Alexandre Dumas não inventou a amizade, evidentemente, mas deu a ela uma das formas mais duráveis da literatura; quatro homens de espada na mão, diferenças gritantes de temperamento e uma disposição quase infantil para considerar qualquer ofensa a um deles um problema de todos. O arranjo parece simples. Sua força está justamente aí. Enquanto romancistas mais dados a sondagens psicológicas mergulham um balde no poço escuro de um único personagem, Dumas põe quatro sujeitos para cavalgar, beber, duelar, conspirar, brigar entre si e logo depois se unir contra o resto do mundo. O poço pode esperar. Há guardas do cardeal virando a esquina.
“Os Três Mosqueteiros”, publicado em 1844, é um daqueles livros cuja fama termina por atrapalhar a leitura. Todo mundo conhece os chapéus emplumados, as capas esvoaçantes, as espadas cruzadas, o lema “um por todos, todos por um”. Não é preciso ter passado da capa para saber que Athos é o sério, Porthos o espalhafatoso, Aramis o elegante e d’Artagnan o jovem impetuoso que chega da Gasconha montado num cavalo meio ridículo, trazendo no bolso uma carta de recomendação e na cabeça uma confiança no próprio destino que beira a demência. A cultura popular reduziu o quarteto a um logotipo da camaradagem masculina. Funciona, mas é pouco.
Para começar, os três mosqueteiros são quatro. A conta errada, que o título transforma em acerto, diz muito sobre o livro. D’Artagnan passa boa parte da história tentando entrar para um grupo que, desde o primeiro encontro, já não consegue existir sem ele. A famosa sequência em que marca três duelos para o mesmo dia — um com cada futuro amigo — condensa o talento de Dumas para apresentar personagens em movimento. Nada de longas fichas psicológicas, árvore genealógica ou relatório sobre traumas de infância. Athos, Porthos e Aramis entram em cena como problemas concretos que o rapaz arranja num espaço de poucas horas. Quando os guardas do cardeal interrompem a primeira luta, os quatro passam de adversários a companheiros quase sem perceber. É literatura de ação em estado puro; um homem se revela pelo modo como desembainha a espada e escolhe de que lado vai usá-la.
D’Artagnan é o motor da história, aquele que chega, pergunta, provoca, deseja, corre atrás. Tem a ambição e a elasticidade moral necessárias a todo herói de aventura que pretenda chegar vivo ao último capítulo. Athos oferece ao grupo uma gravidade que a juventude do gascão não tem; é o sujeito de maneiras impecáveis e passado tenebroso, homem que parece ter bebido antes do almoço não por gostar de farra — embora goste —, mas porque carrega alguma coisa difícil de manter sóbria. Porthos é corpo, apetite, vaidade, roupa vistosa, mentira social contada com tamanha convicção que termina parecendo verdade. Aramis quer ser padre e vive cercado de mulheres, conspirações e ambições mundanas, contradição que não o incomoda tanto quanto talvez devesse. Juntos, eles formam menos uma soma do que uma pequena reação química.
Essa é uma das grandes sacadas de Dumas. O romancista não precisa aprofundar cada personagem segundo os mandamentos posteriores do realismo psicológico porque os aprofunda por atrito. Athos fica mais trágico diante da fanfarronice de Porthos; Porthos fica mais engraçado perto da elegância afetada de Aramis; Aramis se torna mais suspeito sob o olhar direto de d’Artagnan; e o jovem gascão, cuja exuberância solitária poderia cansar em vinte páginas, ganha contorno ao tentar se mostrar digno dos outros. O protagonista verdadeiro é o grupo.
Naturalmente, Dumas não chegou sozinho a esse prodígio. “Os Três Mosqueteiros” e suas continuações nasceram da parceria com Auguste Maquet, pesquisador, planejador de tramas e redator de versões preliminares. O velho debate sobre quem escreveu o quê costuma oscilar entre duas caricaturas; a do gênio explorador que assinava o trabalho alheio e a do pobre Maquet reduzido a carregador de documentos enquanto Dumas, tocado pelo fogo divino, soprava vida sobre a papelada. É razoável supor que a verdade, como quase sempre, seja menos arrumadinha. Maquet ajudou a levantar o edifício; Dumas abriu as janelas, soltou os personagens pelos corredores e fez barulho suficiente para que o mundo inteiro olhasse para cima.
A volúpia narrativa de Dumas não se manifesta apenas na abundância de duelos, viagens, cartas roubadas, encontros secretos e identidades ocultas. Está também no modo como a amizade dos quatro produz um mundo moral próprio. Reis, rainhas, cardeais, amantes, maridos e instituições podem mudar de posição conforme as conveniências da política. Entre os mosqueteiros, pelo menos a princípio, a regra parece estável; nenhum companheiro é abandonado. A fraternidade funciona como uma monarquia portátil, com leis próprias e jurisdição acima de quase tudo.
Lidos sem a anestesia da nostalgia, os mosqueteiros estão longe de ser paladinos de uma justiça reconhecível em nosso tempo. Servem a reis, protegem privilégios, tratam criados como extensões de seus corpos e resolvem conflitos com uma naturalidade homicida impressionante. A amizade é comovente dentro do círculo, mas não torna seus integrantes especialmente sensíveis aos que ficaram de fora. O caso de Milady é o mais evidente. Inteligente, sedutora, cruel, dona de uma capacidade de ação muito superior à das mulheres decorativas que povoam boa parte da ficção de aventura, ela se torna uma inimiga à altura dos quatro justamente porque dispõe das mesmas armas; disfarce, coragem, cálculo, sangue-frio. Dumas constrói uma personagem magnífica e depois participa, com seus heróis, do esforço para puni-la por ter sido tão magnífica do lado errado.
