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Em Massachusetts, durante a Guerra Civil Americana, quatro irmãs crescem entre dificuldades financeiras, desejos profissionais e escolhas amorosas que definirão seus futuros. Dirigido por Greta Gerwig, “Adoráveis Mulheres” acompanha Jo, Meg, Amy e Beth March em diferentes fases da vida, enquanto cada uma procura conquistar espaço numa época em que quase todos os caminhos femininos terminavam no casamento. A adaptação do romance de Louisa May Alcott preserva o calor familiar da obra, mas observa com atenção o dinheiro, o trabalho e o preço da independência.

Jo March, interpretada por Saoirse Ronan, vive em Nova York e tenta ganhar dinheiro publicando contos. Ela escreve histórias movimentadas, procura editores e aceita cortes porque precisa receber. O senhor Dashwood, vivido por Tracy Letts, não demonstra grande interesse pela autoria feminina. Ele compra os textos que considera vendáveis e trata literatura como mercadoria. Para Jo, porém, cada publicação representa uma pequena conquista financeira e a possibilidade de permanecer longe das obrigações reservadas às mulheres de sua época.

A vida adulta da escritora é intercalada com lembranças da juventude em Concord, Massachusetts. Jo cresceu ao lado das irmãs Meg, Amy e Beth, sob os cuidados de Marmee, interpretada por Laura Dern. O pai está distante, servindo como capelão na Guerra Civil, enquanto a família administra uma casa acolhedora com poucos recursos. Falta dinheiro, mas sobram conversas, peças improvisadas, vestidos compartilhados e discussões que começam por bobagens e deixam feridas bem maiores.

Meg March, vivida por Emma Watson, é a irmã mais velha e deseja formar uma família. Ela gosta de roupas bonitas e sente o peso de circular entre jovens com mais dinheiro, embora saiba que sua casa não pode sustentar os mesmos hábitos. Seu envolvimento com John Brooke, interpretado por James Norton, oferece afeto e estabilidade doméstica, mas nenhum luxo. Meg precisa decidir se aceita uma vida simples ao lado dele ou se procura um casamento capaz de garantir conforto.

Amy March, interpretada por Florence Pugh, sonha em tornar-se pintora. Mais nova e ambiciosa, ela quer frequentar bons ambientes, estudar arte e conquistar uma posição que sua família não pode financiar. Amy sabe que o talento feminino recebe pouco reconhecimento e encara o casamento também pelo lado econômico. Sua sinceridade pode soar fria, porém nasce de uma percepção bastante lúcida. Naquele período, uma mulher casada entregava ao marido boa parte de sua autonomia legal e patrimonial.

Beth March, vivida por Eliza Scanlen, permanece mais ligada à casa. Tímida e gentil, ela prefere o piano às reuniões sociais e encontra na música uma forma discreta de se comunicar. Beth cria uma relação carinhosa com o senhor Laurence, interpretado por Chris Cooper, vizinho rico que reconhece sua sensibilidade. Enquanto as outras irmãs projetam carreiras, casamentos ou viagens, Beth busca segurança na rotina familiar.

Laurie atravessa a porta dos March

Theodore Laurie Laurence, vivido por Timothée Chalamet, conhece Jo durante uma festa e logo passa a frequentar a casa dos March. Rico, solitário e criado pelo avô, o rapaz se encanta com a energia daquela família. Ali, todos falam ao mesmo tempo, encenam peças e discutem com uma liberdade que ele desconhece. Laurie deixa de ser apenas o vizinho elegante e ganha lugar entre as irmãs, embora sua proximidade com Jo carregue expectativas que ela não deseja alimentar.

Jo gosta da companhia do rapaz, corre com ele pelos campos e compartilha a vontade de conhecer o mundo. O problema surge quando amizade e romance deixam de significar a mesma coisa para ambos. Laurie enxerga uma vida em comum, enquanto Jo teme que o casamento lhe retire a liberdade necessária para escrever. Ela gosta dele, mas não aceita transformar esse carinho em compromisso apenas porque todos consideram a união conveniente.

Saoirse Ronan oferece a Jo uma mistura vigorosa de pressa, inteligência e insegurança. A personagem fala muito, age antes de pensar e costuma perceber tarde demais o tamanho de algumas feridas. Sua independência não elimina o desejo de ser amada. Em certos momentos, Jo quer ficar sozinha. Em outros, sente medo de ter defendido a solidão com tanta força que já não sabe como pedir companhia.

