Lançada em 1963 e ambientada principalmente em Sweet Apple, Ohio, a comédia musical “Adeus, Amor”, dirigida por George Sidney, acompanha Albert Peterson (Dick Van Dyke), compositor que tenta salvar o próprio negócio após a convocação de Conrad Birdie (Jesse Pearson) pelo Exército. Para ganhar dinheiro e finalmente se casar com Rosie DeLeon (Janet Leigh), Albert aposta numa apresentação televisiva em que o astro beijará uma estudante diante de milhões de espectadores.
A escolhida é Kim McAfee (Ann-Margret), uma adolescente de 16 anos que mora em Sweet Apple com os pais, Harry McAfee (Paul Lynde) e Doris McAfee (Mary LaRoche), além do irmão mais novo, Randolph (Bryan Russell). O evento será exibido no programa de Ed Sullivan, interpretado pelo próprio apresentador, e promete transformar a despedida de Conrad em uma operação publicitária. O problema é que ninguém calculou o estrago provocado pela chegada de um ídolo juvenil a uma cidade pacata.
Um astro convocado para o Exército
Conrad Birdie é o cantor mais popular entre as adolescentes norte-americanas. Quando recebe a convocação militar, milhares de fãs entram em desespero. Para Albert, a notícia significa algo ainda mais preocupante. Sem o artista, sua pequena empresa perde a principal fonte de renda, enquanto o casamento com Rosie continua adiado.
Rosie trabalha ao lado do namorado há anos e já perdeu a paciência com promessas. Ela deseja que Albert abandone a música, invista em sua formação como químico e marque uma data para a cerimônia. Albert também sonha com essa mudança, mas permanece preso aos negócios e, principalmente, à influência da mãe.
A saída criada por Rosie parece eficiente. Conrad apresentará uma canção composta por Albert no programa de Ed Sullivan e dará um beijo de despedida em uma fã sorteada. A publicidade pode transformar a música em sucesso, garantir algum dinheiro ao compositor e libertar o casal daquela espera interminável. Albert aceita a proposta porque precisa preservar o trabalho e provar que ainda pode lucrar antes da partida do cantor.
Sweet Apple recebe Conrad Birdie
Kim McAfee recebe a notícia do concurso num momento em que se considera adulta. A adolescente namora Hugo Peabody (Bobby Rydell), usa roupas mais sofisticadas e acredita ter deixado para trás certas inseguranças da infância. Ser beijada por Conrad diante das câmeras parece confirmar essa nova fase, embora o namorado não compartilhe do entusiasmo.
Hugo sente ciúme e percebe que terá de competir com alguém venerado por garotas de todo o país. Kim garante que o beijo pertence apenas ao espetáculo, mas a presença do cantor muda a temperatura da cidade. Seus colegas espalham a novidade pelo telefone, as autoridades preparam uma recepção e a família McAfee descobre que a tranquilidade doméstica está prestes a desaparecer.
Conrad chega acompanhado por admiradores, músicos e profissionais ligados à transmissão. O cantor quase nunca precisa fazer esforço para dominar o ambiente. Basta cantar, movimentar os quadris e distribuir seu ar de rebeldia domesticada. As adolescentes gritam, os rapazes demonstram irritação e até mulheres adultas desmaiam. A graça está na contradição entre os pais, que condenam o comportamento juvenil, e a facilidade com que também se deixam seduzir pela fama.
Harry McAfee inicialmente rejeita a ideia de hospedar Conrad. Ele teme perder o controle da casa e não gosta da possibilidade de ver a filha beijando o cantor. Albert, porém, oferece à família participação no programa de Ed Sullivan. Harry passa a olhar a transmissão com outros olhos. Sua indignação continua presente, mas agora divide espaço com o desejo de aparecer na televisão nacional.
A mãe que não aceita Rosie
Albert ainda precisa enfrentar Mae Peterson (Maureen Stapleton), uma mãe dominadora que trata o casamento do filho como ameaça pessoal. Ela aparece em Sweet Apple disposta a afastá-lo de Rosie, usando culpa, reclamações e uma capacidade impressionante de interromper qualquer conversa produtiva.
Mae deseja conservar o filho por perto e considera Rosie inadequada para ele. Albert sabe que precisa defender a namorada, mas sua coragem costuma desaparecer quando a mãe entra em cena. Dick Van Dyke aproveita essa fragilidade com boa presença física. O personagem promete tomar uma decisão, perde a firmeza e termina espremido entre duas mulheres muito mais determinadas.
Rosie, por sua vez, está longe de ser apenas a namorada à espera do casamento. Foi ela quem criou a campanha para salvar a empresa e conseguiu ligar Conrad ao programa de Ed Sullivan. Janet Leigh dá à personagem inteligência, cansaço e uma irritação bastante compreensível. Rosie ama Albert, mas começa a perceber que administrar a carreira dele talvez seja mais simples do que afastá-lo da influência materna.
A televisão invade a vida privada
O beijo entre Conrad e Kim sustenta boa parte da história porque reúne interesses diferentes numa única apresentação. Albert precisa divulgar a canção. Rosie quer encerrar os adiamentos. Kim deseja aproveitar seu breve acesso à fama. Hugo tenta proteger o namoro. Harry busca reconhecimento público. Mae trabalha para impedir que o filho se case.
George Sidney transforma essa disputa numa comédia musical colorida, movimentada e interessada no poder da televisão. O programa de Ed Sullivan deixa de ser apenas cenário e passa a determinar o comportamento dos personagens. Todos precisam caber dentro do horário da transmissão, obedecer às exigências da produção e manter a aparência de normalidade enquanto Sweet Apple vira uma bagunça.
Os números musicais ajudam a contar a história. Os telefonemas dos estudantes espalham a escolha de Kim, as canções de Conrad revelam o fascínio exercido sobre as fãs e os momentos de Rosie expõem sua insatisfação com Albert. Nem todas as passagens mantêm o mesmo vigor, e algumas confusões prolongam uma piada que já entregou sua graça. Ainda assim, o elenco sustenta o ritmo com carisma.
Uma sátira ainda reconhecível
“Adeus, Amor” nasceu numa época em que televisão e rock transformavam cantores em fenômenos nacionais. Décadas depois, a ideia permanece familiar. A tecnologia mudou, mas o desejo de acompanhar celebridades, comentar romances e transformar intimidade em entretenimento continua bastante vivo.
Ann-Margret ocupa o centro das atenções com uma presença vibrante, mesmo quando Kim age de maneira impulsiva. Janet Leigh oferece equilíbrio ao representar a mulher que trabalha enquanto os homens se distraem com a própria vaidade. Dick Van Dyke faz de Albert um sujeito simpático, embora sua indecisão canse Rosie e coloque o futuro profissional dos dois em risco.
George Sidney prefere a energia do espetáculo a uma crítica mais severa à indústria musical. Essa escolha torna “Adeus, Amor” leve, por vezes ingênuo e bastante ligado ao período em que foi produzido. A comédia funciona melhor quando observa adultos perdendo a compostura diante da fama que eles próprios condenam. Enquanto Conrad se prepara para cantar e Kim aguarda o beijo televisionado, Albert tenta proteger sua última oportunidade de salvar a empresa e cumprir a promessa feita a Rosie.

