Dirigido por David Yates, “Máfia da Dor” acompanha a ascensão de Liza Drake, vivida por Emily Blunt, numa pequena empresa que vende um potente analgésico. Ao lado do ambicioso Pete Brenner, interpretado por Chris Evans, ela transforma consultórios médicos em fonte de lucro enquanto enfrenta dificuldades financeiras e os problemas de saúde da filha. Inspirado em fatos reais, o drama criminal aborda a crise dos opioides nos Estados Unidos sem perder o ritmo de uma história sobre dinheiro, poder e culpa.
Liza Drake (Emily Blunt) cria sozinha a filha Phoebe (Chloe Coleman) e sobrevive com empregos instáveis na Flórida. Sem diploma universitário, dinheiro ou qualquer perspectiva profissional, ela mora na garagem da irmã e tenta pagar as despesas do mês. A situação piora quando perde o trabalho e precisa sair de casa com a menina. Um motel barato se torna o endereço possível enquanto as contas crescem e seu carro corre o risco de ser tomado.
É nesse período que Liza procura Pete Brenner (Chris Evans), um representante farmacêutico que conheceu durante uma noite de trabalho. Ele havia percebido a facilidade dela para conversar, observar clientes e descobrir o que cada pessoa desejava ouvir. Pete oferece uma vaga na Zanna Therapeutics, pequena farmacêutica instalada num shopping center envelhecido e perto da falência.
A empresa vende Lonafen, um analgésico potente destinado a pacientes com câncer que sofrem dores intensas. O medicamento enfrenta a concorrência de produtos já conhecidos pelos médicos, e quase nenhum consultório aceita ouvir os representantes da Zanna. Pete então altera o currículo de Liza para apresentá-la ao fundador Jack Neel (Andy García). Embora a candidata não tenha formação na área, Neel autoriza a contratação e concede cinco dias para que ela consiga sua primeira prescrição.
Cinco dias entre consultórios
Liza visita médicos, conversa com recepcionistas e tenta apresentar o Lonafen, mas encontra portas fechadas. Para os consultórios, ela é apenas outra vendedora oferecendo um remédio sem espaço no mercado. Para a Zanna, porém, uma única receita pode significar a sobrevivência da empresa. O salário e a permanência de Liza também dependem dessa assinatura.
A chance surge no consultório do Dr. Lydell (Brian d’Arcy James). Liza percebe que alguns pacientes enfrentam efeitos indesejados com outros medicamentos e apresenta o Lonafen como alternativa. Sua insistência convence o médico a fazer uma prescrição. O resultado garante seu emprego, fortalece Pete dentro da companhia e dá à Zanna a entrada que faltava no mercado local.
A primeira venda abre caminho para um programa de palestras patrocinado pela farmacêutica. Médicos recebem dinheiro para falar sobre o medicamento a outros profissionais, muitas vezes durante jantares promovidos pela empresa. Na aparência, são encontros científicos. Na rotina comercial, tornam-se uma maneira conveniente de recompensar quem prescreve o produto.
Liza prova que sabe lotar essas reuniões, conquistar médicos e transformar conversas informais em receitas. A Zanna contrata novos representantes e passa a ocupar espaço nos consultórios. O escritório modesto fica para trás, os bônus aumentam e os funcionários comemoram cada avanço com a empolgação de quem vendeu a cura da humanidade. Na verdade, venderam muitas caixas de um analgésico extremamente forte.
Dinheiro dentro de casa
A melhora financeira muda a vida de Liza. Ela conquista uma moradia melhor, paga as despesas e oferece mais conforto à filha. Emily Blunt interpreta essa ascensão com energia e vulnerabilidade. Sua personagem gosta do dinheiro e do reconhecimento, mas também carrega a pressa de uma mãe que passou tempo demais contando moedas.
