Discover

No verão de 1979, adolescentes de uma pequena cidade de Ohio testemunham um desastre ferroviário enquanto gravam um filme para participar de um festival. Joe Lamb (Joel Courtney) ainda sofre com a morte da mãe quando aceita ajudar o amigo Charles Kaznyk (Riley Griffiths) a produzir um filme de zumbis. Joe cuida da maquiagem e dos efeitos especiais, enquanto Charles assume a direção com a seriedade de quem já se imagina recebendo um prêmio. O projeto oferece ao garoto algumas horas longe do silêncio desconfortável de casa e da relação difícil com o pai, o delegado Jack Lamb (Kyle Chandler).

Charles convida Alice Dainard (Elle Fanning) para interpretar a protagonista. A escolha melhora bastante o filme, embora crie um problema fora das gravações. Jack proíbe Joe de manter contato com a menina porque guarda ressentimento contra Louis Dainard (Ron Eldard), pai dela. Louis estava ligado ao acidente de trabalho que matou a mãe de Joe, uma ferida que continua aberta entre as duas famílias.

O grupo também reúne Cary McCarthy (Ryan Lee), fascinado por fogos de artifício, Martin Read (Gabriel Basso), responsável por interpretar o herói da história, e Preston Scott (Zach Mills). Cada um leva a produção mais a sério do que os recursos disponíveis permitem. Falta dinheiro, sobra improviso e ninguém parece preocupado com permissões. Para adolescentes empenhados em fazer cinema, uma estação ferroviária durante a madrugada soa como cenário, nunca como uma péssima ideia.

Durante a gravação, os amigos testemunham um trem sair dos trilhos e destruir boa parte da estação. Eles sobrevivem por pouco e descobrem sinais de que o desastre pode ter sido provocado. Assustados com as possíveis punições dos pais e com a dimensão do caso, combinam não contar o que viram. A promessa deixa a polícia sem depoimentos importantes e transforma a película gravada naquela noite na principal pista disponível.

O mistério cresce entre os destroços

Depois do acidente ferroviário, fenômenos estranhos começam a perturbar a cidade. Pessoas desaparecem, animais fogem e peças metálicas somem de casas, oficinas e estabelecimentos. A polícia recebe ocorrências que parecem desconectadas, mas Jack percebe que os problemas começaram após o descarrilamento. Sua tentativa de investigar esbarra na chegada do Exército, que ocupa áreas da cidade e restringe até o trabalho das autoridades locais.

O coronel Nelec (Noah Emmerich) assume o controle da operação militar e se recusa a compartilhar informações. Jack, acostumado a comandar a segurança do município, passa a lidar com barreiras, ruas fechadas e ordens dadas por homens que não respondem às suas perguntas. Kyle Chandler transmite bem o desconforto de um pai incapaz de conversar com o filho e de um policial impedido de cumprir o próprio trabalho. Quanto mais procura informações, menor fica sua autoridade.

Os adolescentes seguem outro caminho. Charles insiste em terminar o filme porque a inscrição no festival tem prazo, mesmo quando a situação deixa de permitir qualquer aventura inocente. Joe quer ajudá-lo, mas também se preocupa com Alice e com aquilo que pode estar escondido nas imagens da estação. A câmera Super 8 registra detalhes que os jovens não perceberam durante o caos e oferece uma pista que os adultos ainda desconhecem.

J.J. Abrams usa essa diferença de informação para sustentar o suspense. O público acompanha os jovens examinando a película, enquanto Jack tenta descobrir o que os militares escondem. A ameaça permanece pouco exposta durante boa parte da história. Barulhos, danos e desaparecimentos indicam sua presença antes que sua natureza seja revelada. Essa espera preserva a curiosidade sem abandonar os problemas familiares que cercam Joe.

Joe e Alice carregam a dor dos pais

A amizade entre Joe e Alice ocupa o centro emocional de “Super 8”. Os dois convivem com pais abatidos pela culpa e pela perda, embora nenhum adulto consiga explicar aos filhos o peso daquele passado. Joe se apega às lembranças da mãe e busca refúgio no filme caseiro. Alice vive sob a vigilância de Louis, cuja tristeza frequentemente assume a forma de irritação.

