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Lúcio de Mendonça e os escritores reunidos em torno da “Revista Brasileira” queriam fundar uma instituição nacional nos moldes da Academia Francesa, sob a proteção do Estado. O governo pareceu topar e, na hora agá, tirou o corpo. Não se conhece país nenhum em que os homens de letras dispensem de bom grado dinheiro público, prestígio oficial e uma sala com cadeiras suficientes, e o Brasil do fim do século 19 estava longe de constituir exceção. O projeto buscou abrigo no poder. Não encontrou.

Poderia ter morrido ali. Projetos brasileiros muito mais robustos já morreram por menos, alguns antes mesmo de nascer, outros depois de inauguração solene, placa de bronze e discurso de ministro. O da Academia sobreviveu à recusa e mudou de natureza. Em vez de órgão tutelado pelo governo, seria uma associação privada. Independente, portanto. Não por pureza doutrinária, convém dizer, mas porque não havia outra saída. Às vezes a história trabalha assim, aos empurrões.

A ideia de uma academia literária nacional já vinha circulando havia algum tempo. Afonso Celso Júnior a defendera ainda no Império; Medeiros e Albuquerque voltaria ao assunto na República. O modelo estava à mão e era francês, naturalmente. Para a elite brasileira daquele tempo, Paris não era apenas uma cidade, mas uma espécie de cartório universal onde se reconhecia a firma da civilização. Se os franceses tinham quarenta imortais, por que nós não teríamos os nossos?

A pergunta pode soar meio ridícula hoje. Soava perfeitamente razoável então. O que faltava ao plano não era a solenidade do pedigree. Era uma turma.

Ela se formou na “Revista Brasileira”, dirigida por José Veríssimo. A publicação tinha prestígio, boa circulação no pequeno mundo letrado do Rio de Janeiro e, sobretudo, a capacidade de pôr na mesma sala gente que escrevia romances, poemas, críticas, artigos políticos, peças de teatro e, quando necessário, ofícios públicos. Não havia ainda no Brasil uma profissão de escritor capaz de sustentar quase ninguém. Os homens de letras eram também jornalistas, advogados, diplomatas, professores, médicos, políticos. Alguns exerciam todas essas atividades, às vezes ao mesmo tempo, e ainda arranjavam espaço para cultivar desafetos.

A revista funcionou como ponto de encontro dessa fauna. Não uma família feliz, é claro. Escritores unidos pela literatura continuam sendo escritores, e a literatura talvez seja o último assunto capaz de pacificar quem vive dela. Havia diferenças estéticas, políticas, pessoais, geracionais. Havia vaidades. Muitas. A vaidade, aliás, não deve ser tratada como simples defeito nesse caso. Sem uma quantidade razoável dela, ninguém se dispõe a fundar uma instituição destinada a decidir quem merece ser chamado de imortal.

O mérito de Lúcio de Mendonça foi perceber que aquela roda tinha consistência suficiente para virar outra coisa. Ele não inventou sozinho o desejo de uma academia, mas deu ao desejo uma agenda. Fez contatos, articulou nomes, buscou o apoio estatal e, depois do recuo do governo, ajudou o projeto a continuar de pé. É o tipo de trabalho que costuma desaparecer quando a obra coletiva fica pronta e passa a contar sua história por meio de retratos de presidentes. Fundadores práticos raramente vencem fundadores simbólicos.

Nesse terreno Machado de Assis era imbatível.

Em 10 de novembro de 1896, a “Gazeta de Notícias” publicou informações sobre a futura Academia. O “Jornal do Commercio” fez o mesmo no dia seguinte. Antes de ter estatuto, diretoria ou sede, a entidade já tinha notícia de jornal. Não deixa de ser apropriado. Num meio composto em grande parte por jornalistas, a realidade começou pela publicação da realidade. Depois de anunciada, a Academia ganhou uma existência meio precária, mas pública.

