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Stanley Kubrick nunca filmou a guerra como se o problema principal da guerra fosse o combate. A afirmação parece meio torta diante de “Glória Feita de Sangue”, com suas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, de “Dr. Fantástico”, no qual aviões carregados de bombas atômicas avançam para a União Soviética, e de “Nascido para Matar”, dividido entre o treinamento de fuzileiros navais e a devastação do Vietnã. Tiro, explosão, cadáver, marcha, ordem berrada, tudo está lá. Às vezes em quantidade. O que Kubrick desloca para o centro, porém, é aquilo que vem antes do disparo e continua funcionando depois que o corpo cai; a instituição que escolhe o alvo, fabrica o soldado, inventa uma justificativa e, quando a coisa dá errado, providencia um culpado de patente baixa.

Não se trata de uma trilogia planejada. Trinta anos separam “Glória Feita de Sangue”, de 1957, de “Nascido para Matar”, lançado em 1987, e no intervalo Kubrick foi ao espaço, ao século 18, ao Hotel Overlook, à distopia de Alex e a outros lugares que não costumam aparecer num mapa militar. Mesmo assim, os três filmes formam uma sequência de extraordinária coerência. No primeiro, o exército manda homens morrerem e depois os julga por não terem morrido direito. No segundo, o sistema de defesa mais sofisticado do planeta se revela incapaz de defender o planeta de si mesmo. No terceiro, rapazes são desmontados e remontados até que possam matar com eficiência, operação industrial cujo êxito absoluto produz um cadáver no banheiro.

Alguém precisa pagar a conta

Kubrick ainda não tinha 30 anos quando dirigiu “Glória Feita de Sangue”, depois do salto de qualidade representado pelo policial “O Grande Golpe”. A juventude ajuda a explicar certa insolência do filme, não sua maturidade. Esta é mais difícil de explicar. Baseada no romance de Humphrey Cobb e viabilizada pela participação de Kirk Douglas, a história acompanha uma ofensiva francesa praticamente impossível durante a Primeira Guerra. O ataque fracassa, como qualquer um com olhos e distância segura poderia prever. Para preservar a honra do comando, três soldados são escolhidos, julgados por covardia e condenados à morte.

É uma história de guerra em que os verdadeiros combates ocorrem entre homens do mesmo uniforme. O coronel Dax, vivido por Douglas, tenta defender os acusados, mas sua competência jurídica e sua indignação moral batem contra uma parede mais sólida do que as fortificações inimigas. O tribunal não foi criado para descobrir a verdade. Foi criado para produzir um resultado com aparência de verdade, aquela especialidade burocrática que atravessou o século 20 e entrou no 21 com saúde de ferro.

A câmera deixa isso claro antes que qualquer personagem formule uma ideia. Nas trincheiras, ela avança entre lama, medo e corpos comprimidos. No palácio em que se realiza o julgamento, os homens parecem pequenos dentro de salões amplos. De um lado, quem pode morrer não tem espaço. Do outro, quem decide a morte tem espaço demais. Os generais são vaidosos, cínicos e capazes de acreditar nas próprias mentiras em proporções variáveis. Não são monstros que invadiram uma instituição saudável. São seus funcionários exemplares.

A cena final, em que uma jovem alemã canta diante de soldados franceses, costuma ser lida como irrupção humanista num filme gelado. É, sem dúvida, comovente. Os homens primeiro riem, depois acompanham a melodia sem compreender as palavras, alguns choram. Mas seria otimista demais achar que a canção derrotou a guerra. Ela ganhou alguns minutos. Logo os soldados voltarão à frente. Kubrick concede à humanidade um intervalo, não uma vitória.

Sete anos depois, em “Dr. Fantástico”, a instituição já não precisa selecionar três infelizes para salvar a própria reputação. Pode exterminar todo mundo.

O fim do mundo em reunião

O projeto nasceu como adaptação séria de “Red Alert”, romance de Peter George sobre um ataque nuclear iniciado por um general americano. Kubrick e o produtor James B. Harris divergiram quanto ao tom. Harris queria preservar o drama; o diretor percebeu que, levados a sério até o fim, os protocolos da destruição mútua pareciam escritos por um comediante de humor particularmente ruim. A lógica era impecável. Só o resultado era o fim do mundo.

Na Sala de Guerra, políticos, militares e cientistas discutem o apocalipse com a compostura de um conselho administrativo às voltas com a queda trimestral das vendas. Há regras, mapas, telefones, cadeias de comando e homens muito treinados para ocupar suas cadeiras. O problema é que o sistema foi concebido para tornar certas decisões irreversíveis. Quando surge a necessidade de usar o bom senso, descobre-se que ele não consta do manual.

Peter Sellers interpreta três personagens, um oficial britânico, o presidente americano e o cientista que dá título ao filme. O virtuosismo do ator é engraçado, claro, mas a multiplicação tem outra graça, menos tranquilizadora; moderação política, racionalidade científica e obediência militar usam vozes diferentes e pertencem à mesma engrenagem. No fim, ninguém controla nada, embora todos passem o filme exercendo autoridade sobre alguém.

