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Em 1934, depois que Bonnie Parker (Emily Brobst) e Clyde Barrow (Edward Bossert) participam de uma fuga na prisão agrícola de Eastham, o Texas volta a contar mortos e autoridades frustradas. O FBI dispõe de escutas, perícia e numerosos agentes, mas continua atrás dos criminosos mais famosos dos Estados Unidos. Pressionada pelo chefe do sistema prisional, Lee Simmons (John Carroll Lynch), a governadora Miriam “Ma” Ferguson (Kathy Bates) autoriza a contratação de Frank Hamer (Kevin Costner), antigo Texas Ranger que vivia afastado do serviço. Dirigido por John Lee Hancock, “Estrada Sem Lei” acompanha essa caçada pelo ponto de vista dos homens envelhecidos enviados para encerrá-la.

A escolha de Hamer provoca certo constrangimento dentro do governo. Miriam Ferguson havia afastado os Rangers ao assumir o cargo e apostara em uma polícia mais moderna. Convocá-lo significa reconhecer que os recursos disponíveis ainda não haviam localizado Bonnie e Clyde. A governadora fornece a autorização, mas mantém distância suficiente para preservar a própria imagem caso a missão fracasse. Hamer recebe passagem entre departamentos e condados, embora tenha de montar quase sozinho a estrutura da investigação.

A primeira providência do veterano é procurar Maney Gault (Woody Harrelson), parceiro dos tempos de Ranger. Gault vive com pouco dinheiro, permanece fora da polícia e carrega no corpo os sinais de uma vida dura. Mesmo assim, aceita retornar à estrada quando Hamer oferece uma vaga no automóvel. A dupla reúne experiência, cansaço e uma intimidade que dispensa apresentações cerimoniosas. Um sabe quando o outro está omitindo medo, dor ou incerteza, ainda que ambos prefiram tratar tudo com uma secura bastante masculina e pouco saudável.

Kevin Costner interpreta Hamer com movimentos econômicos e uma expressão quase sempre fechada. Ele observa pegadas, examina cápsulas, escuta testemunhas e procura hábitos repetidos pelos fugitivos. Woody Harrelson dá maior leveza a Gault, um homem falante, espirituoso e ainda capaz de reclamar do desconforto da viagem. As diferenças produzem graça sem transformar a dupla em caricatura. Enquanto Hamer preserva o comando, Gault ocupa o banco ao lado, comenta os erros do parceiro e recupera gradualmente sua utilidade na perseguição.

Uma investigação feita na estrada

Hamer e Gault acompanham informações obtidas por escutas telefônicas, vigiam familiares dos criminosos e visitam cidades pelas quais a quadrilha pode ter passado. Os recursos federais oferecem dados, mas nem sempre revelam a direção correta. Muitas pistas chegam atrasadas, outras esbarram em disputas entre departamentos. Há ainda bloqueios policiais, fronteiras estaduais e agentes pouco dispostos a aceitar a interferência de dois homens considerados ultrapassados.

Hamer aposta menos nos aparelhos e mais nas necessidades humanas. Pessoas em fuga precisam comer, abastecer o carro, procurar abrigo e manter algum contato com parentes. Essa leitura permite que os investigadores comparem deslocamentos e descartem rotas improváveis. O problema está no tamanho do território. Um erro pode custar centenas de quilômetros, combustível e várias horas. “Estrada Sem Lei” transforma o mapa rodoviário em parte essencial da caçada, pois cada cidade oferece uma possibilidade e também outra chance de Bonnie e Clyde desaparecerem.

John Lee Hancock trabalha o suspense por meio dessa diferença de tempo. Os fugitivos agem antes, enquanto Hamer e Gault chegam depois para recolher o que restou. Cápsulas, marcas de pneus, automóveis abandonados e depoimentos incompletos substituem grandes descobertas. A opção combina com a idade dos protagonistas, homens que precisam estudar o terreno porque já não podem depender apenas da força física. Em alguns trechos, porém, a demora pesa. O longa ultrapassa duas horas e permanece dentro do carro por períodos que poderiam ser mais curtos sem prejudicar a investigação.

