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Em “Simplesmente Complicado”, lançado em 2009 e dirigido por Nancy Meyers, uma mulher divorciada reencontra o ex-marido durante uma formatura familiar, em Santa Barbara, e vê a vida bem arrumada entrar numa confusão afetiva que ela mesma não esperava. A graça do filme nasce daí, desse momento em que adultos experientes, com filhos crescidos, contas pagas e algum juízo acumulado, descobrem que desejo antigo também sabe bater à porta sem pedir licença.

Jane Adler, vivida por Meryl Streep, é dona de uma padaria charmosa, mãe de três filhos e ex-mulher de Jake Adler, interpretado por Alec Baldwin. Dez anos depois do divórcio, ela parece ter feito as pazes com a separação. Mora bem, trabalha muito, recebe os filhos com afeto e planeja uma reforma na casa, especialmente na cozinha. Falta pouco para tudo parecer sob controle, e talvez seja exatamente aí que mora a primeira piada do filme. A vida de Jane tem ordem, forno quente e uma agenda cheia, até Jake reaparecer com aquela confiança inconveniente de quem conhece o caminho da sala.

Uma formatura abre a porta

O reencontro acontece durante a formatura de um dos filhos. A ocasião deveria reunir a família em clima de celebração, fotos e pequenas gentilezas de ex-casal civilizado. Jane e Jake começam a conversar com naturalidade, bebem, riem e percebem que a intimidade antiga continua ali, menos enterrada do que imaginavam. O detalhe complica tudo porque Jake não está livre. Ele se casou novamente com Agness, papel de Lake Bell, uma mulher mais jovem, com quem tenta construir outra rotina.

A partir desse reencontro, Jane e Jake iniciam um caso que mistura desejo, nostalgia e imprudência. Eles sabem que a situação é delicada, mas a familiaridade entre os dois encurta qualquer prudência. Jake se diverte com a ideia de reviver o casamento sem arcar com todo o peso dele. Jane, por outro lado, oscila entre a surpresa de se sentir desejada, o prazer de recuperar uma parte da própria história e a vergonha de ocupar um lugar incômodo na vida atual do ex-marido.

O filme acerta ao tratar essa confusão sem transformar Jane em uma mulher ingênua ou perdida. Ela sabe o que está fazendo, ainda que não saiba bem quanto isso vai custar. Meryl Streep dá à personagem uma mistura deliciosa de inteligência, culpa e espanto. Jane ri, hesita, cede ao impulso e depois encara o constrangimento de quem percebe que a aventura tem menos glamour quando precisa ser escondida dos filhos e administrada entre horários, telefonemas e encontros improvisados.

O ex-marido vira problema

Jake, vivido por Alec Baldwin, é o tipo de homem que entra em cena com a convicção de que o mundo ainda cabe no seu charme. Ele quer Jane de volta em parte, mas não parece disposto a desmontar de verdade a vida que construiu depois dela. Essa ambiguidade sustenta boa parte da comédia. Jake se comporta como adolescente em segunda chance, embora tenha idade suficiente para saber que segredos familiares costumam durar pouco.

A presença dele bagunça a casa emocional de Jane porque não vem sozinha. Jake traz filhos em comum, memórias conjugais, intimidade física e uma espécie de direito antigo de circular pela vida dela. Só que esse acesso já não é inocente. Quando ele procura Jane, também carrega Agness e o casamento atual, o que transforma cada momento de prazer em uma situação de risco. A comédia surge da tentativa dos dois de manter uma aventura clandestina dentro de uma família que se conhece bem demais.

Nancy Meyers trabalha essa confusão com leveza, mas sem apagar o desconforto. A diretora gosta de ambientes bonitos, cozinhas amplas, jardins bem cuidados e roupas impecáveis, mas coloca seus personagens para fazer bobagem dentro desse conforto todo. O resultado tem charme porque a bagunça não nasce de grandes tragédias. Nasce de mensagens, almoços, entradas inesperadas, perguntas dos filhos e olhares atravessados. É o caos doméstico em porcelana fina.

O arquiteto muda o ritmo

Enquanto Jake ocupa o espaço do passado, Adam Schaffer, interpretado por Steve Martin, entra pela porta da reforma. Ele é o arquiteto contratado por Jane para transformar a casa e, aos poucos, passa a enxergá-la para além da cliente. Adam também é divorciado, mas chega com outro tom. Ele não invade, não pressiona e não tenta vender uma versão idealizada de si mesmo. Sua aproximação é mais tímida, mais adulta e, por isso, mais ameaçadora para a fantasia que Jane vive com o ex.

