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Toda vez que um boato absurdo emplaca, virando viral fake news, eu me lembro do Sr. Dois Esses, o S. S. lá de minha terra natal. Quando a pandemia grassava implacável, ceifando vidas a torto e a direito, por certo determinado equívoco algorítmico não me mostrou seus posts atribuindo à covid alguma teoria da conspiração global, dizendo que quem se vacinava seria transformado em um réptil estroboscópico ou advogando em prol dos direitos das emas de serem medicadas com cloroquina.

Isto fez com que o Sr. Dois Esses sobrevivesse à então sanha diuturna que me acometeu naqueles tempos de podas intensas nos contatos de redes sociais e na árvore genealógica — para o bem da saúde mental. De modo que, quando o notei perdido em minha timeline, quase sempre gritando sem razão, tomei-o por um solitário lunático em praça pública e, encarando-o como uma caricatura, decidi preservá-lo.

“Que azar que não o percebi na época em que me importava em desfazer contatos feicebúquicos”, rosnei ao meu segundo botão da camisa entreaberta por causa da onda de calor que violenta a Europa.

Nada. O azar se converteu foi em sorte. Sr. Dois Esses, visto que seria isento de imposto caso apreço à ignorância fosse passível de taxas, tornou-se uma amostra que vale a pena ser mantida e acompanhada de perto. Não é um reles bobo da corte histriônico a me arrancar gargalhadas a cada post; é um experimento sociológico, posto que ele funciona como uma janela que me permite ver exatamente como funciona a massa manobrada pelos interesses extremistas que gostariam de ter o controle do país. Isso tudo em ano eleitoral.

O Brasil foi eliminado de mais uma Copa do Mundo e, incontinenti, ali estão dezenas de postagens em defesa do “menino Ney”, como se ele fosse o mártir ideológico amarelinho, um injustiçado pela bola. E que nenhum comentarista esportivo ouse criticá-lo, porque as agressões de paráclitos daquele que enverga a desbotada camisa 10, como o Sr. Dois Esses, são impiedosas e resvalam para o pessoal.

Tarifaço 2.0 é anunciado? Ele cavuca no zap e acha uma notícia que deturpa a tarifa imposta pela China sobre a carne bovina brasileira e alardeia como se fosse algo total e que, sobre tal, “a imprensa se cala” — bordão recorrente. Aparece foto do futuro candidato de sobrenome Bolsonaro abraçado ao Vorcaro ou outro nome envolvido em escândalos? Pronto, Sr. Dois Esses topa engrossar a manada que faz o trabalho de viralizar montagens do mesmo presidenciável ao lado de celebridades planetárias — a ideia é normalizar o episódio e atribuir tudo à inteligência artificial, e não à ignorância natural.

Passear pelo seu perfil do Facebook é um tortuoso mergulho a uma subterrânea camada das redes sociais, ambiente fértil para a reprodução de fake news constantes, hábitat para discursos de ódio e agressões gratuitas contra grupos minoritários. Observar como os temas avançam e retrocedem, como se fossem bolhas que crescem até estourar, deve ser prato-cheio para pesquisadores acadêmicos de fenômenos assim. Atualmente, por exemplo, o Sr. Dois Esses parece especialmente engajado em xingar — o verbo é esse mesmo, porque os argumentos ultrapassam a crítica razoável e necessária, pertinente a qualquer regime democrático, e respingam no baixo calão — a primeira-dama, com inverdades já desmentidas por documentos públicos quanto aos gastos da mesma em viagens internacionais.

Agosto já está aí. A campanha eleitoral vai começar para valer. Ficar o mais longe das redes sociais parece ser o recomendável para quem quer manter a sanidade em dia.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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