“Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário”, dirigido por Ariane Louis-Seize, acompanha uma jovem vampira incapaz de matar que precisa encontrar sangue antes que a fome coloque sua vida em risco. A saída surge quando ela conhece um adolescente solitário disposto a morrer, desde que tenha tempo para cumprir alguns desejos. O acordo leva os dois por uma madrugada estranha, delicada e perigosamente curta.
Sasha (Sara Montpetit) nasceu em uma família de vampiros para a qual caçar seres humanos faz parte da rotina. Seus parentes tratam o sangue com a familiaridade de quem organiza o cardápio da semana. Para ela, porém, cada refeição carrega um problema moral. Sasha sente empatia pelas vítimas, não suporta presenciar violência e nunca desenvolveu a disposição necessária para atacar alguém.
Ariane Louis-Seize usa essa dificuldade para criar uma comédia sombria sobre duas pessoas que não conseguem atender às expectativas dos outros. Sasha deveria matar para continuar viva. Paul (Félix-Antoine Bénard) deveria desejar viver, embora se sinta abandonado por todos ao redor. Quando os caminhos deles se cruzam, cada um acredita possuir aquilo de que o outro precisa. A solução parece simples apenas durante alguns minutos.
Uma vampira que não sabe caçar
A resistência de Sasha começa ainda na infância. Durante uma comemoração de aniversário, seus familiares preparam uma caçada como rito de passagem, certos de que a menina reagirá com entusiasmo. Ela fica horrorizada. Os parentes esperam o surgimento das presas, mas a compaixão bloqueia qualquer impulso predatório e transforma a alimentação em assunto constante dentro de casa.
Anos depois, Sasha continua dependendo das bolsas de sangue fornecidas pelos pais. Aurélien (Steve Laplante), seu pai, demonstra mais paciência e tenta protegê-la das cobranças. Georgette (Sophie Cadieux), a mãe, considera que a filha precisa aprender a sobreviver sozinha. Depois de sustentar essa dependência por muito tempo, o casal suspende o fornecimento e envia a jovem para morar com Denise (Noémie O’Farrell), uma prima experiente na arte de escolher vítimas.
Denise encara a tarefa com uma confiança que Sasha jamais teve. Ela sabe atrair desconhecidos, controla cada etapa da aproximação e não perde o sono pensando nas pessoas que mata. Sua missão é ensinar a prima a fazer o mesmo. O problema está na aluna, que observa os humanos como indivíduos e não como recipientes com pernas. A diferença entre as duas rende situações divertidas, sobretudo porque Denise fala sobre assassinato com a impaciência de uma irmã mais velha ensinando alguém a dirigir.
A aprendizagem fracassa. Sasha permanece incapaz de atacar, perde o acesso ao sangue da família e começa a sofrer os efeitos da fome. A ameaça deixa de ser uma discussão doméstica. Se não encontrar uma vítima, ela pode morrer.
Paul já desistiu de pedir ajuda
Paul vive entre a escola, o trabalho e uma casa na qual sua tristeza quase nunca recebe a atenção necessária. Interpretado por Félix-Antoine Bénard com uma mistura de timidez, cansaço e ironia, o rapaz sofre humilhações frequentes. Colegas o provocam, adultos minimizam sua dor e as tentativas de pedir ajuda produzem pouco acolhimento.
Sasha reencontra Paul durante uma reunião voltada a pessoas com pensamentos suicidas. A presença dos dois naquele espaço forma uma coincidência tão mórbida quanto coerente. Ela precisa beber sangue para viver. Ele deseja morrer e acredita que sua morte poderia ter alguma utilidade. Paul então se oferece como vítima, convencido de que salvar Sasha seria uma maneira menos solitária de desaparecer.
O acordo estabelece uma troca. Paul permitirá que Sasha beba seu sangue. Antes disso, ela deverá ajudá-lo a resolver algumas pendências e realizar seus últimos desejos. Sasha aceita, mas sua delicadeza transforma cada etapa em adiamento. Ter o consentimento do rapaz diminui o dilema teórico, porém não torna a morte dele mais fácil de executar.
