Pais passam anos construindo diante dos filhos uma imagem de normalidade que quase sempre desaba na adolescência. Os jovens descobrem que seus velhos mentem, erram, têm desejos, histórias e segredos, e a autoridade doméstica perde um pouco do verniz. Matt e Emily enfrentam uma versão muito mais inconveniente desse processo em “De Volta à Ação”: seus filhos descobrem que o casal suburbano, aparentemente banal, foi formado por dois agentes da CIA que desapareceram do mapa para constituir família. Seth Gordon parte da pergunta sobre o que aconteceria a um Jason Bourne com crianças para levar Jamie Foxx e Cameron Diaz de volta ao mundo da espionagem.
A ideia é tão boa quanto simples, e Gordon acerta ao não desperdiçar tempo fingindo que aquilo será levado muito a sério. Matt e Emily são apresentados em ação, jovens ainda, bonitos e perigosos, até perceberem que a chance de serem dados como mortos pode servir a um plano muito mais radical que qualquer missão: abandonar tudo.
Quinze anos de supermercado, compromissos escolares e jantares em família depois, a espionagem volta para buscá-los. O passado é indiscreto. A identidade dos dois vem à tona, antigos inimigos reaparecem e os filhos precisam aceitar que os pais capazes de discutir horário de dormir sabem também incendiar adversários e transformar utensílios cotidianos em armas.
Cameron Diaz regressa ao cinema depois de um longo afastamento sem permitir que o filme faça cerimônia demais em torno dela. Emily ainda tem a energia física de suas heroínas de ação, mas Diaz acrescenta a impaciência de uma mãe que preferia enfrentar mercenários a discutir com uma adolescente. É uma boa piada porque parece conter alguma verdade.
Jamie Foxx opera em outra frequência. Matt gosta mais do risco do que admite e, quando a antiga vida ressurge, vê-se nele uma satisfação quase infantil por descobrir que os reflexos continuam funcionando. Foxx sempre soube misturar autoconfiança e comicidade, e Gordon usa essa habilidade melhor nas cenas em que o personagem tenta transformar façanhas absurdas em comportamento paterno perfeitamente razoável.
Pais comuns, passado nada comum
O casal é o filme. Glenn Close, Andrew Scott e Kyle Chandler ajudam a ampliar a conspiração, mas “De Volta à Ação” perde força sempre que acredita que alguém se importa realmente com a engenhoca capaz de ameaçar governos ou com a arquitetura interna de alguma organização secreta. Nós queremos Matt e Emily discutindo casamento enquanto fogem de homens armados. E Gordon, felizmente, volta a isso com frequência.
Há algo de “Sr. & Sra. Smith” e uma boa dose das comédias de espionagem que Hollywood produz desde que descobriu que agentes secretos também podem trocar fraldas. O diferencial é a família já constituída. Matt e Emily não precisam descobrir se se amam; precisam descobrir quem se tornaram depois de esconder por quinze anos quem eram.
A ação é funcional, algumas reviravoltas são previsíveis e o filme não possui nenhuma ambição de reinventar o gênero. Não precisa. Cameron Diaz e Jamie Foxx têm uma familiaridade que não se fabrica em laboratório, e “De Volta à Ação” depende mais desse prazer de vê-los juntos que de qualquer explosão.
Filhos costumam achar os pais tediosos porque só os conheceram depois da aventura. Seth Gordon resolve o problema permitindo que dois adolescentes encontrem o passado deles da pior maneira possível. É uma terapia familiar muito cara, cheia de armas e inteiramente irresponsável. Exatamente por isso, funciona.

