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A carreira de Antonio Candido parece hoje tão inevitável quanto a presença de Machado de Assis numa história da literatura brasileira. O grande crítico, o autor de “Formação da Literatura Brasileira”, o professor que ensinou gerações a desconfiar tanto do sociologismo quanto do esteticismo de salão, o intelectual de esquerda cuja clareza jamais precisou vestir o uniforme do panfleto — estava escrito, supomos. Desde menino. Talvez desde o berço, entre os milhares de volumes da biblioteca paterna.

Não estava. Para começar, esperava-se que Antonio Candido fosse médico. Era a profissão de Aristides de Mello e Souza, seu pai, e o caminho parecia natural para um rapaz de boa família, criado entre o Rio de Janeiro e cidades de Minas, com educação doméstica, livros por toda parte e aquela espécie de futuro respeitável que os pais costumam enxergar com muito mais nitidez do que os filhos. O plano esbarrou em duas reprovações nos exames preparatórios. Há uma fotografia em que o jovem aparece satisfeito depois de uma delas, o que pode indicar alívio, espírito de provocação ou apenas a perversidade comum às imagens, capazes de registrar um sorriso no momento exato em que a vida dá errado. Deu errado? Depende da profissão que se pretendia exercer.

Em 1939, aos vinte anos, Candido entrou ao mesmo tempo nos cursos de Direito e Ciências Sociais da Universidade de São Paulo. A duplicidade era prudente. Direito continuava sendo o grande curso brasileiro das elites, uma fábrica de políticos, jornalistas, escritores, funcionários públicos e, ocasionalmente, advogados. As Ciências Sociais, alojadas na recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, representavam uma aposta mais estranha. Tinham o cheiro de tinta fresca das instituições novas e eram ensinadas por uma legião de professores europeus — tarefa que, convenhamos, ainda está longe de concluída. Candido abandonou Direito. Ficou com a aposta estranha.

Os chatos chegam bem penteados

Na universidade, encontrou um núcleo que se tornaria desproporcionalmente importante na cultura brasileira. Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Ruy Coelho e Gilda Moraes Rocha, futura Gilda de Mello e Souza, com quem se casaria em 1943. Reunidos em torno da revista “Clima”, publicada entre 1941 e 1944, aqueles jovens repartiram os campos da cultura com a seriedade de quem divide um continente. Décio ficou com o teatro, Paulo Emílio com o cinema, Lourival com as artes plásticas. Candido assumiu a literatura.

Oswald de Andrade chamou o grupo de “chato-boys”. A expressão pegou porque tinha alguma verdade e muita maldade, mistura que costuma garantir vida longa às melhores piadas. Diante do modernismo ainda sob os resquícios da boemia, os rapazes de “Clima” apareciam de caderno na mão, bem penteados, universitários.

Candido era o crítico literário do grupo, mas foi contratado pela USP para ensinar sociologia. Em 1942, tornou-se assistente de Fernando de Azevedo na cadeira de Sociologia II. No ano seguinte, começou a publicar crítica na “Folha da Manhã”, acompanhando de perto uma literatura que ainda não sabia o tamanho que teria. Escreveu sobre o jovem João Cabral de Melo Neto, sobre Clarice Lispector, sobre Graciliano Ramos e outros autores que hoje chegam aos estudantes já cobertos pelo cânone.

Aquela crítica de jornal deu origem a “Brigada Ligeira”, seu primeiro livro, lançado em 1945. O título talvez sugira uma espécie de guerra-relâmpago literária, mas o jovem Candido já mostrava uma qualidade pouco bélica — a disposição de compreender antes de condenar. Tinha opiniões fortes e às vezes se enganava, como todo crítico que não se limita à confortável tarefa de repetir o veredito dos mortos. Seu diferencial estava em considerar que julgar um livro exigia descobrir primeiro que espécie de objeto era aquele, quais forças o moviam.

Naquele mesmo ano, tentou transferir oficialmente para a literatura o centro de uma vida profissional que, na prática, já estava dividida. Inscreveu-se no concurso para a cadeira de Literatura Brasileira da USP com uma tese sobre o método crítico de Sílvio Romero. Empatou em primeiro lugar com Mário de Souza Lima. A cátedra ficou com o outro candidato. Antonio Candido conquistou a livre-docência. E voltou para a sociologia.

O concurso fez o favor de dar errado

Em vez de abandonar a literatura, passou a levar duas vidas intelectuais paralelas. De um lado, ensinava sociologia e realizava pesquisa de campo sobre a cultura caipira no interior paulista. A partir de 1947, frequentou a região de Bofete, observando modos de trabalho, alimentação, relações de vizinhança, hábitos de subsistência e os efeitos da expansão do mercado sobre um mundo que começava a se desorganizar. A investigação daria origem à tese defendida em 1954 e, dez anos mais tarde, ao livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, um dos grandes livros das ciências sociais brasileiras.

