi tratado apenas como veículo para explorar sua imagem sensual criada em Hollywood naquele período. Revendo hoje, fica evidente como a atriz interpreta Jennifer quase como uma caricatura agressiva da forma como homens enxergavam personagens femininas adolescentes no cinema dos anos 2000. Jennifer é cruel, manipuladora, insegura e profundamente solitária. Ela usa sedução como mecanismo de sobrevivência e controle, embora raramente admita qualquer fragilidade.
Amanda Seyfried é um contraponto emocional da história. Needy percebe rapidamente que algo sobrenatural aconteceu com Jennifer, mas demora para compreender a dimensão da ameaça. Enquanto investiga a origem daquela transformação, ela também tenta proteger Chip (Johnny Simmons), seu namorado. O relacionamento dos dois traz alguma estabilidade ao filme, embora Jennifer faça questão de invadir esse espaço constantemente, seja através de provocações, ciúmes ou jogos psicológicos bastante infantis.
Humor ácido e terror adolescente
Diablo Cody, responsável pelo roteiro, aposta em diálogos rápidos e comentários carregados de ironia adolescente. Algumas frases parecem saídas de conversas reais entre estudantes tentando soar descolados diante dos amigos. Esse humor não deixa que o longa mergulhe em um terror excessivamente sombrio.
O filme também trabalha muito bem o ambiente de Devil’s Kettle. A cidade transmite sensação constante de isolamento. As ruas vazias, os bosques escuros e os espaços improvisados reforçam a impressão de que aqueles personagens vivem presos em um lugar pequeno demais para esconder tantos segredos. O incêndio no bar fica como memória coletiva durante toda a narrativa. Cada novo desaparecimento faz os moradores retomarem aquela noite traumática, aumentando o medo dentro da escola e entre os pais dos adolescentes.
Durante muito tempo, “Garota Infernal” sofreu com uma divulgação equivocada, vendida quase exclusivamente como fantasia masculina envolvendo Megan Fox. Isso prejudicou a recepção inicial do longa. Com os anos, o filme ganhou outro reconhecimento porque muitas espectadoras perceberam algo que parte da crítica ignorou em 2009: Kusama estava falando sobre amizade feminina, insegurança adolescente, desejo e violência com um sarcasmo bastante particular.
Mesmo nos momentos mais absurdos, o filme mantém os personagens em primeiro plano. Jennifer quer continuar sendo admirada. Needy quer entender por que perdeu a amiga para algo monstruoso. Entre festas escolares, telefonemas noturnos e encontros perigosos em áreas afastadas de Devil’s Kettle, “Garota Infernal” constrói um terror adolescente estranho, engraçado e desconfortável na medida certa.