Bonnie e Clyde viram celebridades

A fama dos criminosos cria um problema que armas e distintivos não resolvem. Em postos de gasolina, acampamentos e pequenas cidades, Bonnie e Clyde são tratados por parte da população como figuras populares. Fotografias, jornais e relatos sobre suas fugas alimentam uma admiração que incomoda Hamer. Alguns moradores escondem informações, outros demonstram hostilidade contra os policiais. Cada silêncio oferece mais tempo à quadrilha e torna a busca ainda mais difícil.

Hancock mantém Bonnie Parker e Clyde Barrow longe do centro da imagem durante boa parte da história. O espectador acompanha seus rastros, os crimes atribuídos ao grupo e a comoção criada por suas aparições. Essa escolha impede que o casal domine o filme pelo carisma e desloca a atenção para vítimas, familiares e investigadores. A fama existe, mas vem cercada pelas mortes deixadas na estrada. A abordagem também separa “Estrada Sem Lei” de produções que transformaram Bonnie e Clyde em símbolos românticos de rebeldia.

Frank Hamer não demonstra qualquer fascínio pelo casal. Para ele, cada manchete favorável encobre policiais mortos, famílias destruídas e cidades mobilizadas pela perseguição. Sua rigidez, contudo, não o transforma automaticamente em herói. Gault conhece os métodos do antigo parceiro e sabe quanto sangue acompanha suas missões. Essa memória cria desconforto entre os dois, principalmente quando a caçada exige escolhas que podem deixar pouco espaço para uma prisão convencional.

Dois homens fora de seu tempo

O aspecto mais interessante de “Estrada Sem Lei” está na condição dos investigadores. Hamer e Gault pertencem a uma corporação desfeita, dirigem por estradas precárias e trabalham cercados por agentes que confiam em tecnologias recentes. Eles parecem relíquias, mas ainda sabem conversar com policiais locais, reconhecer uma mentira e perceber quando determinado caminho favorece uma fuga. A experiência oferece vantagens, embora não apague o desgaste físico nem os erros cometidos no passado.

Gladys Hamer (Kim Dickens), esposa de Frank, conhece o custo desse retorno. Ela observa o marido deixar uma casa confortável para recuperar uma função que pode matá-lo. O casamento acrescenta sensibilidade ao personagem sem oferecer discursos sentimentais. Hamer parte porque acredita possuir condições de interromper os crimes, mas sua decisão também revela dificuldade em abandonar a identidade construída durante anos de serviço. O distintivo pode ter desaparecido, enquanto o dever continuou ocupando espaço dentro dele.

Ted Hinton (Thomas Mann), policial de Dallas que conheceu Clyde na juventude, acrescenta outra camada à investigação. Sua proximidade com os fugitivos oferece reconhecimento e informação, porém traz um peso pessoal que Hamer não compartilha. Para Hinton, os nomes procurados pertencem a pessoas que tiveram família, vizinhos e uma vida anterior aos jornais. Para o veterano, eles representam uma ameaça em movimento. Essa diferença deixa a perseguição mais humana sem suavizar os crimes.

“Estrada Sem Lei” avança com paciência e encontra sua força na convivência entre Costner e Harrelson. O filme poderia cortar algumas paradas, mas preserva uma atmosfera coerente com homens obrigados a reconstruir pistas em um país imenso. Hancock entrega um drama policial sóbrio, atento ao trabalho cansativo escondido atrás de uma história conhecida. Hamer confere o mapa, Gault observa a próxima estrada e os dois seguem viagem antes que outra informação perca valor.


Filme: Estrada Sem Lei
Diretor: John Lee Hancock
Ano: 2019
Gênero: Crime/Drama/Faroeste/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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