Ricos sempre viajam acompanhados de suas fortunas, seus criados, seus ressentimentos e alguma pessoa disposta a empurrá-los para fora do mundo. Agatha Christie conhecia bem esse ecossistema, composto de vestidos impecáveis, copos de champanhe, sorrisos treinados e ódios antigos. Em “Morte no Nilo”, Kenneth Branagh embarca Hercule Poirot num vapor luxuoso em companhia de uma pequena sociedade de suspeitos, todos ligados à herdeira Linnet Ridgeway, jovem que parece ter conquistado tudo e, por isso mesmo, desperta cobiça suficiente para não chegar viva ao fim da viagem. Dirigido por Branagh e escrito por Michael Green a partir do romance publicado por Christie em 1937, o filme reúne Gal Gadot, Armie Hammer, Emma Mackey, Annette Bening, Sophie Okonedo, Letitia Wright e Tom Bateman ao redor do detetive belga.
Antes do Egito, há uma guerra. Branagh volta à juventude de Poirot nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial para explicar a origem de seu bigode, iniciativa tão extravagante quanto desnecessária. O diretor parece desconfiar de que um homem possa conservar manias, vaidades e feridas sem que um prólogo solene forneça uma certidão psicológica para cada uma delas. Essa vontade de esclarecer o personagem continua durante o cruzeiro, no qual Poirot recorda um amor perdido e deixa de ser, por alguns minutos, o observador implacável para ganhar uma melancolia que Kenneth Branagh interpreta com convicção, ainda que o recurso pareça enxertado numa história cuja força está na observação dos outros.
Emma Mackey rompe a elegância
O verdadeiro motor da trama surge numa boate londrina. Jacqueline de Bellefort, encarnada por Emma Mackey com uma ferocidade que faz o restante do elenco parecer excessivamente bem-comportado, apresenta o noivo Simon Doyle à amiga Linnet. A milionária oferece ao rapaz um emprego, toma-lhe também o coração e pouco depois os dois estão casados, viajando pelo Egito enquanto Jacqueline os persegue de hotel em hotel. O triângulo amoroso carrega uma violência evidente. Mackey olha para o casal com uma mistura de humilhação e ameaça, Gadot sustenta Linnet sob uma camada de altivez defensiva, e Hammer faz de Simon um homem bonito demais para a própria inteligência.
Poirot encontra o grupo durante a viagem e aceita acompanhá-lo a bordo do Karnak. A embarcação reúne a madrinha dominadora Euphemia, interpretada por Annette Bening; o filho dela, Bouc, de Tom Bateman; a cantora de blues Salome Otterbourne, personagem que Sophie Okonedo reveste de uma sensualidade adulta; Rosalie, sobrinha e empresária da artista vivida por Letitia Wright; além de empregados, parentes e antigos desafetos de Linnet. Branagh demora a organizar essas figuras, perdendo um tempo precioso em jantares, danças, flertes e panorâmicas digitais de um Egito que parece construído dentro de uma vitrine.
A artificialidade visual prejudica especialmente um mistério que depende do confinamento. O Nilo, as pirâmides e as pedras de Abu Simbel surgem com uma limpeza sintética, sem calor, poeira ou risco, como se todos visitassem uma atração temática de luxo. A fotografia de Haris Zambarloukos é cuidadosa nos interiores, onde espelhos, portas e corredores criam bons esconderijos, e muito menos persuasiva quando Branagh abre o enquadramento para paisagens que deveriam esmagar aqueles turistas vaidosos. O resultado frequentemente se aproxima de um anúncio de perfume caríssimo, povoado por pessoas que logo começarão a morrer.
O detetive retoma o comando
O assassinato de Linnet finalmente dá ao filme a urgência prometida. Poirot interroga os passageiros, reconstrói trajetos, encontra contradições e descobre que quase todos teriam alguma vantagem com a morte da herdeira. Branagh recupera o controle quando restringe a ação às cabines e ao salão principal, deixando o detetive circular entre suspeitos que mentem com elegância variável. Bening entrega veneno sob a forma de comentários maternais, Okonedo domina cada aproximação com Poirot e Mackey continua a projetar uma ameaça capaz de sobreviver mesmo quando Jacqueline sai do centro da investigação.
O problema de “Morte no Nilo” reside menos na solução, engenhosa como Christie a concebeu, que no esforço de Branagh para converter um mecanismo policial em melodrama operístico. A paixão, o ciúme e a ganância já estão no desenho do crime; não precisavam de câmera lenta, paisagens digitais e explicações sentimentais sobre o bigode do investigador. Assim mesmo, quando Poirot reúne os sobreviventes e desmonta o ardil, o velho prazer de assistir à verdade desarrumar uma sala cheia de mentirosos torna a aparecer. O detetive chega à outra margem um pouco mais triste. O mistério chega encharcado de luxo, ainda reconhecível sob os excessos.

