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Quatro veteranos negros da Guerra do Vietnã retornam ao país, décadas depois do conflito, para recuperar os restos mortais do comandante do grupo e encontrar barras de ouro enterradas na mata. Lançado em 2020 pela Netflix, “Destacamento Blood” acompanha essa viagem marcada por lembranças dolorosas, interesses financeiros e antigas feridas familiares. Spike Lee transforma a busca em uma aventura tensa, na qual cada passo aproxima os homens do tesouro e também daquilo que tentaram esquecer.

Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.) chegam a Ho Chi Minh dispostos a cumprir uma missão deixada para trás quase cinquenta anos antes. Eles querem localizar os restos de Norman (Chadwick Boseman), líder do esquadrão morto durante a guerra. Também pretendem recuperar um carregamento de ouro que esconderam na selva quando ainda eram soldados.

Os dois objetivos estão ligados ao passado do grupo, embora tenham pesos diferentes. Levar Norman de volta aos Estados Unidos representa uma dívida afetiva. Recuperar as barras significa dinheiro, segurança e uma possível reparação depois de uma vida marcada pelo abandono reservado a muitos veteranos negros.

O retorno dos veteranos ao Vietnã

A reunião começa com abraços, provocações e a intimidade de homens que dividiram situações extremas. Por alguns minutos, os quatro parecem antigos colegas celebrando uma viagem tardia. A tranquilidade dura pouco. O dinheiro ocupa espaço nas conversas, enquanto as diferenças acumuladas ao longo dos anos começam a aparecer.

Paul chega acompanhado do filho David (Jonathan Majors), que decidiu viajar por preocupação com a saúde emocional do pai. A relação entre os dois está desgastada. Paul é agressivo, desconfiado e incapaz de falar abertamente sobre o que viveu. David tenta se aproximar, mas recebe silêncio ou hostilidade. A expedição coloca pai e filho na mesma rota, embora nenhum deles saiba muito bem como diminuir a distância entre ambos.

O guia Vinh (Johnny Trí Nguyễn) é contratado para levar os veteranos até a região onde Norman e o ouro foram deixados. A passagem pela cidade mostra um Vietnã moderno, distante das imagens guardadas pelos soldados. Para eles, contudo, o país continua associado a tiros, mortes e medo. A guerra acabou no calendário, porém permaneceu ativa dentro daqueles homens.

Norman ainda vive nas lembranças

Norman surge nas recordações dos veteranos com a aparência jovem de Chadwick Boseman. Paul, Otis, Eddie e Melvin aparecem nesses trechos com a idade atual. Spike Lee não tenta esconder a diferença. O recurso mostra que o comandante ficou preservado na memória do grupo, enquanto seus companheiros envelheceram carregando culpa, saudade e ressentimento.

Norman era mais do que um superior militar. Ele ensinava os soldados a reconhecer a desigualdade racial que os havia levado à linha de frente de uma guerra travada longe de casa. Também defendia que o ouro recuperado pelo esquadrão deveria beneficiar pessoas negras, frequentemente convocadas a lutar por um país que lhes negava direitos básicos.

Essas lembranças ajudam a explicar a lealdade dos quatro homens ao comandante. Também revelam por que Paul se mostra tão instável. Ele voltou da guerra, mas nunca conseguiu deixá-la inteiramente para trás. Sua postura política, sua irritação e o modo ríspido de tratar David fazem parte de um homem consumido por experiências que não soube dividir com ninguém.

Delroy Lindo oferece a atuação mais intensa de “Destacamento Blood”. Paul pode ser afetuoso por alguns instantes e hostil logo depois. O personagem causa incômodo, mas também desperta compaixão. Lindo não suaviza suas contradições e transforma cada mudança de tom numa nova dificuldade para o grupo.

