Elias Canetti dedicou boa parte da vida a investigar o momento em que o indivíduo se dissolve na multidão, mas seu único romance começa no extremo oposto. Dentro da cabeça de um homem que mal suporta a existência de outra pessoa. Peter Kien, o protagonista de “Auto de Fé”, é um sinólogo mundialmente respeitado, dono de memória prodigiosa e de uma biblioteca particular com cerca de 25 mil volumes. Sabe o que foi escrito há séculos por autores que morreram do outro lado do planeta. Sobre a mulher que limpa sua casa todos os dias, não sabe rigorosamente nada. Pior, não desconfia que isso seja um problema.

Concluído em 1931 e publicado em meados daquela década, quando a Europa já começava a trocar suas neuroses de salão por loucuras mais industriais, “Auto de Fé” ocupa uma posição estranha na obra de Canetti. É o primeiro volume de um ciclo projetado de oito romances sobre personagens dominados por obsessões diferentes. Também é o último. O ciclo não passou dali, o escritor nunca mais publicou ficção romanesca e terminou conhecido sobretudo por “Massa e Poder”, seu monumental ensaio sobre multidões, autoridade, obediência e sobrevivência. É como se tivesse usado o primeiro livro para testar o mecanismo do homem monomaníaco e, ao abri-lo, descoberto lá dentro uma sociedade inteira.
Kien vive num apartamento do qual foram praticamente expulsos todos os objetos que não sejam livros. Dorme num divã, faz refeições frugais, segue horários rígidos e percorre diariamente as mesmas ruas. O mundo externo tem para ele a utilidade de um corredor entre duas estantes. As pessoas são barulhentas, imprecisas, corporais, exigem respostas, trazem consigo cheiros, desejos e contas a pagar. Livros, não. Livros ficam onde foram colocados e, quando contradizem o leitor, fazem isso com a discrição tipográfica de quem não pretende vencer a discussão aos berros.
Vinte e cinco mil livros e nenhuma conversa
Naturalmente, Kien se considera um homem livre. Sua desgraça começa quando acredita ter encontrado na governanta Therese uma alma semelhante à sua. Ela manifesta preocupação com os livros, trata-os com cuidado, observa seus hábitos e demonstra aquilo que o sinólogo, pouco treinado nas nuances da espécie, interpreta como devoção intelectual. Casa-se com ela. A decisão parece absurda, mas não é gratuita. Kien só consegue compreender outra pessoa depois de traduzi-la para a própria língua. Therese não existe para ele como mulher de meia-idade, empregada, criatura desejante, interesseira ou apenas diferente. É uma frase mal lida.
A confusão não demora a se esclarecer, embora esclarecimento seja uma palavra otimista demais para o que ocorre. Therese está interessada no apartamento, no dinheiro, na posição social e numa vida menos servil. Kien está interessado em que ela continue não existindo. O casamento de ambos é uma colisão entre duas formas de surdez. Não há verdadeiro diálogo, apenas monólogos alternados, cada um aproveitando as palavras do outro como material para confirmar o que já pensava.
Cada maluco tem seu próprio dicionário
Esse é o grande achado de “Auto de Fé”. Seus personagens não possuem apenas opiniões, manias ou estilos de falar. Habitam sistemas linguísticos fechados, verdadeiras celas vocabulares. Therese reduz os acontecimentos a dinheiro, roupas, comida, decência e ressentimento. O porteiro Benedikt Pfaff, policial aposentado que espanca a filha e sente nostalgia da autoridade, pensa com os punhos mesmo quando está parado. Fischerle, anão corcunda obcecado por xadrez e ascensão social, reorganiza qualquer situação como lance de uma partida em que pretende atravessar o tabuleiro e deixar de ser peão.
Kien faz a mesma coisa com os livros. A diferença é que sua loucura usa óculos, conhece línguas antigas e tem referências bibliográficas.
Canetti chamaria mais tarde de “máscara acústica” o conjunto de inflexões, bordões, ritmos e limites pelos quais uma pessoa se torna reconhecível ao ouvido. Ele sabia do que estava falando. Nascido em Ruse, na Bulgária, numa família judaico-sefardita, teve o ladino como primeira língua, aprendeu inglês na infância em Manchester e foi submetido pela mãe, depois da morte precoce do pai, a um aprendizado intensivo do alemão. Passou ainda por Viena, Zurique e Frankfurt. Antes de se transformar num autor alemão, Canetti foi uma espécie de pensionista de diversos idiomas.
Essa formação multilíngue costuma ser apresentada como uma riqueza, e foi, mas seria tolice ignorar sua dimensão violenta. O alemão era a língua da mãe, da literatura admirada, da disciplina e de uma intimidade quase sufocante. Canetti aprendeu desde cedo que as palavras aproximam e dominam, libertam e dão ordens. Mais tarde, em Viena, caiu sob o fascínio de Karl Kraus, o grande polemista que conseguia reunir auditórios em torno da pura autoridade de sua voz. Admirou-o como mestre da escuta e precisou afastar-se dele para recuperar o próprio ouvido.
Peter Kien parece ter seguido o caminho inverso. Aprendeu tudo o que podia ser armazenado e desaprendeu aquilo que exigia transformação. Não escuta para deixar que a fala alheia o modifique. Escuta como um funcionário da alfândega intelectual, decidido a barrar a entrada de qualquer mercadoria não declarada.
