Viver é um desafio curioso. Ainda que haja mil situações que mais parecem testes a nossa resistência, a vida se nos mostra na exata proporção em que cada um é capaz de suportá-la, mas dispensa certezas, desfaz dos planos mais ordinários com que nos atrevemos a sonhar e atropela com violência tudo quanto podemos julgar precioso, impondo-nos a face soberana que paira acima de tudo quanto há, de luz e de sombra, de salvífico e de nefasto. Na Austrália dos anos 1950, uma garota resolve enfrentar o conservadorismo e o ranço do pós-guerra, recusando-se a aceitar que seu futuro esteja congelado em alguma estrela. “Damas de Preto” tem toda aquela a atmosfera de romance açucarado, irrelevante, mas aos poucos vai esgrimindo temas sérios como autonomia financeira, misoginia e evolução intelectual de mulheres além de seu tempo, inconformadas com o lugar que os homens reservaram para elas, no lar e na sociedade.
Mulheres decididas
Bruce Beresford narra essa transformação numa mescla de humor, romance e crítica social. Beresford e a corroteirista Sue Milliken vertem o romance homônimo da australiana Madeleine St. John (1941-2006), de 1993, mantendo a aura sutilmente anárquica das personagens centrais, dois espíritos libertários de épocas distintas que esbarram na Goode’s, uma loja de departamento com vendedoras penteadas com esmero, piano de cauda e vitrines coloridas do chão ao teto. Leslie — que considera seu nome feio e prefere ser Lisa — vai trabalhar lá como faz-tudo, usando as férias para juntar um dinheirinho. Passando de um corredor a outro carregada de vestidos, ajudando clientes menos esbeltas a fechar o zíper e provocando o estranhamento das colegas por ler Tolstói e querer ser poetisa, Lisa faz do limão uma limonada ao observar as exóticas figuras daquele novo ambiente, certa de que será, afinal, selecionada num programa de bolsas de estudo e ingressar na universidade. O diretor guarda boa parte do filme na atenta construção da protagonista, e Angourie Rice responde à altura, no delicado equilíbrio que sugere uma Lisa forte por baixo daquela sílfide. Embora tenha alimentado ideais semelhantes que perderam-se por uma ou outra razão, Magda, a húngara que chefia a seção de luxo, surge-lhe como uma fada madrinha, e a atuação de Julia Ormond coroa essa imagem.

