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Em maio de 2020, na cidade fictícia de Eddington, no Novo México, o xerife Joe Cross (Joaquin Phoenix) desafia as restrições sanitárias e decide disputar a prefeitura contra Ted Garcia (Pedro Pascal), movido pela rivalidade com o prefeito e pelo desejo de recuperar prestígio. Dirigida por Ari Aster, a produção de 2025 mistura comédia sombria e drama político para acompanhar uma comunidade que converte máscaras, protestos e postagens em armas eleitorais.

Joe acredita que a obrigação de usar máscara fere a liberdade dos moradores. Ted, por sua vez, cumpre as ordens do governo estadual e tenta preservar as medidas contra a Covid-19. A divergência poderia ficar restrita a reuniões administrativas, mas os dois carregam uma antipatia antiga. Quando o xerife anuncia sua candidatura, a pandemia passa a dividir espaço com uma eleição cercada por ressentimentos pessoais.

Uma campanha feita na delegacia

Ted busca a reeleição apoiado numa plataforma liberal e favorável à tecnologia. Seu principal projeto é a construção de um enorme centro de dados nas proximidades da cidade, apresentado como fonte de empregos e desenvolvimento econômico. A proposta, porém, levanta dúvidas sobre os interesses empresariais por trás da obra e sobre os recursos que ela consumirá.

Joe possui poucas ideias para oferecer aos eleitores, mas compensa a falta de programa com indignação. Ele transforma a resistência às máscaras em bandeira eleitoral e recruta os policiais Guy (Luke Grimes) e Michael (Micheal Ward) para ajudá-lo na campanha. Os dois passam a dividir o expediente entre o trabalho nas ruas e as tarefas destinadas a tornar o chefe mais popular.

Essa mistura entre delegacia e comitê eleitoral produz parte da graça amarga de “Eddington”. Joe deseja parecer um defensor corajoso da população, embora suas atitudes frequentemente revelem insegurança e orgulho ferido. Ted domina melhor as câmeras, grava propagandas sentimentais e vende uma imagem moderna. Um candidato possui o discurso bem produzido. O outro tem distintivo, viatura e bastante raiva acumulada.

Ari Aster acompanha esse duelo com certa crueldade. Joaquin Phoenix interpreta Joe como um homem permanentemente contrariado, incapaz de aceitar que sua autoridade não impressiona todos ao redor. Pedro Pascal oferece a Ted uma segurança polida, típica de quem conhece as vantagens de uma boa propaganda. Nenhum deles precisa dizer muito para revelar o prazer que sente ao constranger o adversário.

A disputa entra dentro de casa

A vida familiar de Joe tampouco oferece descanso. Ele mora com Louise Cross (Emma Stone), uma artista emocionalmente fragilizada, e com a sogra Dawn Bodkin (Deirdre O’Connell). Louise mantém distância do marido, enquanto Dawn passa boa parte do tempo consumindo teorias conspiratórias parecidas com aquelas difundidas por grupos ligados ao QAnon.

O confinamento obriga os três a permanecerem juntos numa casa onde quase ninguém confia em ninguém. Dawn acredita em redes clandestinas, códigos secretos e histórias de abuso ritual. Joe despreza boa parte dessas ideias, mas tampouco sabe lidar com o sofrimento de Louise. O xerife exerce autoridade nas ruas e mal consegue conversar com a própria mulher.

A situação ganha outro participante quando Louise e Dawn convidam Vernon Jefferson Peak (Austin Butler) para jantar. Líder de um grupo conspiratório, Vernon fala sobre tráfico infantil e lembranças reprimidas de abusos. Joe recebe aquelas histórias com desconfiança. Louise, porém, reconhece nelas elementos de sua própria experiência e passa a observar o visitante com atenção.

Emma Stone oferece a Louise um comportamento fechado, feito de pausas e recusas. A personagem não entrega seus sentimentos ao marido nem aceita ocupar o papel reservado a ela pela campanha. Sua presença também liga a rivalidade entre Joe e Ted a feridas anteriores à pandemia. O que parecia uma disputa sanitária começa a envolver casamento, memória e reputação.

Os jovens ocupam as ruas

Enquanto os adultos brigam pela prefeitura, a morte de George Floyd provoca manifestações do Black Lives Matter em várias cidades americanas. Os protestos chegam a Eddington e obrigam a delegacia a lidar com uma mobilização que questiona a violência policial e pede mudanças nas instituições de segurança.

Eric Garcia (Matt Gomez Hidaka), filho adolescente do prefeito, participa dos atos ao lado do amigo Brian (Cameron Mann). Os dois também competem pela atenção de Sarah (Amélie Hoeferle), estudante envolvida com pautas sociais. A adesão dos rapazes às manifestações mistura convicção política, necessidade de pertencimento e uma disputa amorosa bastante juvenil.

A graça dessas passagens nasce da distância entre a solenidade das palavras usadas pelos adolescentes e suas preocupações privadas. Eles repetem conceitos aprendidos nas redes, produzem vídeos e vigiam o comportamento uns dos outros. Uma curtida errada pode custar amizade, prestígio ou romance. Aster preserva a seriedade das questões raciais, mas expõe a vaidade escondida em certas manifestações públicas de virtude.

Michael ocupa uma posição especialmente delicada nesse cenário. Negro e policial, ele trabalha para Joe enquanto se torna alvo das cobranças de jovens que enxergam sua profissão como uma escolha política. O personagem não cabe nas categorias usadas pelos grupos ao redor, situação que deixa sua lealdade sob permanente suspeita.

Cada vídeo cria uma verdade

As redes sociais atravessam quase todas as relações de “Eddington”. Ted usa propagandas para fortalecer a imagem de pai dedicado e administrador moderno. Joe grava mensagens eleitorais e oferece sua revolta como prova de sinceridade. Dawn mergulha em teorias conspiratórias. Os adolescentes transformam protestos em conteúdo para seus perfis.

Ari Aster alterna vídeos, transmissões e conversas presenciais para revelar como uma versão alcança o público antes que os fatos sejam examinados. Uma postagem pode prejudicar uma candidatura, romper uma relação ou levar moradores às ruas. A cidade passa a reagir menos ao que aconteceu e mais ao conteúdo que recebeu primeiro pelo celular.

O diretor reúne muitos personagens e assuntos, o que deixa alguns trechos carregados. Pandemia, racismo, casamento, abuso, tecnologia, polícia, eleições e extremismo disputam espaço dentro da mesma história. Nem todas essas frentes recebem o mesmo cuidado, mas o excesso combina com uma cidade bombardeada por informações contraditórias.

“Eddington” desenvolve melhor quando acompanha de perto Joe. Joaquin Phoenix sustenta a mistura de fragilidade e prepotência de um homem que deseja respeito, embora tome cada discordância como ofensa pessoal. O xerife entra na eleição querendo recuperar autoridade. Ao levar distintivo, ressentimento e campanha para a mesma rua, ele transforma qualquer protesto numa ameaça ao cargo que possui e ao cargo que pretende conquistar.


Filme: Eddington
Diretor: Ari Aster
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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