Florence Pugh oferece a Amy uma presença igualmente forte. A irmã caçula poderia aparecer apenas como rival mimada, mas ganha inteligência, ambição e consciência social. Amy comete erros, guarda ressentimentos e aprende a falar sobre dinheiro sem disfarçar o assunto sob declarações românticas. Sua passagem pela Europa, acompanhando a rica tia March, vivida por Meryl Streep, oferece acesso a estudos e círculos sociais antes inalcançáveis.

O tempo muda o significado das escolhas

Greta Gerwig conta a história em duas épocas que se alternam. A juventude das irmãs aparece cheia de calor, movimento e conversas sobrepostas. Os anos adultos têm cores mais frias e espaços mais silenciosos. Essa divisão permite comparar aquilo que elas desejavam com a vida que conseguiram construir, sem apresentar a maturidade como simples correção dos sonhos juvenis.

A montagem pode causar certa confusão nos primeiros minutos, principalmente porque os atores interpretam as personagens nas duas fases. Aos poucos, roupas, lugares e relações ajudam a identificar o período de cada passagem. O recurso aproxima lembrança e presente. Uma conversa ocorrida anos antes pode surgir ao lado de uma decisão adulta e revelar por que determinada escolha ainda pesa.

O romance existe, mas divide espaço com questões muito concretas. Jo precisa vender textos. Meg administra uma casa com orçamento apertado. Amy procura formação artística e segurança financeira. Beth enfrenta uma saúde delicada. Marmee cuida das filhas enquanto convive com a ausência do marido. Cada mulher possui um desejo particular, e nenhuma recebe dinheiro, liberdade e reconhecimento na mesma medida.

Afeto sem perfeição doméstica

A casa dos March concentra as passagens mais vivas de “Adoráveis Mulheres”. As irmãs brigam por vestidos, manuscritos, convites e atenções. Também dividem comida, cuidam umas das outras e inventam diversão quando falta dinheiro. A família é amorosa, mas está longe de ser impecável. Amy pode ser cruel quando se sente excluída. Jo usa palavras duras quando perde a paciência. Meg esconde frustrações. Beth sofre em silêncio.

Essas falhas tornam a convivência mais humana e ajudam a afastar a história da delicadeza excessivamente polida associada a muitos dramas de época. Há graça na desordem, nas encenações domésticas e na dificuldade de manter qualquer conversa organizada naquela casa. O elenco parece confortável nesse caos, especialmente quando as quatro irmãs ocupam o mesmo cômodo e disputam a atenção sem perder a intimidade.

Laura Dern interpreta Marmee com serenidade, mas não transforma a mãe em exemplo inalcançável. Ela admite sentir raiva e precisa trabalhar diariamente para não agir dominada por ela. Meryl Streep segue pelo caminho oposto como tia March. Rica, sarcástica e presa às convenções, a personagem lembra às sobrinhas que independência custa dinheiro. Suas observações incomodam porque carregam uma verdade que nenhuma delas pode ignorar.

Escrever também significa sobreviver

O trabalho de Jo fornece a linha mais interessante da adaptação. Para ela, escrever envolve imaginação, renda, autoria e controle sobre aquilo que publica. Friedrich Bhaer, interpretado por Louis Garrel, lê seus contos e critica a violência criada apenas para agradar jornais. Jo recebe a opinião com irritação, pois aqueles textos pagam suas despesas. A discussão não fica restrita à qualidade literária. Ela também envolve quem pode escrever por vocação e quem precisa escrever para comer.

“Adoráveis Mulheres” fala de casamento sem tratar todas as mulheres como portadoras do mesmo desejo. Meg escolhe a vida doméstica e precisa defender essa vontade diante de Jo. Amy procura conciliar afeto, arte e segurança. Jo deseja uma carreira, embora também sinta solidão. Beth prefere permanecer perto da família. Greta Gerwig respeita essas diferenças e permite que cada irmã assuma as perdas ligadas à própria escolha.

A força do longa está nessa combinação entre aconchego e realidade material. Os vestidos são bonitos, os salões têm brilho e as paisagens carregam elegância, mas quase toda decisão importante passa por dinheiro, propriedade ou trabalho. Até o amor depende das condições oferecidas a cada mulher. Com sensibilidade e alguma irreverência, “Adoráveis Mulheres” transforma um clássico conhecido em uma história viva sobre irmãs que crescem, brigam, criam e lutam pelo direito de escolher a própria vida.


Filme: Adoráveis Mulheres
Diretor: Greta Gerwig
Ano: 2019
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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