Phoebe sofre com crises de saúde e precisa de acompanhamento médico. Essa preocupação aumenta a dependência de Liza em relação ao emprego. Abandonar a Zanna significaria perder renda quando a filha mais necessita de tratamento. Permanecer exige aceitar práticas comerciais que ficam mais agressivas a cada nova meta.
Jackie (Catherine O’Hara), mãe de Liza, também entra para a equipe de vendas. Comunicativa e interessada no dinheiro oferecido pela empresa, ela acrescenta uma dose de desordem familiar ao escritório. Catherine O’Hara aproveita a falta de filtro da personagem e cria situações divertidas sem transformar Jackie numa figura descartável. A mãe quer aproveitar a boa fase, ainda que sua presença exponha assuntos pessoais num ambiente comandado por executivos interessados apenas nos números.
Chris Evans abandona a imagem de herói correto para interpretar Pete como um vendedor espalhafatoso, esperto e pouco preocupado com escrúpulos. Ele comemora metas, pressiona funcionários e apresenta o crescimento da Zanna como vitória pessoal. Seu entusiasmo chega a ser engraçado porque sempre parece um pouco maior que a sala, a festa ou a própria empresa.
O preço de cada receita
O problema ganha outra dimensão quando a Zanna procura levar o Lonafen a pacientes que não pertencem ao grupo original. O remédio, criado para dores relacionadas ao câncer, passa a ser oferecido de maneira cada vez mais abrangente. Jack Neel exige mais prescrições, Pete cobra resultados e os médicos recebem incentivos para manter as receitas circulando.
Liza participa desse crescimento e aproveita seus benefícios. Por isso, “Máfia da Dor” não tenta apresentá-la como vítima inocente. Ela sabe que os pagamentos oferecidos aos médicos sustentam as vendas e usa sua habilidade para aumentar o alcance da empresa. Sua situação familiar explica a permanência no emprego, mas não apaga sua responsabilidade.
Quando aparecem sinais dos danos provocados pelo uso do Lonafen, o clima de festa perde espaço. Pacientes se tornam dependentes, famílias enfrentam perdas e a promessa de alívio revela um custo grave. Liza passa a olhar para as prescrições de outra maneira, pois cada assinatura já não representa somente salário ou prestígio. Também pode colocar uma vida em risco.
David Yates intercala a ascensão da Zanna com depoimentos e trechos que imitam documentários. O recurso antecipa que o sucesso da companhia será examinado pelas autoridades e mantém a história próxima do escândalo que a inspirou. Algumas escolhas deixam o relato fragmentado, mas a presença de Emily Blunt preserva o interesse pela vida de Liza.
Uma crise vista pelos vendedores
Inspirado no livro de Evan Hughes e no caso da farmacêutica Insys Therapeutics, “Máfia da Dor” usa personagens fictícios para abordar a crise dos opioides nos Estados Unidos. A história concentra atenção nos vendedores, médicos e executivos que transformaram a dor de pacientes em um negócio milionário. Essa escolha facilita a compreensão do esquema, embora deixe muitas vítimas em segundo plano.
O roteiro perde força quando repete imagens conhecidas de luxo, festas corporativas e executivos dominados pela ganância. Também procura tornar Liza mais simpática do que o assunto permite em certas passagens. Ainda assim, Emily Blunt oferece humanidade à personagem sem esconder suas contradições. Ela transmite tanto o orgulho da mulher que conseguiu sustentar a filha quanto o desconforto de quem percebe de onde veio aquele dinheiro.
“Máfia da Dor” reúne crime e drama numa história acessível, com ritmo ágil e personagens fáceis de acompanhar. O filme poderia dedicar mais tempo às pessoas atingidas pelo medicamento, mas apresenta com precisão a estrutura comercial por trás das prescrições. Entre jantares patrocinados, currículos falsificados, bônus e visitas a consultórios, Liza conquista a vida que desejava. O emprego resolve suas contas, garante cuidados para Phoebe e cobra um preço que nenhum salário consegue esconder.

