Discover

“A Senha: Swordfish”, dirigido por Dominic Sena, acompanha Stanley Jobson (Hugh Jackman), um hacker condenado que vive afastado dos computadores e da própria filha. Ele volta ao crime quando Gabriel Shear (John Travolta), chefe de uma unidade clandestina, precisa invadir contas governamentais e retirar US$ 9,5 bilhões. Ginger Knowles (Halle Berry) faz a aproximação. Stanley aceita porque precisa pagar advogados e recuperar o direito de conviver com Holly, mas o serviço viola sua liberdade condicional e o coloca novamente sob a vigilância do FBI.

Stanley ganhou fama ao atacar o programa de vigilância Carnivore, usado pelo FBI, e acabou preso. Agora, a liberdade condicional o proíbe de acessar a internet ou tocar em qualquer computador. Ele mora sozinho num trailer e tenta manter algum contato com Holly (Camryn Grimes), filha que vive com Melissa (Drea de Matteo), sua ex-mulher. Uma ordem judicial impede a convivência entre os dois. Essa fragilidade familiar dá a Gabriel uma vantagem valiosa, pois Stanley pode resistir ao dinheiro, mas dificilmente ignora uma oportunidade de recuperar a menina.

Ginger aparece no trailer com uma proposta sedutora. Stanley receberá US$ 100 mil apenas para conhecer o chefe dela. O hacker desconfia, rejeita a oferta e lembra que pode voltar à prisão, porém a quantia ajudaria na disputa pela guarda de Holly. Ele aceita a viagem até Los Angeles sem saber qual trabalho Gabriel deseja encomendar. Ginger controla o pagamento, o destino e quase todas as informações. Halle Berry imprime segurança à personagem, embora o roteiro esteja muitas vezes mais interessado em exibir seu corpo do que em desenvolver suas escolhas.

Sessenta segundos diante do teclado

O encontro ocorre num clube, cercado por música alta, seguranças e mulheres bonitas. Gabriel coloca um laptop diante de Stanley e exige que ele invada um servidor do Departamento de Defesa em sessenta segundos. Um homem armado aponta a pistola para sua cabeça, enquanto outra pessoa tenta distraí-lo. A cena é absurda, mas assume o absurdo sem cerimônia. Stanley parece disputar uma prova olímpica de teclado, com a pequena diferença de que o fracasso pode custar sua vida. Ele vence a contagem e confirma a Gabriel que possui o conhecimento necessário.

Os computadores não envelheceram com muita elegância. Telas coloridas, comandos velozes e janelas abertas em sequência pertencem à imaginação tecnológica do início dos anos 2000. Ainda assim, Dominic Sena concentra a atenção no relógio, na arma e no rosto assustado de Stanley. O código perde importância diante da ameaça física. Hugh Jackman ajuda bastante porque não interpreta o hacker como um gênio satisfeito com a própria inteligência. Stanley trabalha sob medo, raiva e vergonha, sentimentos que tornam a cena mais convincente do que os programas exibidos na tela.

A fortuna esquecida pelo governo

Depois da prova, Gabriel apresenta o verdadeiro serviço. Em 1986, a DEA encerrou uma operação chamada Swordfish e deixou US$ 400 milhões escondidos em contas governamentais. Quinze anos de juros transformaram a quantia em US$ 9,5 bilhões. Gabriel oferece US$ 10 milhões para Stanley criar o Hydra, programa capaz de retirar o dinheiro e distribuí-lo por várias contas. A fortuna financiaria a Black Cell, grupo clandestino que responde a ataques terroristas com ações de vingança. Gabriel chama isso de patriotismo. Stanley percebe que a palavra vem acompanhada por homens armados e nenhuma autorização pública.

O agente J.T. Roberts (Don Cheadle), que havia prendido Stanley no passado, acompanha o retorno do hacker às atividades. Roberts também procura informações sobre Gabriel, mas o nome do suspeito não aparece nos registros oficiais. Esse vazio dificulta a investigação e deixa Stanley entre duas forças. Caso conclua o programa, participa de um roubo bilionário. Caso abandone o trabalho, perde o dinheiro dos advogados e fica exposto à violência de Gabriel. Caso procure o FBI, pode colocar Holly em perigo. O roteiro acumula essas pressões até tirar do protagonista quase todas as saídas seguras.

Um assalto anunciado na abertura

A primeira cena já havia revelado parte do caos que viria depois. Sentado numa cafeteria, Gabriel conversa sobre cinema diante de policiais armados, enquanto reféns permanecem presos num banco do outro lado da rua. Bombas foram colocadas nos corpos das vítimas, e qualquer movimento da polícia pode provocar uma tragédia. Dominic Sena mostra esse cerco antes de voltar quatro dias no tempo e apresentar Stanley. Quando a história retorna ao banco, o espectador já sabe por que o hacker está ali, quem controla o dinheiro e por qual motivo Holly se tornou sua maior preocupação.

A abertura também define o gosto de Sena por câmera lenta, movimentos circulares e destruição em grande escala. O diretor usa esses recursos para estender alguns segundos e acompanhar o que acontece ao redor dos reféns. Há ostentação, barulho e certa paixão por efeitos que carregam o cheiro de 2001. A ação, contudo, permanece ligada ao dilema de Stanley. Cada ordem de Gabriel exige uma escolha, e cada escolha pode custar a liberdade do hacker ou a segurança de Holly. O suspense nasce menos da informática do que da falta de uma saída confiável.

Travolta domina o jogo

John Travolta interpreta Gabriel com cabelo descolorido, ternos impecáveis e uma serenidade provocadora. O personagem fala sobre terrorismo, bilhões e mortes com a calma de quem escolhe a sobremesa. A atuação beira o excesso em alguns trechos, mas combina com um criminoso que transforma cada encontro numa apresentação pessoal. Hugh Jackman prefere uma composição contida e dá humanidade ao pai acuado. Don Cheadle oferece sobriedade ao agente Roberts, enquanto Halle Berry faz Ginger administrar acessos e segredos, apesar do espaço limitado que o roteiro reserva à personagem.

“A Senha: Swordfish” mistura ação, crime e suspense com a confiança barulhenta de uma produção que acredita poder transformar programação em espetáculo. Nem todas as peças possuem lógica, e algumas tecnologias hoje parecem saídas de um fliperama antigo. O enredo se sustenta porque Stanley deseja algo simples e doloroso. Ele quer voltar a ser pai de Holly. Gabriel usa esse desejo para mantê-lo diante do teclado, enquanto o FBI fecha o cerco e os reféns aguardam dentro do banco. Stanley continua digitando porque parar pode levá-lo de volta à prisão e colocar sua filha sob ameaça.


Filme: A Senha: Swordfish
Diretor: Dominic Sena
Ano: 2001
Gênero: Ação/Crime/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Leia Também