Chamar Kubrick de pacifista não chega a ser errado. Só é pouco. O pacifismo costuma partir do reconhecimento de que a guerra provoca sofrimento e morte, verdade moral tão importante quanto óbvia. Kubrick está interessado também no mecanismo capaz de converter esse horror em procedimento. Como se convence um sujeito a matar? Como se transforma uma decisão monstruosa numa ordem tecnicamente correta? Como a linguagem limpa o sangue antes mesmo que ele seja derramado? “Dr. Fantástico” responde com gargalhadas que deixam um gosto péssimo na boca. Uma boa comédia, afinal, não precisa ser agradável.

Há também, nos três filmes, um curso intensivo de masculinidade aplicada. O soldado deve sentir medo do modo correto, chorar na hora permitida, transformar humilhação em disciplina e agressividade em competência. Os generais de “Glória Feita de Sangue” defendem a honra porque a reputação masculina do comando vale mais do que a vida da tropa. Em “Dr. Fantástico”, a humanidade inteira cabe numa sala quase exclusivamente masculina, onde potência militar, impotência política e pânico sexual se embaralham com uma naturalidade meio obscena. “Nascido para Matar” dispensa qualquer subtexto; o quartel pega rapazes, raspa-lhes a cabeça e ensina que ser homem é deixar de ser aquilo que eram.

Kubrick era obcecado por controle, os exércitos são máquinas de controle, logo ele filmava exércitos porque via neles a si mesmo. Hmm. O raciocínio tem a elegância de um móvel comprado desmontado e montado com parafusos sobrando. Kubrick pesquisava, repetia tomadas, acompanhava montagem, som, publicidade e exibição, mas seus filmes de guerra são justamente demonstrações de que controle total não existe. Planos falham, sistemas enlouquecem, ordens produzem consequências que ninguém previu. Se há algo pessoal aí, será no máximo a consciência profissional de quem passou a vida tentando dominar o acaso sem jamais cometer a tolice de supor que o tivesse abolido.

Antes do soldado vem o método

Em “Nascido para Matar”, feito mais de duas décadas depois de “Dr. Fantástico”, a pergunta deixa a Sala de Guerra e desce até o corpo do recruta. A primeira metade do filme se passa no treinamento dos fuzileiros navais. Os jovens perdem o cabelo, o nome, a intimidade. Recebem apelidos, comandos e um novo vocabulário. Antes de aprender a matar, aprendem a responder.

Leonard Lawrence, rebatizado de Pyle, não acompanha o grupo. É lento, desajeitado, gordo, vulnerável, o tipo de rapaz que qualquer instituição dedicada à uniformidade reconhece de imediato como matéria defeituosa. O sargento Hartman o humilha e pune os demais por suas falhas. A técnica é eficiente. Em pouco tempo, os colegas passam a odiá-lo e participam de seu esmagamento.

A transformação de Pyle é uma das ideias mais cruéis de todo o cinema de Kubrick. O recruta melhora. Aprende a montar o rifle, acertar os movimentos, obedecer, concentrar-se. Seu rosto muda. A máquina enfim funciona, e o primeiro uso pleno daquilo que ela fabricou é o assassinato do instrutor seguido de suicídio. O fracasso de Pyle seria menos perturbador. O horror está no sucesso.

A segunda metade acompanha Joker e outros soldados no Vietnã durante a Ofensiva do Tet. Muitos espectadores a consideram mais dispersa e menos poderosa que o treinamento. Talvez seja. O quartel oferece unidade dramática, personagens confinados e uma linha de tensão que se aperta até arrebentar. A guerra, ao contrário, é um conjunto de esperas, deslocamentos, poses diante da câmera, piadas, tiros vindos de lugares invisíveis e mortes que não obedecem ao arco narrativo de ninguém.

Joker usa um símbolo da paz no uniforme e traz no capacete a frase que dá título ao filme em português. Quando questionado, diz querer expressar a dualidade humana. É uma resposta inteligente, escolar até, e tem o mérito adicional de não resolver coisa alguma. A contradição pode ser consciência crítica, pose juvenil ou mais um produto da instituição, que tolera alguma ironia desde que o rifle continue apontado para a frente.

Kubrick não dá aos três filmes a mesma forma porque não encontra nas três guerras o mesmo problema. “Glória Feita de Sangue” tem a solenidade de uma tragédia judicial. “Dr. Fantástico” é uma farsa apocalíptica em que a inteligência trabalha contra a sobrevivência. “Nascido para Matar” começa como pesadelo de disciplina perfeita e se parte quando chega ao campo de batalha.

Isso ajuda a entender a ausência de heroísmo convencional. Dax é corajoso e decente, mas não salva os condenados. O presidente de “Dr. Fantástico” tenta impedir a catástrofe, mas preside um sistema que já dispensou sua vontade. Joker conserva humor e alguma perplexidade, o que não o põe fora da guerra.

Em “Nascido para Matar”, depois que uma jovem atiradora vietnamita é cercada e morta, os soldados caminham cantando a música do Mickey Mouse. A cena seria insuportavelmente simbólica se não fosse, antes de tudo, concreta e absurda; homens armados, numa cidade em chamas, voltando à infância por uma canção. Não há ali inocência recuperada. Há apenas mais uma armados, numa cidade em chamas, voltando à infância por uma canção. Não há ali linguagem coletiva para ajudá-los a seguir andando.

Talvez seja essa a nota mais sombria do cinema de guerra de Kubrick. A violência precisa de armas, mas armas são a parte fácil. O trabalho complicado vem antes; ensinar o homem a marchar, a obedecer, a rir, a justificar e, quando necessário, a cantar.

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