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Uma família deixa a cidade e procura abrigo após criaturas guiadas pelo som iniciarem um ataque devastador contra a população. Dirigido por John R. Leonetti, “O Silêncio” acompanha pessoas comuns obrigadas a controlar passos, falas e gestos enquanto o mundo perde qualquer aparência de normalidade.

A história começa quando pesquisadores rompem uma área subterrânea e libertam uma espécie alada que permaneceu milhões de anos na escuridão. Essas criaturas, chamadas vesps, não enxergam, mas possuem audição apurada e atacam tudo o que produz barulho. Em pouco tempo, elas deixam as cavernas, alcançam regiões habitadas e transformam cidades inteiras em territórios perigosos.

Hugh Andrews (Stanley Tucci) acompanha as notícias ao lado da esposa, Kelly Andrews (Miranda Otto), da filha adolescente Ally Andrews (Kiernan Shipka), do filho Jude (Kyle Breitkopf) e da avó Lynn (Kate Trotter). Quando os ataques se aproximam, a família abandona a residência e tenta alcançar uma área rural, onde espera permanecer escondida até que a situação melhore.

Uma família obrigada a calar

Ally perdeu a audição em um acidente de carro alguns anos antes. Ela se comunica por linguagem de sinais, lê lábios e também consegue falar. Esse conhecimento permite que os Andrews conversem sem produzir som, embora o roteiro exagere um pouco ao tratar a experiência da jovem quase como um manual completo de sobrevivência.

A habilidade da adolescente ajuda dentro de casa, mas não resolve os problemas encontrados na estrada. O grupo ainda precisa enfrentar congestionamentos, motoristas desesperados, falta de informações e a dificuldade de conseguir alimentos e medicamentos. Até os objetos mais comuns ganham outro peso. Um telefone, uma porta ou um motor podem revelar onde todos estão escondidos.

Hugh assume a responsabilidade pelas principais decisões. Stanley Tucci interpreta o pai com sobriedade, sem transformá-lo em um herói infalível. Ele sente medo, hesita e tenta proteger os parentes enquanto procura uma rota menos movimentada. Cada escolha envolve alguma perda, pois seguir pela estrada aumenta a exposição e permanecer parado oferece poucos recursos.

Kelly participa dessa fuga cuidando dos filhos e ajudando a manter a família unida. Miranda Otto entrega firmeza a uma personagem que poderia receber mais espaço no roteiro. Sua presença impede que o núcleo familiar vire apenas um grupo obedecendo às ordens de Hugh. Kelly também lembra que sobreviver exige atenção aos ferimentos, ao cansaço e ao estado emocional das crianças.

A estrada fica pequena

A saída da cidade rende alguns dos melhores trechos de “O Silêncio”. O diretor acompanha o grupo enquanto as vias ficam bloqueadas e o pânico cresce entre pessoas que ainda desconhecem o comportamento das criaturas. Ninguém possui tempo suficiente para aprender todas as regras. Quem fala, buzina ou dispara uma arma corre o risco de atrair dezenas delas.

O problema aparece quando o roteiro entrega informações cedo demais. As notícias explicam a origem dos ataques, o modo de caça e a velocidade da infestação antes que os personagens descubram esses detalhes por conta própria. Essa pressa enfraquece parte do suspense, pois o público sabe o que esperar enquanto a família ainda tenta interpretar o perigo.

Mesmo assim, Leonetti cria boas situações quando obriga os Andrews a atravessar espaços desconhecidos. Casas, lojas e estradas secundárias oferecem abrigo temporário, mas também escondem ameaças. O silêncio deixa de significar paz. Ele passa a exigir vigilância permanente, dedos sobre os lábios e uma atenção quase cruel a qualquer objeto fora do lugar.

A proposta tem algo de perversamente engraçado. Durante uma crise mundial, até espirrar pode virar uma péssima decisão. O filme aproveita essa lógica em pequenas passagens, embora nunca abandone o tom sombrio. A família não dispõe de equipamentos especiais ou treinamento militar. Seus recursos são um carro, alguns mantimentos e a capacidade de ficar calada quando o medo pede um grito.