O julgamento de Milady, conduzido pelos homens que a perseguem e culminando em sua execução, tem alguma coisa de tribunal de confraria. Há crimes reais a responder, sem dúvida, mas defesa, imparcialidade e legalidade não parecem preocupações centrais da turma. A mulher que escapou sucessivamente ao domínio masculino é condenada por um grupo que reúne acusadores, testemunhas, juízes e carrasco. A cena é poderosa porque Dumas sabe criar poder até onde sua moral é duvidosa. O desconforto que ela provoca não é um defeito acidental da leitura moderna; brota do próprio livro, da desproporção entre o fascínio exercido por Milady e a necessidade de eliminá-la para que o universo masculino volte aos eixos.
Se “Os Três Mosqueteiros” terminasse ali, seria ainda um monumento da aventura juvenil, movido pela sensação de que a rapidez, a coragem e os amigos certos podem derrotar qualquer máquina política. Dumas fez melhor. No ano seguinte publicou “Vinte Anos Depois” e introduziu no mecanismo uma substância contra a qual nenhuma espada tem grande serventia, o tempo.
Os quatro já não são os mesmos porque ninguém é. D’Artagnan continua inquieto, mas sua ambição adquiriu a impaciência de quem percebe ter recebido menos do mundo do que julgava merecer. Athos envelheceu para dentro, Porthos acumulou riqueza e volume, Aramis aprofundou sua relação flexível com a religião e a intriga. Mais importante, eles agora se encontram em lados políticos diferentes. A amizade que antes parecia uma força natural precisa disputar espaço com interesses, cargos, convicções, ressentimentos e lealdades concorrentes.
É aí que a série deixa de ser apenas uma prodigiosa máquina de peripécias e alcança uma dimensão humana mais funda. Na juventude, os quatro podiam se imaginar acima da história. Bastava uma senha, um cavalo disponível e algum dinheiro — item que quase nunca tinham — para partir em missão. Vinte anos depois, a história está entre eles. O passado comum não desapareceu, mas já não basta para determinar o presente. A amizade precisa ser escolhida de novo, e cada escolha custa mais caro.
Dumas publicou os dois romances com apenas um ano de intervalo, mas obrigou seus leitores a envelhecer de repente duas décadas. Personagens que pareciam existir num eterno presente de aventuras reaparecem carregando marcas, posições sociais, filhos, perdas. Em vez de simplesmente repetir a fórmula de sucesso — tentação editorial que Dumas, empresário atento ao gosto do público, conhecia muito bem —, o autor deixa que a repetição venha contaminada pela diferença. As velhas tiradas continuam engraçadas, os reencontros dão prazer, a ação ainda dispara, mas alguma coisa se perdeu. E sabemos que não voltará.
“O Visconde de Bragelonne”, publicado entre 1847 e 1850, amplia esse movimento até torná-lo doloroso. A geração seguinte avança, Luís XIV consolida seu poder, a política se torna mais complexa e o quarteto deixa aos poucos de ocupar o centro absoluto do palco. A extensão do romance, enorme mesmo para os padrões folhetinescos de Dumas, produz irregularidades, desvios, repetições, aventuras que às vezes parecem ter entrado por uma porta lateral e esquecido o motivo da visita. Dumas podia perder a medida porque, antes de tudo, gostava de medir o mundo com uma régua comprida.
No entanto, é justamente essa duração que permite ao leitor sentir o desgaste da amizade em vez de apenas ser informado sobre ele. Os heróis não são aposentados com uma homenagem, preservados numa redoma de glória. Continuam agindo num mundo que começa a dispensá-los. O jovem rei já não precisa do mesmo tipo de bravura improvisada que servira às gerações anteriores; o Estado se torna mais organizado, mais centralizado e, portanto, menos dependente de sujeitos que resolvem tudo na base da iniciativa pessoal e da espada. Os mosqueteiros, filhos perfeitos de uma ordem instável, envelhecem à medida que a França encontra outra forma de poder.
É tentador dizer que Dumas escreveu a trilogia para demonstrar a derrota do indivíduo diante da história, mas isso deixaria o sujeito mais sisudo do que era. Ele escreveu antes de tudo para contar uma boa história, manter o leitor agarrado ao jornal, ganhar dinheiro e gastar — de preferência gastar mais do que ganhava. Sua grandeza está em conseguir que objetivos tão pouco solenes produzam, pelo caminho, algo que ultrapassa de longe o simples entretenimento. Dumas não precisa interromper a cavalgada para anunciar que falará sobre o tempo, a perda e o envelhecimento. Ele deixa os cavalos correrem. Quando olhamos outra vez, os cavaleiros estão velhos.
Há escritores que constroem personagens para investigar a solidão. Dumas, sem ignorá-la, construiu quatro para investigar o que pode adiá-la. A amizade dos mosqueteiros não é pura, igualitária ou moralmente exemplar. Tem vaidade, hierarquia, violência, segredo e muito vinho. É também uma das relações mais convincentes da ficção porque não depende de declarações sentimentais intermináveis. Os homens se amam fazendo coisas juntos, salvando a pele uns dos outros, discutindo, afastando-se, voltando. Quando finalmente começam a dizer o que sentem, já é porque o tempo apertou o cerco.
A posteridade preferiu guardar os chapéus, as plumas e o lema. Fez bem, em parte; a literatura também vive de imagens simples que uma criança reconhece à distância. Mas o verdadeiro milagre da trilogia está em outro lugar. Dumas criou quatro homens tão vivos que pôde cometer contra eles a maior violência ao alcance de um romancista. Deixou que envelhecessem.

