Em 1823, nas regiões geladas e ainda pouco conhecidas da América do Norte, o experiente caçador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) acompanha uma expedição em busca de peles. O grupo precisa atravessar florestas, rios e montanhas enquanto enfrenta o frio, a escassez de alimentos e a presença de povos indígenas que defendem suas terras. Após ser atacado por um urso e abandonado pelos companheiros, Glass luta para permanecer vivo e seguir o rastro de John Fitzgerald (Tom Hardy), responsável pela traição. Dirigido por Alejandro G. Iñárritu, “O Regresso” transforma essa perseguição em um drama brutal sobre resistência, vingança e sobrevivência.
Hugh Glass conhece a região e atua como guia dos caçadores liderados pelo capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson). Sua experiência permite ao grupo identificar caminhos menos perigosos, buscar alimento e escapar de territórios onde qualquer erro pode custar uma vida. Glass também viaja ao lado do filho Hawk (Forrest Goodluck), jovem de origem indígena que sofre hostilidade entre alguns integrantes da expedição.
A situação piora quando os caçadores são atacados por guerreiros Arikara. Eles procuram Powaqa (Melaw Nakehk’o), filha do chefe Elk Dog (Duane Howard), sequestrada por outro grupo de homens brancos. O ataque obriga os sobreviventes a abandonar parte das peles e mudar o caminho até o forte. A mercadoria perdida representa meses de trabalho, enquanto a nova rota aumenta o tempo de viagem e o risco de fome.
Glass tenta orientar os homens por terra, pois acredita que o rio deixaria todos expostos. John Fitzgerald discorda. Interpretado por Tom Hardy com voz áspera e aparência de quem já acordou de mau humor em 1823 e nunca mais melhorou, Fitzgerald considera Glass e Hawk ameaças aos próprios interesses. Ele quer alcançar o forte, receber o pagamento e encerrar a expedição antes que outro ataque elimine o restante do grupo.
O ataque que muda a viagem
Durante uma busca na floresta, Glass se aproxima de filhotes de urso e é atacado pela mãe. A sequência é longa, violenta e sufocante. O caçador tenta alcançar sua arma, proteger o corpo e respirar enquanto o animal volta várias vezes. A câmera permanece perto dele e restringe a visão do terreno. O espectador sabe apenas o que Glass consegue enxergar entre uma investida e outra.
Quando os companheiros o localizam, ele apresenta ferimentos profundos e mal consegue falar. O capitão Henry se recusa a deixá-lo, mas transportar um homem naquele estado exige força, alimento e tempo. Os caçadores improvisam uma maca e tentam atravessar o terreno montanhoso. Cada subida atrasa a marcha, e a ameaça de novos ataques torna a permanência cada vez mais perigosa.
Henry oferece dinheiro para que alguns homens fiquem com Glass até sua morte e providenciem um sepultamento digno. Fitzgerald aceita, assim como Jim Bridger (Will Poulter) e Hawk. O acordo deveria assegurar proteção ao ferido. Longe da autoridade do capitão, porém, Fitzgerald assume o controle da situação e pressiona Bridger, jovem demais para reagir com firmeza.
A traição deixa Glass sozinho
Fitzgerald considera inútil esperar pela recuperação de Glass. Para ele, permanecer no local significa desperdiçar provisões e correr o risco de morrer. Sua preocupação possui fundamento, mas o personagem usa o perigo para encobrir decisões cruéis. Tom Hardy faz de Fitzgerald um homem movido pelo medo, pelo dinheiro e por um egoísmo que sempre encontra uma desculpa conveniente.
Bridger percebe a gravidade das escolhas do companheiro, mas tem pouca autoridade e quase nenhuma experiência. Will Poulter interpreta essa insegurança sem exagerar a culpa do rapaz. Bridger questiona Fitzgerald, hesita e acaba submetido à pressão. O isolamento impede que qualquer pessoa confirme o que realmente aconteceu, deixando Glass sem proteção e sem voz.
Gravemente ferido, o caçador precisa recuperar movimentos básicos antes de pensar em alcançar alguém. Beber água, estancar uma ferida e conseguir sair do chão passam a exigir enorme esforço. Leonardo DiCaprio fala pouco durante boa parte da produção. Sua atuação depende da respiração, das expressões de dor e da dificuldade para mover o corpo. Glass não parece um herói invencível. Ele parece um homem que se recusa a morrer, mesmo quando tudo ao redor trabalha contra essa vontade.
O inverno vira outro inimigo
A paisagem de “O Regresso” possui beleza, mas jamais oferece acolhimento. Rios, florestas e montanhas ocupam boa parte da tela e fazem Glass parecer pequeno diante do ambiente. A neve cobre rastros, o vento dificulta o repouso e a falta de comida enfraquece um corpo já castigado. Cada trecho percorrido representa uma vitória provisória, pois o território sempre apresenta uma ameaça seguinte.
A fotografia de Emmanuel Lubezki usa a luz natural para preservar a aparência gelada das locações. A técnica acompanha o que acontece com Glass e interfere na quantidade de informação entregue ao público. Em áreas abertas, a distância revela o isolamento. Dentro da floresta, árvores e sombras escondem possíveis perseguidores. A câmera também permanece próxima dos personagens durante os ataques, o que diminui a percepção do espaço e aumenta a sensação de vulnerabilidade.
Iñárritu dedica bastante tempo ao sofrimento físico de Glass. Em alguns trechos, essa insistência deixa “O Regresso” cansativo. A duração poderia ser menor, sobretudo quando o protagonista atravessa novos espaços e enfrenta dificuldades parecidas. Ainda assim, a repetição possui uma função narrativa. Ela registra a lentidão de uma recuperação realizada sem medicamentos, abrigo seguro ou qualquer garantia de socorro.
Uma vingança movida pela sobrevivência
A busca por Fitzgerald oferece uma direção a Glass, mas a vingança permanece distante enquanto ele não consegue sequer caminhar normalmente. Essa diferença impede que a história se transforme apenas em uma caçada. Antes de perseguir o homem que o abandonou, o protagonista precisa recuperar força, alimento e orientação. Fitzgerald, por sua vez, tenta chegar ao forte e preservar a versão que contou aos demais.
“O Regresso” também apresenta o conflito entre os caçadores europeus e os povos indígenas sem tratar todos os grupos como uma massa única. Os Arikara procuram uma mulher sequestrada e atacam aqueles que ocupam seu território. Glass possui vínculos familiares com os Pawnee e conhece parte de seus costumes. Essas relações acrescentam contexto à disputa por terras e mercadorias, embora alguns personagens indígenas recebam menos espaço do que mereciam.
“O Regresso” acompanha dois homens separados por uma grande distância e unidos pela mesma traição. Fitzgerald aposta que o frio e os ferimentos impedirão Glass de retornar. Glass avança porque continuar vivo é a única maneira de desmentir essa versão. O filme pode exigir paciência, mas recompensa quem aceita seu ritmo severo. Cada passo conquistado diminui a vantagem de Fitzgerald e aproxima o sobrevivente daqueles que acreditavam tê-lo enterrado.