Machado, naturalmente

A primeira sessão preparatória foi marcada para 15 de dezembro, às três da tarde, na redação da “Revista Brasileira”, Travessa do Ouvidor, nº 31. Machado foi aclamado presidente.

É possível passar depressa demais por esse fato, porque sabemos o que aconteceu depois. Machado virou Machado, a Academia virou a Academia, e a escolha parece hoje tão natural quanto escalar Pelé para a seleção de 1970. Só que em dezembro de 1896 ele ainda estava vivo, o que sempre atrapalha a unanimidade. Tinha 57 anos, uma obra vasta, prestígio indiscutível e adversários como qualquer escritor que não tenha passado a vida inteira dizendo amém. “Memórias Póstumas de Brás Cubas” fora publicado quinze anos antes; “Quincas Borba”, cinco. “Dom Casmurro” ainda viria.

Não era, portanto, o monumento nacional plastificado pelos livros escolares. Era um homem sentado entre outros homens, alguns célebres, outros convencidos de que a posteridade lhes devia atenção. Mesmo assim, ninguém pareceu considerar seriamente outro nome para a presidência.

Por quê?

Porque Machado oferecia àquela turma uma coisa que Lúcio de Mendonça, José Veríssimo, Joaquim Nabuco, Olavo Bilac, Rui Barbosa e tantos outros, cada qual por razões diferentes, não podiam oferecer na mesma medida. Centralidade sem chefia ostensiva. Seu prestígio não dependia de partido ou facção literária. Era conhecido pela discrição, pela capacidade de conviver com diferenças e por uma obra que já começava a escapar das brigas imediatas do período. Num ambiente em que quase todo mundo tinha um projeto explícito para o país e para as letras, Machado tinha sobretudo livros. O bastante.

Isso não transforma sua aclamação num ato inocente. Ao pôr o escritor mais respeitado na presidência, o grupo emprestava a autoridade dele ao projeto que acabava de criar. A Academia passaria a consagrar escritores, mas antes precisava ser consagrada por um. Machado serviu como capital inicial.

A operação funcionou tão bem que acabou produzindo uma pequena injustiça histórica. Fala-se com frequência na “Academia de Machado”, embora ele não tenha sido o principal articulador do projeto, nem o único responsável por sua forma. Lúcio de Mendonça moveu as peças. Veríssimo forneceu o ambiente. Joaquim Nabuco, Rodrigo Otávio, Silva Ramos e Inglês de Sousa assumiram funções executivas. Machado presidiu.

As sessões preparatórias seguiram até 28 de janeiro de 1897. Na última estavam presentes, entre outros, Araripe Júnior, Artur Azevedo, Graça Aranha, Inglês de Sousa, Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, Machado, Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac e o Visconde de Taunay.

Também eram considerados integrantes do grupo fundador Coelho Neto, Filinto de Almeida, José do Patrocínio, Luís Murat e Valentim Magalhães, presentes em encontros anteriores, além de Afonso Celso Júnior, Alberto de Oliveira, Alcindo Guanabara, Carlos de Laet, Garcia Redondo, Pereira da Silva, Rui Barbosa, Sílvio Romero e Urbano Duarte, que aceitaram o convite. Eram trinta. Faltavam dez.

A Academia Francesa tinha quarenta membros, e a brasileira teria quarenta também. Foram escolhidos Aluísio Azevedo, Clóvis Beviláqua, Domício da Gama, Eduardo Prado, Oliveira Lima, Raimundo Correia e outros quatro. Quarenta homens. Nenhuma mulher.

A exclusão talvez não tenha provocado grande incômodo entre os fundadores, o que diz mais sobre eles e seu tempo do que qualquer discurso posterior sobre a representação da literatura nacional. A instituição destinada a falar em nome das letras brasileiras começou reproduzindo com grande fidelidade os limites do grupo social que a criou. Não é uma acusação retroativa especialmente engenhosa.

