Em “Tenet”, dirigido por Christopher Nolan, um agente da CIA conhecido apenas como O Protagonista (John David Washington) atravessa Kiev, Mumbai, Oslo, o litoral italiano e Tallinn para impedir uma ameaça criada no futuro. Ao lado de Neil (Robert Pattinson), ele precisa descobrir por que o oligarca russo Andrei Sator (Kenneth Branagh) recebe armas e informações de outra época. A investigação ganha urgência quando o poder de inverter o tempo coloca toda a humanidade em risco.
A história começa durante um ataque à Ópera de Kiev. O Protagonista participa de uma operação para retirar um homem do prédio, enquanto terroristas cercam a plateia e bombas ameaçam centenas de pessoas. A missão fracassa parcialmente, e o agente acaba capturado. Mesmo sob tortura, ele se recusa a entregar os companheiros. Essa lealdade chama a atenção de uma organização secreta, que o recruta para um trabalho muito mais perigoso.
O novo grupo oferece poucas informações. O agente recebe a palavra “Tenet” e conhece Laura (Clémence Poésy), cientista responsável por estudar objetos que se comportam de maneira estranha. Ela apresenta balas que retornam ao revólver em vez de saírem dele. Aqueles projéteis tiveram a entropia invertida e, vistos por alguém que vive normalmente, parecem andar para trás.
A ideia parece complicada, mas sua aplicação é simples. Objetos e pessoas invertidos percorrem os acontecimentos no sentido contrário. Uma bala pode voltar à arma, um carro pode cruzar uma estrada em marcha temporal oposta e uma pessoa invertida precisa usar máscara de oxigênio. O Protagonista não recebe tempo para dominar a teoria. Seu trabalho consiste em descobrir quem enviou aquelas armas e qual será o próximo passo.
Uma porta se abre em Mumbai
A composição do metal leva a investigação até Mumbai. O Protagonista procura Neil, um agente britânico elegante, observador e estranhamente familiarizado com seus hábitos. Robert Pattinson oferece ao personagem uma leveza bem-vinda. Neil parece estar sempre alguns minutos à frente do parceiro, embora prefira guardar parte do que sabe.
Os dois precisam alcançar o apartamento de Sanjay Singh (Denzil Smith), empresário ligado ao comércio de armas. Como o imóvel fica no alto de um prédio protegido, eles usam cordas elásticas para subir pela fachada. É uma solução engenhosa, arriscada e um tanto engraçada. Quando dois espiões escolhem escalar um arranha-céu, pode-se concluir que tocar a campainha deixou de ser uma opção razoável.
No apartamento, eles conhecem Priya Singh (Dimple Kapadia), figura influente que fornece informações sobre os materiais invertidos. Priya aponta Andrei Sator como o homem capaz de receber objetos do futuro. O russo acumulou riqueza após trabalhar numa antiga cidade soviética usada em atividades nucleares. Desde então, construiu uma rede internacional, comprou acesso a autoridades e passou a esconder suas operações atrás de empresas legítimas.
Chegar a Sator, porém, exige uma apresentação confiável. Em Londres, Sir Michael Crosby (Michael Caine) informa ao Protagonista que a melhor passagem é Kat (Elizabeth Debicki), esposa do oligarca e especialista em arte. Kat vive presa a um casamento violento. Sator controla seu dinheiro, seus movimentos e a convivência dela com o filho.
Kat vive sob a ameaça de Sator
A fonte da chantagem é um desenho atribuído ao pintor espanhol Francisco Goya. Kat avaliou a obra como verdadeira e permitiu que Sator a comprasse, embora depois tenha descoberto que era falsa. O marido guarda o desenho num depósito de alta segurança em Oslo e usa a fraude para ameaçá-la com prisão. Caso Kat tente deixá-lo, poderá perder a liberdade e o filho.