Expulso de casa por Therese, o sinólogo desce ao mundo. A expressão pode soar grandiosa, mas o mundo que encontra é formado por pensões, ruas, bancos, bordéis, delegacias e gente interessada em arrancar dele algum dinheiro. Sem a biblioteca para organizar sua percepção, Kien não se torna menos abstrato. Torna-se apenas um abstrato carregando uma pasta.
Fischerle percebe rapidamente que aquele homem alto, desajeitado e incapaz de compreender uma transação elementar pode ser explorado. Inventa histórias, monta uma pequena quadrilha e administra a realidade do professor com a facilidade de um autor de folhetim pouco preocupado com a verossimilhança. Kien aceita os disparates porque são traduzidos em termos que sua cabeça reconhece. O conhecimento acumulado por décadas não lhe fornece defesa contra uma mentira medíocre.
É engraçado. Terrivelmente engraçado.
O humor do romance vem do excesso, da repetição, da solenidade com que cada personagem leva adiante seu pequeno sistema delirante. Canetti estica os gestos até a caricatura e depois um pouco mais, quando já não sabemos se estamos diante de seres humanos deformados ou de ideias que ganharam pernas, sapatos gastos e apetite. A graça vai ficando amarga porque o leitor percebe que aquelas figuras não são exceções clínicas isoladas. São versões ampliadas de operações bastante comuns, interpretar antes de ouvir, reduzir os outros a tipos, chamar de princípio aquilo que muitas vezes é só interesse, usar a inteligência para não compreender.
O livro foi escrito antes da chegada de Hitler ao poder, o que não impediu gerações de leitores de enxergar nele uma profecia da catástrofe europeia. Há autoritarismo, culto à força, humilhação, paranoia, desejo de purificação e uma incapacidade coletiva de reconhecer o outro. Tudo isso estava no ar. Ainda assim, ler “Auto de Fé” como simples alegoria do nazismo seria domesticar sua estranheza, transformando o romance numa charada histórica de resposta conhecida. Canetti não descreve uma ideologia específica. Descreve o material humano com que muitas delas são fabricadas.
Também seria cômodo demais salvar o livro inteiro em nome de sua ferocidade universal. A construção de Therese mobiliza uma artilharia de repulsa física, sexual e moral que envelheceu mal. Seu corpo, sua idade, sua fala e seu desejo são tratados com uma crueldade que pode ser explicada pelo projeto grotesco, mas não anulada por ele. Sim, os homens do romance também são monstros. Pfaff é um brutalizador doméstico, Fischerle é um vigarista e Kien, em sua suposta elevação intelectual, pode ser o mais desumano de todos. Ainda assim, a mão narrativa parece encontrar um prazer particularmente insistente em humilhar Therese.
É uma falha? É, embora seja também parte do veneno que mantém o romance vivo. “Auto de Fé” não oferece ao leitor uma posição limpa, superior, de onde contemplar a deformidade dos personagens. A própria sátira está contaminada pelo mundo que satiriza. O livro nos obriga a rir com instrumentos que talvez não devessem estar em nossas mãos e, quando percebemos isso, a risada já saiu.
Canetti havia estudado química, frequentado os círculos intelectuais de Viena e começado a pensar seriamente sobre as massas depois de participar, em 1927, da multidão que cercou o Palácio da Justiça em chamas. No romance, porém, não existe aquela massa compacta que suspende as diferenças entre os indivíduos. O que há é uma multidão de seres isolados, cada qual fechado em sua obsessão, incapaz de formar comunidade até mesmo com outro maluco.
A biblioteca vai pegar fogo, claro
A biblioteca de Kien é o cenário mais perfeito dessa ilusão. Ele acredita ter reunido ali milhares de vozes, mas trata os livros de forma tão possessiva que termina por silenciá-los. A leitura, quando não inclui risco, dúvida e disponibilidade para abandonar por alguns minutos a própria cabeça, transforma-se numa modalidade sofisticada de não ler. Kien não conversa nem com os mortos.
O irmão Georges, psiquiatra que chega perto do fim para pôr ordem na situação, parece a princípio oferecer um contraponto de inteligência prática e flexível. Parece. Também ele interpreta depressa demais, acredita compreender os demais e subestima a força daquilo que pretende corrigir. Em “Auto de Fé”, a lucidez nunca entra inteira numa sala. No máximo, põe a cabeça pela porta, dá uma olhada e se retira antes que alguém lhe peça documentos.
Canetti não escreveu os outros sete romances de seu ciclo. As obsessões que destinaria aos volumes seguintes se espalharam pelas peças, pelos tipos humanos de “O Todo-Ouvidos”, pelas autobiografias e sobretudo por “Massa e Poder”. Seu único romance já continha, em miniatura e aos gritos, muitos dos problemas aos quais dedicaria o resto da vida. O poder das ordens, o desejo de sobrevivência, a rigidez da identidade, a transformação das pessoas em funções e a dificuldade de ouvir sem imediatamente subjugar.
No fim, Kien volta à biblioteca. Não volta curado, humilhado ou disposto a reconhecer que passou anos confundindo conhecimento com imunidade. Volta para reafirmar seu sistema e levar a relação com os livros à única conclusão compatível com sua lógica. O fogo que encerra o romance não ilumina nada. Queima.
Talvez seja essa a razão de “Auto de Fé” continuar tão perturbador. Não afirma que os livros sejam inúteis, perigosos ou insuficientes diante da vida. Afirma algo bem pior para quem gosta deles. Podem servir perfeitamente à estupidez, à vaidade e à loucura. Basta que o leitor tenha talento suficiente para não escutar uma única palavra.