O mecanismo das cadeiras, cada uma ligada a um patrono, deu à Academia a forma de uma sucessão. O escritor entrava, morria, outro ocupava seu lugar, mas a cadeira prosseguia. Há algo de engenhoso e algo de fúnebre nisso. A Academia nasceu pensando na morte. Não na morte abstrata, grande tema da literatura, e sim naquela bem concreta que abre vagas e exige nova eleição.

A palavra “imortal” viria a adquirir a conhecida carga de pompa e gozação. O sistema, porém, era funcional. A roda de escritores deixava de depender das pessoas que por acaso estavam vivas e disponíveis. Criava lugares permanentes. Os ocupantes passariam; o desenho ficaria.

Para que ficasse, era preciso enfrentar a parte menos romântica do negócio. Machado assinou os Estatutos como presidente; Joaquim Nabuco, como secretário-geral; Rodrigo Otávio, primeiro-secretário; Silva Ramos, segundo-secretário; Inglês de Sousa, tesoureiro. Sim, tesoureiro. A literatura pode aspirar ao absoluto, mas uma instituição precisa saber onde guardou o dinheiro.

A máquina de durar

Reunir escritores numa revista não era novidade. O Rio estava cheio de rodas, cafés, jornais, panelinhas e grupos que se declaravam decisivos pouco antes de se dissolver. O que a Academia fez foi converter sociabilidade em rito. Produziu uma máquina de durar.

Máquina imperfeita, estreita, masculina, socialmente homogênea e convencida da própria importância? Sem dúvida. Mas máquina.

A sessão inaugural ocorreu em 20 de julho de 1897, numa sala do Pedagogium, na Rua do Passeio. Compareceram dezesseis acadêmicos. Menos da metade dos quarenta, o que empresta ao nascimento oficial da imortalidade brasileira uma nota de ausências bastante humana.

Machado fez uma alocução preliminar. Rodrigo Otávio leu a memória dos atos preparatórios. Joaquim Nabuco pronunciou o discurso inaugural. A Academia, ainda sem casa própria e com cadeiras vazias na sala, já possuía uma narrativa sobre sua origem. Instituições aprendem cedo que lembrar não é recuperar o passado, mas arrumá-lo.

A versão arrumada é simples. Escritores reunidos na “Revista Brasileira” decidiram fundar uma academia, o Estado recusou apoio, Machado foi aclamado presidente e a entidade seguiu caminho independente. Nada aí é falso. O problema é que a limpeza da sequência tira do episódio o que ele teve de incerto, contingente, vaidoso, trabalhoso e até um pouco cômico.

A ABL não nasceu de um consenso nacional sobre a necessidade de organizar as letras. Nasceu da iniciativa de um grupo pequeno que possuía prestígio suficiente para atribuir autoridade a si mesmo. Eles se escolheram, escolheram os colegas que faltavam, fixaram as regras e começaram a falar em nome da literatura brasileira. É assim que quase todos os cânones se formam, embora depois gostem de se apresentar como fenômenos da natureza.

Seria fácil reduzir tudo a uma manobra de elite. Também seria burro. Num país de memória fraca, mercado editorial incipiente e vida intelectual dependente da imprensa e dos humores do poder, a criação de uma organização estável para a língua e a literatura tinha um valor que ultrapassava os interesses dos fundadores. Seria estranho exigir altruísmo puro justamente de escritores, criaturas que passam anos produzindo livros e depois fingem surpresa quando desejam ser lidas.

A recusa do Estado, a articulação de Lúcio e a escolha de Machado formam, juntas, o movimento decisivo. O governo negou a moldura oficial. Lúcio impediu que o projeto desabasse. Machado forneceu a autoridade que faltava. A roda virou instituição. Não de uma vez. E certamente não sem vaidade, cálculo e improviso.

Naquela tarde inaugural, havia dezesseis homens numa sala emprestada e vinte e quatro cadeiras representadas apenas no papel. A Academia ainda não tinha palácio, tradição nem garantia alguma de futuro. Tinha estatutos, nomes, um presidente e uma ideia teimosa de permanência. Para quem pretendia fundar a imortalidade, já era alguma coisa.

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