A demência retira de uma pessoa a continuidade de sua própria história, deixando parentes, móveis e fotografias diante de alguém que talvez reconheça tudo por um instante e, logo depois, não saiba onde está. June Wilton vive há cinco anos numa instituição de cuidados quando desperta lúcida, sem recordar o período transcorrido desde que a doença a afastou da família. Ela foge, volta ao endereço onde morava e descobre que sua casa foi vendida, os filhos tomaram rumos que jamais aprovaria e a fábrica artesanal de papéis de parede que dirigia perdeu identidade e prestígio. Em “Viver, Amar e Aprender”, título brasileiro de “June Again”, o australiano J.J. Winlove concede a essa matriarca uma breve trégua, tempo suficiente para que ela tente reorganizar a vida alheia com a autoridade de quem acredita ter-se ausentado por poucos meses. A produção, concluída em 2019 e lançada posteriormente em diferentes mercados, é conduzida por Noni Hazlehurst, Claudia Karvan e Stephen Curry.
Ginny, a filha interpretada por Claudia Karvan, recebe a mãe com o cuidado exausto de quem passou anos visitando uma mulher que já não a reconhecia. Devon, vivido por Stephen Curry, abandonou ambições profissionais, separou-se e permitiu que o negócio da família se transformasse numa operação comercial sem o refinamento artesanal defendido por June. Em vez de agradecer pela sobrevivência dos filhos durante sua ausência involuntária, ela inicia uma campanha para corrigir casamentos, empregos, ressentimentos e decisões que considera equivocadas. O impulso dá ao filme sua comicidade e também sua melhor zona de desconforto. June ama aquela gente, embora seu amor assuma frequentemente a forma de invasão, chantagem e julgamento, e Winlove é mais interessante quando deixa os filhos reagirem à volta da mãe como quem recebe, junto com um milagre, uma antiga cobrança.
Uma família que aprendeu a seguir
Hazlehurst impede que a personagem se torne uma santa enferma ou uma senhora engraçadinha libertada das convenções pela proximidade do fim. June é rápida, autoritária, vaidosa e consciente de que a névoa pode retornar a qualquer momento. A atriz deixa esse medo escapar em pausas mínimas, sobretudo quando a protagonista perde uma palavra, hesita diante de um rosto ou procura disfarçar a desorientação com uma ordem. Karvan responde com uma atuação mais recolhida, acumulando a dor de quem precisa aceitar que a mãe está de volta sem saber por quanto tempo; Curry dá a Devon uma fragilidade menos vistosa, adequada ao filho que se acomodou à própria decepção. O reencontro de June com um amor antigo e a tentativa de recuperar a fábrica completam o movimento de uma mulher empenhada em provar que ainda dispõe de algum comando sobre o mundo.
Winlove adoça demais várias situações, distribuindo reconciliações num ritmo em que conflitos familiares de cinco anos cedem com uma facilidade suspeita. A fábrica, o romance interrompido e as crises dos filhos parecem às vezes tarefas organizadas numa lista para que June consiga concluí-las antes que o organismo feche outra vez aquela janela. A direção também se protege do lado mais degradante da doença, preferindo ambientes luminosos, humor doméstico e uma trilha que avisa com antecedência quando o público deve comover-se. Essa prudência limita o alcance do filme, embora nunca consiga neutralizar Hazlehurst.
“Viver, Amar e Aprender” encontra sua verdade quando June percebe que reparar a família não significa devolvê-la à configuração que existia antes de sua internação. Os filhos aprenderam a viver sem ela, carregando culpas e fazendo escolhas ruins das quais também são proprietários. Quando a lucidez começa a falhar, Hazlehurst reduz os movimentos, perde a firmeza da voz e deixa no rosto da personagem o esforço de conservar por mais alguns segundos as pessoas que logo voltarão a ser estranhas. Winlove pode ter preparado uma despedida excessivamente gentil; Noni Hazlehurst, felizmente, sabe que nenhuma despedida diante da demência consegue permanecer assim.