A situação também revela uma contradição dolorosa. Paul afirma que não quer mais viver, mas ainda carrega assuntos inacabados, ressentimentos e pequenas vontades. Sasha precisa se alimentar, embora passe a enxergar nele alguém que merece ser ouvido. Quanto mais conversam, menos convincente parece o acordo firmado entre os dois.
Uma madrugada para acertar contas
A dupla percorre a cidade durante a noite em busca das pessoas ligadas às frustrações de Paul. Ele deseja enfrentar quem o ridicularizou, recuperar alguma dignidade e experimentar gestos de coragem que nunca conseguiu realizar sozinho. Sasha o acompanha porque depende do cumprimento daquela lista, mas também porque reconhece a solidão do rapaz.
Esses encontros movimentam o enredo sem transformar a história em uma sucessão pesada de episódios tristes. Paul prepara falas, hesita diante de seus agressores e descobre que a vingança costuma parecer mais elegante na imaginação. Sasha, sempre séria e educada, oferece apoio com a desenvoltura social de quem passou décadas evitando conversar com a própria comida.
A comédia nasce desse contraste. A família de vampiros administra cadáveres, bolsas de sangue e caçadas com uma naturalidade quase burocrática. Sasha pede licença, demonstra culpa e procura uma solução ética para uma atividade que não possui versão ética. Paul, por sua vez, encara a possibilidade de morrer com certa tranquilidade, mas fica nervoso ao precisar falar com pessoas que o magoaram.
O prazo da dupla termina ao amanhecer. Sasha está cada vez mais fraca, Paul ainda possui desejos pendentes e Denise pode descobrir que a prima saiu acompanhada de um humano vivo. A caminhada deixa de ser apenas uma despedida e ganha um risco maior quando os sentimentos de ambos começam a contrariar o combinado.
Dois jovens fora do lugar
Sara Montpetit constrói Sasha por meio de olhares baixos, frases econômicas e uma postura permanentemente desconfortável. A personagem parece pedir desculpas até quando sente fome. Sua sensibilidade nunca vira ingenuidade. Ela sabe o que sua família faz e reconhece que depende dos resultados dessa violência, ainda que não consiga repeti-la.
Félix-Antoine Bénard oferece a Paul uma tristeza contida, sem transformar o adolescente em uma coleção de sintomas. Ele também pode ser engraçado, irritado e até inconveniente. Essa variedade preserva sua humanidade e impede que sua vontade de morrer vire apenas um recurso para alimentar a história de Sasha.
Denise, interpretada por Noémie O’Farrell, representa a pressão familiar com uma energia bem diferente. Ela não possui paciência para dilemas e considera a prima despreparada para o mundo. Aurélien (Steve Laplante) e Georgette (Sophie Cadieux) completam esse ambiente doméstico, dividido entre proteger Sasha e obrigá-la a assumir os costumes do clã.
A diretora mantém a atenção nos encontros, nos silêncios e na passagem das horas. A violência surge ligada às escolhas dos personagens, sem dominar todo o filme. O terror permanece presente na fome de Sasha, na ameaça das presas e no perigo enfrentado por Paul. A comédia suaviza alguns instantes, mas não transforma o sofrimento do rapaz em piada.
Delicadeza com dentes afiados
“Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário” encontra sua melhor qualidade na relação entre Sasha e Paul. Os dois fazem um pacto baseado na morte, embora passem a madrugada oferecendo companhia um ao outro. Ela ganha alguém que respeita sua sensibilidade. Ele recebe uma atenção que não encontrou entre colegas, professores ou familiares.
O roteiro trata o desejo de morrer com cuidado e não apresenta o sacrifício de Paul como gesto romântico. Sua oferta nasce do abandono, da violência cotidiana e da sensação de que ninguém perceberia sua ausência. Sasha escuta aquilo que os adultos ignoraram, mas também precisa decidir quanto pode aceitar sem repetir a crueldade da própria família.
Ariane Louis-Seize combina fantasia, drama adolescente, terror e comédia com leveza. O título enorme já resume a proposta e ainda guarda uma boa piada. Por trás dele existe uma história pequena, sensível e bastante humana sobre dois jovens considerados inadequados por seus grupos. A madrugada compartilhada não apaga seus problemas, porém abre uma possibilidade que nenhum deles havia previsto antes daquele encontro.