O Protagonista promete destruir a obra em troca de uma aproximação com Sator. A decisão também cria uma ligação pessoal entre ele e Kat. Nolan tenta oferecer ao herói uma razão humana para continuar, além da obrigação de salvar o planeta. Elizabeth Debicki dá firmeza à personagem, sobretudo quando Kat transforma o medo acumulado em raiva. O problema está na relação pouco desenvolvida entre ela e o agente, que nasce depressa demais para carregar toda a emoção pretendida.
Neil e O Protagonista descobrem que o desenho está guardado num freeport, depósito usado por milionários para manter obras de arte longe das autoridades fiscais. Para entrar no local, eles contam com Mahir (Himesh Patel) e planejam lançar um avião de carga contra o terminal. A colisão acionará os protocolos de incêndio, liberando algumas portas e fechando outras. A discrição deixa o plano bem antes de um Boeing atingir o prédio.
O cofre revela outra ameaça
Dentro do depósito, O Protagonista e Neil procuram o desenho, mas descobrem uma sala com uma catraca temporal. O equipamento permite inverter pessoas e objetos. Antes que possam examinar tudo, dois homens mascarados saem do aparelho em sentidos opostos. Um deles luta contra O Protagonista enquanto seus movimentos parecem ocorrer de trás para frente.
A sequência resume as qualidades de “Tenet”. Nolan transforma uma ideia científica em perigo físico e obriga o público a observar cada movimento. A luta impressiona porque os corpos seguem ordens temporais diferentes, mas a compreensão nem sempre acompanha a ação. Em vários trechos, o espectador precisa organizar regras, diálogos e perseguições enquanto a história já avançou para outra missão.
O plano em Oslo aproxima O Protagonista de Sator, mas não liberta Kat. No litoral italiano, o agente oferece ao russo a possibilidade de roubar plutônio transportado num veículo blindado. Ele espera conquistar sua confiança e descobrir a dimensão do contato com o futuro. Sator aceita avaliar a proposta, mantém o visitante sob vigilância e usa Kat como garantia.
Kenneth Branagh interpreta o oligarca com voz carregada, presença ameaçadora e certa satisfação em ocupar o centro da sala. Sator não deseja apenas riqueza. Ele recebe ouro e instruções por meio de recipientes enterrados, enviados por pessoas que ainda não nasceram. Essas pessoas acreditam que a inversão poderá corrigir os danos sofridos pelo planeta, mesmo que o passado seja destruído durante a tentativa.
Uma perseguição fora da ordem
A busca pelo plutônio leva a equipe até Tallinn. Neil e O Protagonista preparam o roubo do veículo blindado, enquanto Sator acompanha tudo a distância. A operação reúne carros comuns, veículos invertidos e personagens que atravessam o mesmo trecho em ordens diferentes. Kat acaba colocada em perigo, obrigando o agente a dividir a atenção entre a carga e a sobrevivência dela.
John David Washington sustenta bem as cenas de ação e dá ao Protagonista uma segurança compatível com um espião experiente. O personagem, porém, tem pouco espaço para revelar quem era antes da missão. Robert Pattinson cria uma parceria mais calorosa e descontraída, enquanto Elizabeth Debicki oferece a presença emocional que falta ao herói. Entre os quatro, Kat é quem possui a necessidade mais concreta. Ela quer sair do casamento, recuperar o filho e permanecer viva.
Nolan mantém a grandiosidade das perseguições, dos combates e das operações internacionais, mas cobra atenção excessiva em certos trechos. Alguns diálogos ficam encobertos pela música e pelos ruídos, embora carreguem informações necessárias para acompanhar a história. O público pode sair de uma cena admirado com o que viu e ainda assim sem saber exatamente quem possuía determinado objeto.
Mesmo com essas dificuldades, “Tenet” preserva uma energia rara. A espionagem oferece elegância, a ficção científica modifica as regras e o suspense nasce da falta de tempo, inclusive quando parte dos personagens caminha no sentido contrário. Nolan pede concentração, mas recompensa o esforço com uma aventura ousada, estranha e divertida. Quando O Protagonista acelera atrás de Sator, compreender toda a física deixa de ser prioridade. O importante passa a ser alcançar Kat antes que o tempo feche a passagem.

