Em “Amsterdam”, David O. Russell reúne Christian Bale, Margot Robbie e John David Washington numa investigação ambientada na Nova York de 1933, quando três amigos descobrem que a morte de um senador pode esconder interesses políticos muito maiores. Inspirado parcialmente em acontecimentos reais, o filme mistura comédia, romance, drama histórico e suspense para falar de amizade, racismo, autoritarismo e poder econômico.
A história começa em 1918, durante a Primeira Guerra Mundial. Burt Berendsen (Christian Bale) é um médico enviado à França e colocado no comando de um regimento formado por soldados negros. Ali, ele conhece Harold Woodman (John David Washington), advogado que deixou os Estados Unidos para combater na Europa. A convivência entre os dois nasce sob tiros, ordens militares e preconceito.
Burt e Harold ficam gravemente feridos e são levados a um hospital, onde recebem os cuidados de Valerie Voze (Margot Robbie). A enfermeira não segue exatamente o comportamento esperado de uma profissional da área. Ela retira estilhaços dos corpos dos soldados e transforma parte do material em pequenas obras de arte. O método é estranho, mas combina com uma mulher que rejeita convenções e prefere decidir por conta própria.
Depois da recuperação, os três passam uma temporada em Amsterdam. Longe da guerra e das divisões sociais americanas, encontram uma liberdade que parecia impossível alguns meses antes. Burt, Harold e Valerie fazem um pacto de proteção mútua. Harold também se apaixona por Valerie, que corresponde ao sentimento, embora o relacionamento seja atravessado por segredos familiares.
A convivência termina quando Burt decide retornar a Nova York. Ele deseja reencontrar Beatrice Vandenheuvel (Andrea Riseborough), sua esposa, e retomar a profissão. Harold também volta aos Estados Unidos, enquanto Valerie desaparece sem oferecer uma explicação satisfatória. O trio permanece separado durante quinze anos.
Uma autópsia inicia a investigação
Em 1933, Burt mantém uma clínica dedicada aos veteranos feridos durante a guerra. Ele desenvolve próteses, alivia dores e atende homens abandonados pelas instituições depois que deixaram de vestir uniforme. Seu consultório possui poucos recursos, mas acolhe pacientes que dificilmente receberiam atenção em outros lugares.
Harold trabalha como advogado e reaparece com um pedido delicado. Elizabeth Meekins (Taylor Swift) acredita que seu pai, o senador Bill Meekins (Ed Begley Jr.), foi assassinado após uma viagem à Europa. Meekins havia comandado Burt e Harold durante a guerra, razão pela qual a filha confia nos dois antigos soldados.
Elizabeth solicita uma autópsia antes do enterro. Burt aceita examinar o corpo e pede ajuda à legista Irma St. Clair (Zoe Saldaña), por quem demonstra um interesse que ultrapassa a medicina. Os exames revelam sinais incompatíveis com uma morte natural. Alguém pode ter envenenado o senador, e a descoberta transforma uma suspeita familiar em caso criminal.
Burt e Harold procuram Elizabeth para comunicar o resultado, mas a investigação sofre uma mudança violenta. Os amigos acabam associados a outro crime e passam a ser perseguidos pela polícia. Para provar que não são culpados, precisam descobrir quem matou Meekins e por qual motivo sua viagem à Europa despertou tamanho interesse.
Valerie reaparece depois de quinze anos
As primeiras pistas levam Burt e Harold até Valerie, agora instalada em Nova York e cercada por parentes controladores. Seu irmão Tom Voze (Rami Malek) e a esposa dele, Libby Voze (Anya Taylor-Joy), tratam a artista como uma mulher incapaz de cuidar da própria vida. Valerie, porém, conserva a inteligência inquieta conhecida pelos amigos durante a guerra.
O reencontro recupera a cumplicidade do trio, mas também abre feridas antigas. Harold ainda deseja saber por que Valerie desapareceu, enquanto ela procura explicar anos marcados pelo isolamento e por tratamentos médicos questionáveis. A investigação obriga os dois a adiar a conversa amorosa, pois a polícia continua procurando culpados e os verdadeiros responsáveis acompanham seus movimentos.
Margot Robbie oferece energia e sensibilidade a Valerie, enquanto John David Washington interpreta Harold com serenidade e firmeza. Christian Bale assume a parte mais excêntrica do grupo. Seu Burt possui um olho de vidro, usa medicamentos experimentais e tenta preservar a elegância mesmo quando tudo ao redor desanda. Às vezes consegue. Em outras, mal permanece de pé.
O crime alcança círculos poderosos
A morte de Bill Meekins logo revela ligações com empresários, políticos e organizações interessadas na influência dos veteranos. Burt, Harold e Valerie descobrem que o senador sabia de uma articulação perigosa envolvendo dinheiro privado e ambições autoritárias. O caso deixa de envolver somente um cadáver e passa a ameaçar instituições americanas.
Para avançar, os três precisam da ajuda do general Gil Dillenbeck (Robert De Niro), militar respeitado que conhecia Meekins. A dificuldade está em chegar até ele. Dillenbeck vive protegido por assessores e desconfia de desconhecidos, enquanto Burt e Harold carregam a inconveniente condição de procurados. Valerie usa contatos familiares, os veteranos buscam antigos aliados e cada visita aumenta o risco de prisão.
O roteiro toma como referência o chamado Business Plot, episódio ocorrido nos Estados Unidos durante a década de 1930. A produção mistura personagens inventados e figuras inspiradas em pessoas reais, sem abandonar o tom de aventura policial. Essa combinação rende passagens curiosas, embora também deixe a história carregada de nomes, encontros e informações.
Um grande elenco numa história cheia
David O. Russell reuniu um elenco impressionante. Além do trio principal, “Amsterdam” conta com Chris Rock, Michael Shannon, Mike Myers, Timothy Olyphant, Matthias Schoenaerts, Alessandro Nivola e Robert De Niro. A quantidade de rostos conhecidos desperta interesse, mas nem todos recebem espaço suficiente. Alguns entram, entregam uma pista ou uma provocação e logo cedem lugar ao próximo convidado ilustre.
Essa abundância também afeta a fluidez da investigação. O roteiro abre várias frentes, retorna ao passado, apresenta suspeitos e inclui comentários políticos em pouco mais de duas horas. Em certos trechos, o espectador precisa trabalhar quase tanto quanto Burt e Harold para lembrar quem conhece quem. A diferença é que os protagonistas ainda correm o risco de serem presos.
Apesar do excesso, a amizade sustenta “Amsterdam”. Burt cuida dos veteranos porque conhece o abandono reservado aos sobreviventes. Harold usa a advocacia para enfrentar barreiras raciais que continuam presentes depois da guerra. Valerie luta para recuperar autonomia diante de uma família interessada em mantê-la sob vigilância.
O filme permite que os três conversem, discordem e retomem a confiança construída na Europa. Bale, Robbie e Washington formam um grupo afetuoso, estranho e convincente. A investigação pode seguir caminhos demais, mas o pacto entre esses amigos oferece uma razão humana para acompanhá-los. Enquanto homens poderosos tentam encerrar o caso, Burt, Harold e Valerie voltam a fazer aquilo que prometeram em Amsterdam. Um protege o outro.