O ouro pesa mais na selva

A viagem pela mata exige esforço físico de homens que já não possuem a resistência da juventude. Eles carregam equipamentos, consultam mapas antigos e procuram sinais de uma área modificada pelo tempo. A busca passa longe do charme das aventuras tradicionais. Há suor, cansaço, mosquitos e quatro senhores tentando manter a dignidade enquanto a floresta lhes cobra cada passo.

Quando o ouro deixa de ser apenas uma lembrança, a amizade também sofre. As barras representam possibilidades diferentes para cada veterano. Eddie enfrenta problemas financeiros. Otis possui vínculos pessoais no Vietnã. Melvin tenta conservar a união dos companheiros. Paul teme ser enganado por todos.

Otis procura Tiên (Lê Y Lan), mulher com quem se relacionou durante a guerra. Ela apresenta o grupo ao empresário francês Desroche (Jean Reno), que pode ajudar a retirar o carregamento do país. A proposta oferece uma saída, mas obriga os veteranos a revelar parte do plano a alguém de fora. Quanto mais pessoas sabem do ouro, menor fica a segurança do grupo.

David observa o comportamento do pai mudar à medida que a missão avança. Para Paul, recuperar as barras também significa provar que ainda possui controle sobre alguma parte da própria vida. Quando seus amigos questionam suas escolhas, ele reage de maneira desproporcional. O tesouro, que deveria garantir liberdade, passa a alimentar medo e suspeita.

Uma guerra enterrada no chão

Spike Lee não apresenta o Vietnã apenas como palco para a aventura de personagens americanos. Vinh lembra aos visitantes que famílias vietnamitas também perderam parentes e tiveram suas vidas destruídas. A presença desses moradores cria uma perspectiva necessária, ainda que alguns personagens locais merecessem maior desenvolvimento.

A ameaça mais assustadora está sob os pés dos viajantes. Décadas depois do encerramento da guerra, minas terrestres continuam espalhadas por áreas rurais. Uma rota errada pode transformar a expedição em tragédia. A mata obriga todos a controlar os movimentos, seguir orientações e depender uns dos outros.

Essa parte da história aproxima o drama familiar do suspense. David precisa confiar no pai que sempre o manteve distante. Paul, por sua vez, precisa aceitar que já não consegue resolver tudo sozinho. A relação permanece difícil, porém ganha humanidade quando o perigo elimina qualquer possibilidade de fingimento.

“Destacamento Blood” reúne aventura, drama familiar, memória histórica e comentário político em pouco mais de duas horas e meia. A quantidade de assuntos torna alguns trechos cansativos, sobretudo quando Spike Lee interrompe a ação para acrescentar novas referências. Ainda assim, o excesso faz parte da personalidade inquieta do diretor, sempre disposto a colocar mais uma pergunta na mesa.

Spike Lee devolve espaço aos soldados negros

O maior mérito da produção está na escolha de veteranos negros para ocupar o centro de uma história de guerra. Durante décadas, Hollywood apresentou o Vietnã principalmente pela experiência de soldados brancos. Spike Lee recupera outra perspectiva e lembra que homens negros lutaram no exterior enquanto ainda enfrentavam segregação, violência e falta de direitos nos Estados Unidos.

Chadwick Boseman transmite autoridade e serenidade nas aparições de Norman. Clarke Peters dá maturidade a Otis, enquanto Norm Lewis e Isiah Whitlock Jr. sustentam a amizade do grupo sem transformar Eddie e Melvin em meros acompanhantes. Jonathan Majors oferece sensibilidade a David, um filho que viaja em busca do pai muito antes de entrar na selva.

“Destacamento Blood” possui mudanças bruscas de ritmo e deseja falar de muitos temas numa única produção. Nem todas as partes recebem o mesmo cuidado. A força do elenco, porém, mantém a história viva. Entre o corpo de Norman, as barras de ouro e as minas escondidas, os veteranos descobrem que voltar para casa pode ser tão difícil quanto partir para a guerra.


Filme: Destacamento Blood
Diretor: Spike Lee
Ano: 2020
Gênero: Aventura/Drama/Guerra
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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