Elle Fanning oferece à personagem uma combinação de firmeza e vulnerabilidade. Alice impressiona os meninos durante as gravações, mas sua segurança diante da câmera não elimina o medo que sente em casa. Joel Courtney adota um registro mais contido. Joe observa, escuta e demora a dizer o que pensa, comportamento coerente com alguém acostumado a circular entre adultos que preferem o silêncio.

A aproximação dos dois adolescentes também dá ao enredo um risco pessoal. Cada encontro pode provocar a reação de Jack ou Louis, homens que transformaram os filhos em extensões de uma briga antiga. Quando Joe decide permanecer ao lado de Alice, ele desobedece ao pai e se aproxima da família responsabilizada por sua maior perda. O gesto não apaga a dor, mas impede que o ressentimento dos adultos determine sozinho a vida dos dois.

Crianças filmam enquanto adultos escondem

A graça de “Super 8” nasce principalmente da convivência entre os amigos. Charles pensa no enquadramento mesmo quando todos deveriam correr. Cary carrega fogos de artifício para situações nas quais nenhum ser humano responsável recomendaria acender um fósforo. Martin sofre com o nervosismo, mas continua participando porque abandonar o grupo parece pior. As discussões têm o ritmo desordenado de crianças falando juntas e tentando parecer mais corajosas do que realmente são.

Esse comportamento também ajuda a ação. Os jovens avançam porque são curiosos, leais e pouco conscientes do tamanho do perigo. Já os adultos possuem informação, armas e autoridade, mas estão separados por culpa, sigilo e ordens militares. Abrams cria uma aventura na qual a coragem infantil traz descobertas, embora cada nova pista cobre um preço maior.

A produção de Steven Spielberg pode ser percebida na combinação entre ficção científica, infância e famílias fragilizadas. Ainda assim, Abrams imprime sua conhecida preferência por segredos, pistas parciais e ameaças escondidas. Em alguns trechos, o mistério recebe tanta atenção que os militares parecem carregar uma placa anunciando que sabem mais do que dizem. A boa atuação do elenco jovem impede que essa fórmula fique fria.

Uma aventura guiada pela amizade

“Super 8” funciona melhor quando mantém a câmera caseira, a amizade e o luto no mesmo espaço. O acidente ferroviário abre a investigação, mas Joe permanece envolvido porque Alice corre perigo e porque as imagens podem revelar o que os adultos escondem. Charles continua filmando porque concluir aquela produção representa uma vitória possível em meio ao medo que tomou a cidade.

O longa perde um pouco da delicadeza quando a ação ganha proporções maiores. Certos acontecimentos recebem mais barulho do que emoção, e algumas explicações chegam perto de simplificar um mistério construído com cuidado. Mesmo assim, Abrams preserva o interesse ao manter Joe e Alice ligados às escolhas que movimentam a história.

Mais do que repetir aventuras juvenis de outras décadas, “Super 8” encontra personalidade na pequena equipe de cinema. Aqueles adolescentes querem apenas terminar um filme de zumbis, participar de um festival e talvez impressionar uma garota. Acabam envolvidos numa operação militar que ameaça suas famílias e sua cidade. A diferença de escala poderia sufocar os personagens, mas o elenco mantém a história próxima e afetiva.

A ficção científica tem um formato acessível, tenso e sensível, capaz de tratar o medo sem abandonar a leveza das conversas entre amigos. Joe começa a história tentando preservar a lembrança da mãe e termina obrigado a agir diante do que ainda pode perder. Enquanto os adultos bloqueiam ruas e escondem informações, os jovens voltam à película, identificam uma pista e seguem atrás de Alice antes que o cerco militar feche todas as passagens.


Filme: Super 8
Diretor: J.J. Abrams
Ano: 2011
Gênero: Aventura/Ficção Científica/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Leia Também