A luta pela sobrevivência fica especialmente difícil à medida que percebemos o quão melancólico pode ser estar num mundo que sucumbe a nossa indiferença, o que termina por acarretar uma situação bastante curiosa. Parecemos não nos importar com a evidência de que somos apenas a peça mais dispensável de um titânico mecanismo, que continuará sem nós, ainda que a empáfia não nos deixe admitir. Na Los Angeles apocalíptica imaginada por Kathryn Bigelow, conflitos raciais, corrupção das autoridades e um desalento invencível são assuntos do agora em “Estranhos Prazeres”, não do amanhã distante que se materializa diante de nossos olhos numa estética cyberpunk, soturna, valorizada pela edição ágil de Howard E. Smith, tudo isso para dizer que o caos nos espreita.
Vende-se futuro
Lenny Nero é um ex-policial que hoje ganha a vida oferecendo gravações de homicídios reais. Ele tinha uma namorada, Faith, mas ela o deixou por um certo Philo Gant, milionário e perigoso, e aos poucos os roteiristas James Cameron, ex-marido de Bigelow, e Jay Cocks explicam a razão de tamanha balbúrdia. A morte de Jeriko One, um rapper e ativista político, leva a uma comoção social que logo descamba para a selvageria, paraíso para Lenny e seus negócios. A diretora recorre ao noir e à ficção científica para fazer seus comentários acerca da violência e quem lucra com ela, compondo uma análise despretensiosa, mas estimulante, de como seria o futuro no insano século 21. Com o temido (e superestimado) bug do milênio por pano de fundo, o sofisticado pessimismo de Bigelow vem à tona com um Ralph Fiennes inspirado como sempre.

