Na Londres do início do século 21, Margaret Thatcher (Meryl Streep), já idosa, convive com lembranças do poder e com a presença do falecido marido, Denis Thatcher (Jim Broadbent). Lançado em 2011 e dirigido por Phyllida Lloyd, “A Dama de Ferro” retorna à juventude e aos anos de governo da primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Reino Unido. O drama procura revelar quanto essa ascensão custou à política, à esposa e à mãe.
Margaret vive cercada por funcionários e pela atenção constante da filha, Carol Thatcher (Olivia Colman). Todos temem que ela se machuque ou fique desorientada, mas a antiga governante resiste à perda de autonomia. Depois de comandar ministros, enfrentar crises nacionais e decidir os rumos do país, agora precisa aceitar que outras pessoas controlem seus compromissos, refeições e saídas.
Denis, morto havia alguns anos, continua presente nas conversas da esposa. Ele comenta acontecimentos, faz brincadeiras e acompanha Margaret pela casa. Para ela, sua companhia parece tão concreta quanto qualquer visita. Phyllida Lloyd não transforma essas aparições em mistério sobrenatural. Denis representa a dificuldade daquela mulher em abandonar um vínculo que sustentou sua vida familiar durante décadas.
A tarefa de separar as roupas do marido para doação à Oxfam desencadeia uma sucessão de lembranças. Uma camisa, um terno ou uma conversa imaginada devolvem Margaret aos anos em que ainda disputava espaço dentro do Partido Conservador. O passado invade a casa, interrompe o presente e deixa Carol sem saber até onde pode intervir na rotina da mãe.
Da mercearia ao Parlamento
Quando jovem, Margaret Roberts (Alexandra Roach) trabalha na mercearia da família em Grantham. O pai, Alfred Roberts (Iain Glen), participa da política local e incentiva a filha a estudar, trabalhar e defender suas opiniões. Enquanto outras jovens pensam em casamento, Margaret acompanha discursos, observa debates e decide que também deseja participar da vida pública.
Sua origem modesta pesa nas primeiras reuniões conservadoras. Os dirigentes pertencem a famílias ricas, estudaram nas melhores escolas e tratam aquela filha de comerciante com uma mistura de desconfiança e condescendência. O fato de ser mulher torna a entrada ainda mais difícil. Margaret precisa falar mais alto, preparar-se melhor e suportar comentários sobre sua roupa, sua voz e seu comportamento.
Denis jovem (Harry Lloyd) surge durante essa fase e se interessa pela ambição da candidata. Quando pede Margaret em casamento, ela deixa evidente que não pretende passar a vida cuidando apenas da casa. A cena revela uma mulher consciente do destino que deseja construir e um homem disposto a conviver com essa escolha. O romance possui certa leveza, sobretudo porque Denis percebe que até um pedido de casamento pode ganhar a seriedade de uma reunião partidária.
A parceria oferece apoio doméstico e emocional, mas não elimina as barreiras do Parlamento. Margaret entra em ambientes ocupados quase inteiramente por homens, onde uma voz feminina precisa vencer risadas e interrupções antes de apresentar qualquer proposta. A hostilidade oferece ao drama seus trechos mais vivos, pois coloca a personagem diante de pessoas que rejeitam sua presença antes mesmo de avaliar suas ideias.
A construção de uma líder
Margaret aceita mudar o tom de voz, o penteado e as roupas para conquistar maior autoridade diante dos colegas. Essas orientações revelam uma exigência desigual. Os homens podem envelhecer, engordar ou falar mal sem perder prestígio. Ela precisa cuidar de cada detalhe para não oferecer aos adversários uma desculpa capaz de afastá-la das decisões partidárias.
Airey Neave (Nicholas Farrell) reconhece sua força política e apoia sua candidatura à liderança do Partido Conservador. Margaret reúne aliados, enfrenta figuras mais experientes e avança até ocupar o centro das reuniões. A antiga jovem ignorada pelos dirigentes passa a comandar homens que antes decidiam se ela merecia permanecer na sala.
A chegada ao governo coloca Margaret diante de desemprego, greves, atentados e protestos nas ruas. A Guerra das Malvinas também ocupa espaço importante, com a primeira-ministra pressionada a decidir a reação britânica diante do conflito no Atlântico Sul. Lloyd combina reuniões ministeriais, transmissões televisivas e imagens públicas para atravessar vários anos sem transformar o drama numa aula de história.
Essa escolha mantém o ritmo, porém limita a discussão sobre as políticas adotadas por Thatcher. Desempregados, sindicalistas e famílias afetadas pelas medidas econômicas aparecem por pouco tempo. A primeira-ministra recebe maior atenção do que aqueles que pagaram pelas decisões de seu gabinete. O retrato fica mais íntimo, embora também pareça indulgente em alguns trechos.
O poder cobra disciplina
Geoffrey Howe (Anthony Head) e Michael Heseltine (Richard E. Grant) ganham importância quando o apoio dentro do Partido Conservador deixa de ser garantido. Margaret cobra lealdade, interrompe ministros e reage mal às discordâncias. A firmeza que permitiu sua ascensão passa a dificultar a convivência com aliados, sobretudo quando eles deixam de aceitar suas decisões em silêncio.
Meryl Streep trabalha essa transformação com enorme precisão. Sua Margaret controla a postura diante dos ministros, endurece a voz durante as crises e guarda o cansaço para os espaços privados. Na velhice, o corpo perde parte dessa rigidez. Os passos ficam menores, a fala hesita e os olhos procuram alguém que talvez exista apenas na memória.
Jim Broadbent oferece a Denis uma presença afetuosa e espirituosa. Ele conhece as manias da esposa, provoca sua impaciência e quebra a solenidade que costuma cercar figuras históricas. A relação entre os dois fornece calor ao drama sem apagar os conflitos do casamento. Denis apoiou a carreira da mulher, mas também viveu à sombra de uma autoridade conhecida em todo o mundo.
Entre a governante e a mulher
Phyllida Lloyd aproxima a residência oficial da cozinha doméstica. Em um espaço, Margaret decide questões nacionais. No outro, precisa lidar com marido, filhos e pequenas obrigações que sempre considerou insuficientes para suas ambições. Essa passagem entre épocas permite observar a distância entre a jovem decidida a entrar no Parlamento e a idosa impedida de sair sozinha.
“A Dama de Ferro” enfraquece nos momentos em que suaviza as consequências políticas do governo Thatcher. A atenção dedicada à solidão e ao envelhecimento desperta compaixão, mas deixa parte do país fora de quadro. As greves, os protestos e as divisões sociais recebem menos espaço do que a intimidade da antiga primeira-ministra.
Ainda assim, Streep impede que Margaret se transforme numa estátua respeitável ou numa caricatura autoritária. A atriz preserva sua inteligência, vaidade, dureza, afeto e irritação. Essa combinação torna a personagem incômoda e humana. Dentro da casa, Margaret continua dobrando as roupas de Denis, enquanto decide sozinha quais lembranças ainda pode guardar.