Ally ocupa o centro da fuga

Kiernan Shipka apresenta Ally como uma adolescente observadora, capaz de acompanhar mudanças no ambiente pelas expressões e pelos movimentos das outras pessoas. A personagem não aparece apenas como alguém que precisa ser protegida. Ela participa das decisões, alerta os parentes e usa a linguagem de sinais para manter a comunicação nos momentos de maior perigo.

A escolha de uma atriz ouvinte para interpretar uma jovem surda recebeu críticas ligadas à representatividade e ao uso da linguagem de sinais. Dentro da história, Shipka oferece uma atuação segura e preserva a vulnerabilidade de Ally sem infantilizá-la. Ainda assim, algumas escolhas do roteiro tratam a surdez mais como ferramenta dramática do que como parte complexa da vida da personagem.

A relação entre Ally e Hugh fornece ao filme sua parte mais sensível. Pai e filha precisam observar um ao outro antes de agir, pois uma instrução mal interpretada pode colocar todos em risco. Tucci e Shipka mantêm essa proximidade por gestos contidos. Quando falam, existe sempre uma razão concreta. Quando permanecem calados, o perigo costuma estar perto.

Outros sobreviventes entram em cena

A fuga muda quando a família percebe que as criaturas representam apenas uma parte da ameaça. O colapso também abre espaço para grupos que criam regras próprias e usam o medo para dominar pessoas vulneráveis. O roteiro passa do horror de sobrevivência para uma disputa por abrigo, confiança e autoridade.

Essa mudança possui potencial, mas surge de maneira apressada. Alguns personagens humanos aparecem com intenções tão evidentes que o suspense perde força. O perigo deixa de crescer aos poucos e passa a ser anunciado pelo comportamento, pelo figurino e pelas expressões carregadas. Falta sutileza a essa parte da história, principalmente quando comparada à sobriedade de Tucci e Otto.

Ainda assim, a presença de outros sobreviventes acrescenta uma pergunta importante. Até onde uma família pode confiar em desconhecidos quando alimentos, medicamentos e espaços seguros se tornam raros? Hugh precisa decidir quem pode se aproximar, enquanto Ally desperta o interesse de pessoas que enxergam nela algo útil para o mundo que pretendem construir.

Um terror conhecido demais

As semelhanças com “Um Lugar Silencioso” são difíceis de ignorar. Os dois filmes acompanham famílias perseguidas por criaturas atraídas pelo som e incluem uma adolescente surda entre as figuras centrais. “O Silêncio”, porém, começa durante o surgimento da crise, enquanto o longa de John Krasinski apresenta uma sociedade que já aprendeu a viver sob novas regras.

A diferença permite que Leonetti mostre o nascimento do caos, os alertas na televisão e a saída das cidades. O filme poderia aproveitar melhor esse ponto de vista, mas atravessa depressa a dimensão coletiva do desastre. A atenção permanece sobre os Andrews e sua busca por um lugar afastado, escolha que mantém o ritmo movimentado, embora deixe parte daquele mundo pouco desenvolvida.

“O Silêncio” tem uma boa premissa, um elenco competente e situações capazes de provocar desconforto. Stanley Tucci sustenta o peso emocional da fuga, Kiernan Shipka dá firmeza a Ally e Miranda Otto preserva a união da família. O roteiro perde força quando explica demais e apresenta ameaças humanas sem delicadeza, mas conserva interesse ao transformar tarefas banais em riscos mortais. Cada porta fechada oferece abrigo, cada estrada promete uma saída e qualquer ruído pode retirar da família os poucos minutos conquistados.


Filme: O Silêncio
Diretor: John R. Leonetti
Ano: 2019
Gênero: Drama/Ficção Científica/Suspense/Terror
Avaliação: 3/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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