Discover

Em fevereiro de 2026, Emerald Fennell levou aos cinemas uma nova adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”, romance publicado por Emily Brontë em 1847. Ambientado nos campos ingleses do século 19, o filme acompanha Cathy (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi), dois jovens unidos desde a infância por um afeto que se torna desejo, obsessão e ressentimento. A diferença social entre eles impede uma vida em comum e transforma o amor numa disputa marcada por orgulho, dinheiro e sede de pertencimento.

Heathcliff chega ainda menino à propriedade da família Earnshaw. Sem fortuna, nome respeitável ou lugar garantido naquela casa, ele depende da proteção do senhor Earnshaw (Martin Clunes). É nessa propriedade afastada, cercada por campos castigados pelo vento, que conhece Cathy.

Na infância, vividos por Owen Cooper e Charlotte Mellington, Heathcliff e Cathy criam uma relação livre das regras que dominam o mundo adulto. Eles correm pelos campos, compartilham segredos e encontram um no outro a companhia que falta dentro de casa. Para Cathy, o garoto representa aventura e liberdade. Para Heathcliff, ela é a primeira pessoa que o recebe sem transformá-lo em hóspede tolerado.

A situação muda conforme os dois crescem. O vínculo afetuoso ganha desejo, enquanto a casa passa a lembrá-los de que pertencem a posições muito diferentes. Cathy pode herdar prestígio e escolher um casamento vantajoso. Heathcliff permanece vulnerável às decisões da família, sem recursos para oferecer a segurança esperada de um marido naquele período.

Nelly (Hong Chau), ligada à rotina da propriedade, acompanha essa aproximação e ocupa um lugar importante entre os dois. Ela observa gestos, escuta confidências e controla parte das informações que circulam pelos quartos e corredores. Sua presença torna a casa ainda mais tensa, pois uma conversa ouvida pela pessoa errada pode fechar uma porta por tempo indeterminado.

O desejo encontra a vida adulta

Já adulta, Cathy (Margot Robbie) percebe que amar Heathcliff (Jacob Elordi) significa abrir mão de conforto, reconhecimento e proteção financeira. Ela deseja viver essa paixão, mas também conhece as limitações impostas às mulheres. Na Inglaterra retratada pelo filme, casamento raramente é apenas assunto do coração. Ele define moradia, renda, reputação e futuro.

Heathcliff sente a hesitação de Cathy como uma rejeição pessoal. Sua origem humilde sempre foi usada para mantê-lo alguns degraus abaixo dos Earnshaw, e a possibilidade de perdê-la confirma aquilo que ele mais teme. Para permanecer ao lado dela, amor não basta. Ele precisaria conquistar dinheiro e respeito num ambiente que já decidiu tratá-lo como intruso.

A relação cresce cercada por silêncios, provocações e encontros carregados de desejo. Cathy procura conservar o controle sobre a própria vida, mas quer Heathcliff disponível sempre que sua vontade fala mais alto. Ele, por sua vez, ama com uma intensidade que pouco tem de generosa. A devoção vem acompanhada de ciúme, raiva e um desejo cada vez maior de possuir aquilo que lhe foi negado.

Margot Robbie interpreta Cathy como uma mulher inteligente, sensual e contraditória. Ela sabe o que sente, mas também sabe quanto custa seguir esse sentimento. A atriz encontra humanidade nas escolhas menos simpáticas da personagem, sem transformar egoísmo em gesto romântico. Cathy quer paixão e estabilidade na mesma casa, embora o mundo ao redor não lhe permita conservar as duas coisas.

Jacob Elordi apresenta um Heathcliff silencioso, fisicamente imponente e ferido pela humilhação. O personagem deseja Cathy, porém também deseja provar que ninguém voltará a tratá-lo como dependente. Quando essa ambição se mistura ao amor, o romance deixa de oferecer abrigo. Cada aproximação passa a ameaçar reputações, casamentos e o domínio das propriedades.

Edgar oferece segurança e prestígio

Edgar Linton (Shazad Latif) surge como o homem socialmente adequado para Cathy. Educado, rico e pertencente a uma família respeitada, ele oferece tudo o que Heathcliff não possui. Sua presença cria uma escolha dolorosa, mas bastante concreta. Cathy pode seguir o homem que desperta seu desejo ou aceitar aquele capaz de garantir estabilidade.