Do outro lado, continuava lendo literatura, escrevendo sobre Graciliano Ramos e trabalhando no projeto monumental que se tornaria “Formação da Literatura Brasileira”. Sociologia de manhã, literatura à noite? As duas atividades se misturavam, invadiam uma à outra, embaralhavam o expediente.

A formação sociológica lhe ensinou que os livros não caem prontos. São escritos por alguém, em algum lugar, para algum público; circulam ou deixam de circular por meio de jornais, editoras, amizades e brigas; dependem de instituições e tradições, inclusive quando se revoltam contra elas. A literatura, por sua vez, impediu que ele tratasse um romance como se fosse uma tabela estatística com personagens. O fator social só ganhava importância crítica quando entrava na própria construção da obra.

A história da crítica está cheia de gente especializada em usar livros para provar ideias que já tinha antes de abri-los. O personagem é burguês, o autor é pequeno-burguês, o público é pequeno-burguês. Do outro lado, há os que tratam a literatura como joia retirada do mundo, objeto puro cuja beleza seria maculada pela simples menção a dinheiro, classe social ou condições de publicação.

Candido construiu sua obra na zona instável entre esses dois tipos de cegueira. Em “Formação da Literatura Brasileira”, publicado em 1959, a literatura nacional aparece como um sistema composto por autores, obras e público, dotado de alguma continuidade. A ideia devia muito ao sociólogo, mas o livro não seria grande se o crítico não soubesse distinguir um poema vivo de um cadáver histórico. Candido ergue um painel vasto do arcadismo e do romantismo sem renunciar ao juízo de valor, isto é, sem fingir que todos os escritores convocados para formar a literatura brasileira tinham o mesmo tamanho. Alguns entraram na engrenagem. Poucos entraram na literatura.

O modelo seria contestado, sobretudo por sua exclusão do barroco e de Gregório de Matos do processo formativo. Ainda bem. “Formação” envelheceu em vários pontos, como acontece com livros ambiciosos que sobrevivem ao tempo suficiente para assistir à mudança das perguntas. Continua enorme porque criou um objeto intelectual onde antes havia uma coleção meio frouxa de autores, escolas, datas e sentimentos patrióticos.

O crítico que realizou esse trabalho ainda era, funcionalmente, professor de sociologia.

Aos 40, enfim, a literatura

A mudança definitiva para a literatura veio em 1958, quando Candido aceitou um convite para ensinar teoria literária na Faculdade de Filosofia de Assis. Tinha quarenta anos. Para os padrões atuais de ansiedade profissional, em que alguém de vinte e cinco anos sem obra publicada já suspeita ter perdido o bonde da história, foi uma vocação de amadurecimento lento. Três anos depois voltou à USP para criar a área de Teoria Literária e Literatura Comparada, que marcaria a universidade brasileira e formaria críticos como Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão, Davi Arrigucci Jr., João Luiz Lafetá e tantos outros.

Dizer que Candido “voltou” à literatura seria impreciso. “Os Parceiros do Rio Bonito” só foi publicado em 1964, quando já ensinava literatura havia algum tempo. “Literatura e Sociedade” sairia no ano seguinte, tornando explícito no título aquilo que sua carreira vinha praticando havia décadas.

A cadeira perdida em 1945 não o afastou de sua vocação; obrigou-o a chegar a ela por outro caminho. Mas é difícil imaginar o autor de “Os Parceiros do Rio Bonito” e “Formação da Literatura Brasileira” sem os anos em que esteve simultaneamente dentro e fora dos estudos literários, olhando a obra de arte com a atenção de quem conhecia seu direito à autonomia e suas dívidas com o chão.

Esse percurso sinuoso ajuda ainda a compreender sua figura pública. Candido não cultivou a pose do gênio intuitivo, do crítico que recebe revelações em estado de graça e desce da montanha para distribuí-las aos alunos. Seu pensamento foi construído em cursos, pesquisas, instituições. Até sua famosa generosidade crítica parece ter algo desse aprendizado coletivo — reconhecer que um livro não existe sozinho não diminui o autor, apenas o livra da fantasia infantil de ter inventado a linguagem.

Nada disso o tornou relativista ou bonzinho. Antonio Candido hierarquizava, selecionava, excluía.

As duas reprovações que o afastaram da medicina, o abandono do Direito, a revista feita por uma turma de “chato-boys”, o emprego na sociologia, o trabalho de campo numa região caipira, a mudança tardia para Assis — olhando para trás, tudo parece se encaixar.

Antonio Candido queria ser professor de literatura e perdeu a cadeira. Continuou lendo, pesquisando, escrevendo, ensinando. Quando finalmente chegou à profissão que parecia reservada a ele, levava na bagagem aquilo que o percurso direto talvez não pudesse oferecer — a suspeita de que nenhuma obra se explica apenas por dentro, nenhuma sociedade se compreende apenas por fora e nenhuma formação avança em linha reta.

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