A presença de Adam dá ao filme uma camada interessante. Com Jake, Jane revive algo que conhece. Com Adam, ela precisa admitir que talvez exista futuro fora do circuito familiar que ainda a prende ao ex-marido. Steve Martin interpreta o arquiteto com delicadeza e humor contido. Ele não disputa Jane aos berros, nem tenta vencer Jake por espetáculo. Sua força está na escuta, no cuidado e no constrangimento quase elegante de quem percebe que entrou numa história mais cheia de portas trancadas do que imaginava.

O triângulo amoroso, então, deixa de ser apenas uma brincadeira romântica. Jane passa a lidar com duas possibilidades opostas. Uma oferece memória, desejo e uma intimidade já testada pelos anos. A outra pede coragem para começar algo menos previsível, sem filhos em comum nem velhos atalhos emocionais. A reforma da casa acompanha essa dúvida sem precisar virar metáfora pesada. Cada mudança planejada no espaço lembra Jane de que permanecer no conhecido também dá trabalho.

Os filhos percebem demais

Lauren, vivida por Caitlin Fitzgerald, Gabby, interpretada por Zoe Kazan, e Luke, papel de Hunter Parrish, formam o núcleo familiar que torna a situação mais delicada. Eles são adultos, mas ainda carregam a memória do divórcio dos pais. Para eles, Jane e Jake parecem ter chegado a uma convivência estável, talvez até exemplar. Quando o comportamento dos dois começa a soar estranho, a fantasia do caso deixa de pertencer apenas ao casal.

Harley, vivido por John Krasinski, noivo de Lauren, rende alguns dos melhores momentos cômicos por estar perto o bastante para notar sinais que os outros ainda não viram. Ele vira uma espécie de testemunha apavorada, preso entre o dever de manter a paz e o impulso de reagir ao absurdo. Sua expressão diante da descoberta diz muito sobre o filme. Em “Simplesmente Complicado”, a comédia não precisa de gritaria. Basta alguém perceber o que ninguém deveria ter percebido.

A grande força da história está nessa mistura de leveza e embaraço. O filme ri dos personagens, mas não os humilha. Jane, Jake e Adam são adultos tentando lidar com solidão, desejo, vaidade e medo de envelhecer sem companhia. O roteiro permite que eles errem de maneira reconhecível. Há exageros, naturalmente, porque a comédia romântica vive de encontros inconvenientes e portas abertas na hora errada. Ainda assim, o sentimento por trás das situações permanece crível.

Uma comédia sobre segundas chances

Em “Simplesmente Complicado”, Nancy Meyers conhece bem o território dos afetos maduros. A diretora filma pessoas que já casaram, se separaram, criaram filhos e aprenderam a fingir normalidade em almoços familiares. O filme não trata o amor depois dos 50 como prêmio de consolação. Jane deseja, se confunde, faz escolhas ruins, sente culpa e ainda precisa trabalhar no dia seguinte. Essa combinação deixa a personagem mais humana e menos polida do que a aparência elegante da produção poderia sugerir.

Meryl Streep sustenta o centro emocional com uma naturalidade rara. Ela faz Jane parecer forte sem tirar dela o direito ao vexame. Alec Baldwin se diverte com Jake, um homem charmoso, egoísta e um pouco ridículo, daqueles que acreditam que saudade já resolve metade da culpa. Steve Martin equilibra o trio ao oferecer a Adam uma doçura discreta, quase desajeitada, que contrasta com a presença expansiva do ex-marido.

A crítica possível ao filme está no excesso de conforto material que cerca tudo. A casa é linda, a padaria é um sonho, os problemas cabem em ambientes muito bem decorados. Mesmo assim, essa moldura não esvazia a história. Ao contrário, cria um contraste curioso entre a vida aparentemente perfeita e a desordem íntima que nenhuma cozinha planejada consegue esconder. Jane pode ter os melhores ingredientes à mão, mas ainda não sabe qual receita quer seguir.

“Simplesmente Complicado” é agradável porque fala de recomeços sem fingir que eles chegam limpos. O passado volta com charme, mas também com cobrança. O futuro aparece mais discreto, porém exige honestidade. Entre Jake e Adam, Jane precisa olhar menos para a aprovação dos outros e mais para a vida que deseja ocupar. Quando a casa, os filhos e o coração começam a pedir a mesma verdade, a comédia deixa a porta aberta para uma decisão menos impulsiva e mais inteira.


Filme: Simplesmente Complicado
Diretor: Nancy Meyers
Ano: 2009
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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