Edgar não entra apenas como rival romântico. Ele representa uma estrutura na qual Cathy consegue circular com proteção e autoridade. Ao lado dele, ela ganha uma casa confortável e uma posição reconhecida. Ao lado de Heathcliff, enfrentaria incerteza, reprovação e dependência. O coração pode gostar de tempestades, mas o patrimônio costuma preferir telhado firme.

Isabella Linton (Alison Oliver), irmã de Edgar, também é atraída para esse círculo de paixões mal resolvidas. Sua proximidade com Heathcliff acrescenta ciúme e ressentimento a uma relação que já vinha carregada de mágoas. Fennell mantém o foco nos vínculos entre essas pessoas e mostra quanto uma escolha amorosa pode atingir quem vive ao redor do casal.

Sem revelar os acontecimentos decisivos, basta dizer que Heathcliff se recusa a permanecer no lugar humilde reservado a ele. O homem antes dependente procura adquirir dinheiro, influência e poder suficiente para voltar em outras condições. Esse movimento muda a relação com Cathy, pois o jovem rejeitado passa a disputar espaço com aqueles que o desprezaram.

Emerald Fennell aposta no excesso

A diretora trata “O Morro dos Ventos Uivantes” com grande liberdade diante do romance de Emily Brontë. Sua adaptação concentra atenção na atração entre Cathy e Heathcliff, deixando parte da extensa história familiar do livro em segundo plano. O resultado é mais sensual, provocador e acessível, embora também perca nuances importantes sobre classe, herança e violência doméstica.

Fennell enche a tela de tecidos, alimentos, objetos luxuosos, corpos e paisagens hostis. Esses elementos ganham sentido quando registram o que cada personagem pode tocar, vestir ou possuir. Cathy circula entre conforto e desejo. Heathcliff permanece associado aos espaços em que precisa lutar por entrada. A diferença entre eles está nos quartos disponíveis, nas roupas, na comida e no direito de decidir.

O excesso, porém, cobra seu preço. Em alguns trechos, a aparência elegante da produção ocupa mais espaço do que a dor dos personagens. A paixão recebe tanta ornamentação que certas feridas emocionais parecem menos profundas. Ainda assim, Fennell mantém uma energia inquieta e nunca trata o romance como uma história delicada de almas destinadas uma à outra.

Um amor difícil de defender

O maior acerto de “O Morro dos Ventos Uivantes” está em preservar a natureza incômoda do casal central. Cathy e Heathcliff despertam torcida, mas também irritação. Eles se amam, ferem outras pessoas e usam o sofrimento como justificativa para atos cruéis. São apaixonantes durante alguns minutos e insuportáveis logo depois, o que talvez seja uma descrição razoável de muitos romances famosos.

A diferença social impede a união dos dois, mas orgulho e desejo de controle tornam a situação ainda pior. Cathy protege privilégios enquanto exige devoção. Heathcliff transforma humilhação em vontade de dominar. Nenhum deles sabe amar sem cobrar uma dívida emocional, e as pessoas próximas acabam pagando parte dessa conta.

Margot Robbie e Jacob Elordi sustentam a atração necessária para que essa relação pareça perigosa. Hong Chau acrescenta malícia e atenção a Nelly, enquanto Shazad Latif oferece dignidade a Edgar, personagem que poderia ser apenas o marido inconveniente colocado entre os amantes. O elenco ajuda a preservar as contradições de uma história em que quase ninguém sai moralmente elegante.

“O Morro dos Ventos Uivantes” não substitui a riqueza do livro, mas apresenta uma leitura própria, sensual e por vezes extravagante. Emerald Fennell troca parte da complexidade familiar por uma paixão mais física e concentrada. Quando Cathy tenta manter seu conforto e Heathcliff busca o poder que lhe foi recusado, cada reencontro fecha uma porta, compromete uma aliança e deixa alguém com menos liberdade para escolher.


Filme: O Morro dos Ventos Uivantes
Diretor: Emerald Fennell
Ano: 2026
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também