Discover

Em fevereiro de 1969, em Los Angeles, o astro de televisão Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) tenta salvar a carreira enquanto Hollywood abandona os antigos faroestes e busca novos rostos. Ao lado dele está Cliff Booth (Brad Pitt), dublê, motorista e amigo que também perdeu espaço nos estúdios. Nas mesmas colinas vive Sharon Tate (Margot Robbie), atriz em ascensão casada com o cineasta Roman Polanski (Rafał Zawierucha). Dirigido por Quentin Tarantino, “Era Uma Vez em… Hollywood” aproxima essas três vidas porque a cidade muda depressa, a fama oferece pouca estabilidade e uma ameaça histórica começa a circular pelas ruas.

Tarantino acompanha dois homens fictícios e uma mulher real sem transformar nenhum deles em simples peça de época. Rick teme ficar conhecido apenas como o vilão derrotado pelo galã da semana. Cliff aceita trabalhos esporádicos porque sua reputação fechou portas. Sharon procura firmar seu nome enquanto desfruta uma fase feliz da vida pessoal. A Família Manson permanece nas bordas dessa rotina, conhecida pelo público e ignorada pelos protagonistas, o que dá peso até a um passeio de carro.

Um astro fora de época

Rick alcançou popularidade com “Bounty Law”, série de faroeste que o colocou no papel de caçador de recompensas. Os anos passaram, o programa terminou e os convites ficaram menos generosos. Agora, ele participa de episódios alheios para apanhar do protagonista e sair de cena. Durante uma conversa, o agente Marvin Schwarz (Al Pacino) explica que essa repetição enfraquece sua imagem e sugere uma temporada de filmes na Itália. Rick recebe a proposta quase como uma sentença, pois ainda acredita merecer espaço entre as grandes produções americanas.

A insegurança do ator sustenta boa parte da comédia. Rick bebe além da conta, chora diante do amigo, ensaia confiança e depois desaba quando percebe que esqueceu uma fala. Leonardo DiCaprio abraça o ridículo do personagem sem transformá-lo numa caricatura vazia. Seu Rick é vaidoso, frágil e profissional o bastante para saber quando trabalhou mal. A graça vem dessa distância entre a imagem de homem durão vendida pela televisão e o sujeito ansioso que sofre dentro do trailer.

Cliff ocupa uma situação ainda mais delicada. Ele dirige para Rick, cuida de pequenos reparos na casa e espera que o amigo consiga alguma diária para ele. Rumores sobre a morte de sua esposa e uma briga com Bruce Lee (Mike Moh) deixaram seu nome malvisto entre coordenadores de dublês. Brad Pitt interpreta o personagem com serenidade, mas a calma nunca parece ingenuidade. Cliff observa o ambiente, calcula o perigo e guarda energia para quando a conversa deixa de ser amistosa.

O set cobra seu preço

A chance de Rick provar que ainda sabe atuar surge no piloto do faroeste “Lancer”. Escalado como o criminoso Caleb DeCoteau, ele precisa convencer uma equipe que não tem qualquer compromisso com sua antiga fama. A jovem Trudi Fraser (Julia Butters), atriz mirim dedicada e madura, estuda o roteiro enquanto Rick tenta controlar a ressaca e o medo de fracassar. A menina trata a atuação com uma seriedade quase adulta, o que deixa o veterano ainda mais consciente de suas falhas.

As cenas de bastidores tornam o trabalho de ator concreto. Rick precisa decorar falas, acertar marcas, lidar com figurino desconfortável e repetir tomadas depois de um erro. Tarantino interrompe o faroeste fictício para revelar o nervosismo de quem está por trás do personagem. DiCaprio passa da afetação ao desespero com grande precisão e oferece um retrato divertido de um profissional que ainda possui talento, embora já não confie inteiramente nele.

Uma carona muda o clima

Enquanto Rick trabalha, Cliff percorre Los Angeles e aceita dar carona a Pussycat (Margaret Qualley), jovem que vive com um grupo de hippies no Spahn Ranch. O lugar já abrigou filmagens de faroestes e pertence a George Spahn (Bruce Dern), conhecido do dublê. Ao chegar, Cliff nota que os moradores controlam a entrada da casa e dificultam seu contato com o proprietário. Ele decide verificar se George está bem, mesmo cercado por pessoas que desejam vê-lo longe dali.

A passagem pelo rancho muda o tom da história sem abandonar a personalidade descontraída de Cliff. Portas fechadas, respostas vagas e olhares hostis tornam o velho cenário de cinema um espaço inquietante. A escolha também aproxima a ficção da Família Manson sem transformar Charles Manson (Damon Herriman) no centro do enredo. Tarantino trabalha com o conhecimento do público, que reconhece o perigo antes de Rick, Cliff e Sharon perceberem o que circula ao redor deles.

Sharon ocupa a própria história

Sharon vive uma experiência bem diferente. Ao encontrar um cinema exibindo “Arma Secreta Contra Matt Helm”, filme do qual participou, ela se apresenta à bilheteira e pede para entrar. Depois, senta-se entre espectadores comuns e observa as reações às suas cenas. Margot Robbie fala pouco, mas registra a alegria da personagem em cada sorriso. Sharon não surge apenas como vítima anunciada por um episódio histórico. Ela trabalha, dança, visita amigos e sente orgulho ao escutar uma plateia rir com sua atuação.

Tarantino mantém Robbie na poltrona enquanto a verdadeira Sharon Tate ocupa a tela do cinema. O gesto preserva a atriz real e permite que a personagem desfrute o reconhecimento recebido naquela sessão. É uma das passagens mais sensíveis do longa porque oferece tempo a uma mulher que muitas versões da história resumiram ao crime cometido contra ela. A sessão termina, as luzes acendem e Sharon deixa o cinema sabendo que pessoas desconhecidas responderam ao seu trabalho.

A cidade reúne três caminhos

Rick, Cliff e Sharon circulam pelos mesmos bairros sem formar um grupo. O ator luta por contratos, o dublê procura alguma renda e a jovem atriz aproveita uma carreira que começa a crescer. Tarantino alterna estúdios, carros, casas e cinemas para aproximar essas rotinas. Músicas do rádio, anúncios e programas de televisão situam 1969 sem transformar Los Angeles num museu. A cidade permanece viva, cheia de festas, empregos precários e gente tentando permanecer relevante.

O longa se estende mais do que algumas situações exigem e demora a abandonar certos passeios. Ainda assim, esse tempo permite conhecer Rick e Cliff além da função que cumprem na trama. A amizade entre eles tem afeto, dependência financeira e uma lealdade que dispensa declarações solenes. Sharon oferece leveza ao conjunto, enquanto a presença da Família Manson mantém uma inquietação constante. “Era Uma Vez em… Hollywood” permanece envolvente porque acompanha essas pessoas nos detalhes do trabalho e da amizade. Rick retorna ao set, Cliff assume o volante e Sharon ocupa seu lugar diante da tela, enquanto Los Angeles segue cheia de oportunidades para uns e portas fechadas para outros.


Filme: Era uma Vez em... Hollywood
Diretor: Quentin Tarantino
Ano: 2011
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Leia Também