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Dirigido por Oliver Stone em 2004, “Alexandre” acompanha o rei macedônio que atravessou a Pérsia rumo à Índia, decidido a formar um império unido por sua autoridade. Colin Farrell assume o papel de Alexandre, criado entre a proteção intensa da mãe, Olímpia (Angelina Jolie), e a severidade do pai, Filipe II (Val Kilmer). As campanhas militares sustentam a parte épica, enquanto as relações familiares revelam por que nenhuma conquista parece suficiente para o protagonista.

A história é contada por Ptolomeu (Anthony Hopkins), antigo general de Alexandre e governante do Egito. Décadas depois das campanhas macedônias, ele dita suas lembranças a um escriba em Alexandria. Seu relato percorre a infância do rei, a ascensão ao trono e as expedições que atravessaram boa parte do mundo conhecido.

Essa narração oferece uma perspectiva histórica, mas também cria certa distância do protagonista. Ptolomeu conhece Alexandre como comandante, amigo e figura pública, embora selecione os acontecimentos que deseja registrar. A memória guarda vitórias, afetos e ressentimentos, deixando algumas passagens mais nítidas do que outras. Oliver Stone usa esse relato para avançar e retornar no tempo, relacionando escolhas do adulto às feridas abertas dentro da corte macedônia.

Alexandre cresce em Pela, cercado pela disputa entre seus pais. Olímpia o protege e alimenta a crença de que o filho possui origem divina. Angelina Jolie interpreta a rainha com intensidade, misturando carinho, cálculo político e uma presença que raramente passa despercebida. Em certos instantes, parece que até as serpentes do palácio ficam um pouco mais comportadas quando ela entra em cena.

Filipe II, vivido por Val Kilmer, representa uma autoridade bem diferente. Guerreiro experiente, ele cobra força física, disciplina e coragem do herdeiro. Alexandre deseja a aprovação paterna, mas sofre com a instabilidade do rei e com as brigas que atravessam a família. O futuro conquistador aprende cedo que um palácio também pode ser um campo de batalha, ainda que todos estejam vestidos para um banquete.

A educação encontra a guerra

Durante a juventude, Alexandre recebe ensinamentos de Aristóteles (Christopher Plummer). O filósofo fala sobre geografia, política, cultura e os territórios existentes além das fronteiras gregas. O aluno absorve essas ideias e passa a imaginar um governo capaz de reunir povos diferentes sob uma mesma coroa.

A proposta parece grandiosa, embora carregue uma contradição difícil de esconder. Alexandre fala em união cultural enquanto avança acompanhado por milhares de soldados armados. Seu projeto depende da força militar e da submissão de regiões que já possuem governantes, crenças e costumes próprios. A espada abre portas que a filosofia, sozinha, jamais conseguiria alcançar.

Quando assume o trono da Macedônia, Alexandre precisa firmar sua autoridade diante dos generais e manter unido o exército criado por Filipe. Ele decide atacar o Império Persa, governado por Dario III (Raz Degan), e começa uma campanha que exige homens, cavalos, alimentos e confiança. A cada vitória, o rei conquista novas cidades, mas também se afasta de casa e aumenta o desgaste de seus companheiros.

A Batalha de Gaugamela ocupa um lugar central nessa expansão. Alexandre enfrenta um adversário superior em número e aposta na disciplina das falanges macedônias, apoiadas pela cavalaria. Stone acompanha ordens, deslocamentos e falhas de formação sem transformar o combate numa simples exibição de grandeza. Poeira, sangue e cavalos desgovernados retiram qualquer aparência elegante da guerra.

A Pérsia muda o rei

A entrada nos palácios persas oferece a Alexandre riquezas, terras e acesso a uma estrutura de governo muito maior. Para administrar essas regiões, ele passa a adotar costumes orientais e aceita a colaboração de antigos adversários. Os oficiais macedônios recebem essas escolhas com desconfiança, pois temem perder espaço para homens recém-integrados à corte.

Heféstion (Jared Leto), amigo íntimo de Alexandre desde a juventude, permanece ao seu lado durante as campanhas. A relação entre ambos possui afeto, lealdade e uma proximidade que o filme apresenta sem transformar o vínculo numa nota de rodapé. Stone trata essa intimidade como parte essencial da vida do rei, embora reserve mais tempo às hesitações de Alexandre do que aos desejos de Heféstion.

Na Báctria, o comandante conhece Roxana (Rosario Dawson), filha de um nobre local. Alexandre decide se casar com ela, aproximando-se das famílias orientais que agora vivem sob seu domínio. A união possui interesse político, atração e ciúme, ingredientes suficientes para transformar a corte numa reunião familiar especialmente desconfortável.

Roxana entra num ambiente dominado por generais macedônios e percebe a ligação profunda entre o marido e Heféstion. Rosario Dawson interpreta a personagem com energia e orgulho, mas o roteiro oferece pouco espaço para sua vida fora do casamento. Ainda assim, sua presença revela o preço íntimo da política de integração defendida por Alexandre.

A Índia cobra seu preço

Mesmo após dominar a Pérsia, Alexandre decide seguir para a Índia. A marcha atravessa territórios desconhecidos, enfrenta mudanças climáticas e coloca os macedônios diante de elefantes de guerra. Os soldados que partiram jovens agora carregam anos de combate, saudade e cansaço. Para eles, o mundo imaginado pelo rei começa a parecer grande demais.

Colin Farrell apresenta um Alexandre corajoso diante das tropas e inseguro quando perde o controle das pessoas próximas. Seu desempenho possui energia, embora algumas falas solenes tornem o ritmo pesado. O cabelo loiro também causou debates desde o lançamento, mas acaba sendo o menor dos problemas de um homem que deseja governar o mundo antes que seus amigos consigam voltar para casa.

Stone dedica atenção ao líder militar e ao filho que continua buscando reconhecimento. O diretor liga as ambições políticas de Alexandre à relação turbulenta com Filipe e à devoção de Olímpia. Essa leitura torna o personagem mais humano, ainda que o excesso de idas e vindas deixe certos episódios menos desenvolvidos.

“Alexandre” possui batalhas vigorosas, conflitos familiares e um elenco disposto a tratar a história com seriedade. Sua duração pesa, e a narração de Ptolomeu por vezes afasta o público dos acontecimentos. Mesmo assim, o filme ganha força quando acompanha o desgaste dos soldados e a solidão crescente do rei. Quanto mais longe Alexandre leva seu exército, menos homens parecem dispostos a acompanhá-lo até a próxima fronteira.


Filme: Alexandre, o Grande
Diretor: Oliver Stone
Ano: 2004
Gênero: Ação/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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