Lançado em 1977 e ambientado principalmente em Indiana, nos Estados Unidos, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” acompanha um eletricista que presencia fenômenos no céu e arrisca a família, o emprego e a própria reputação para descobrir a origem deles. Steven Spielberg transforma a procura por vida extraterrestre em uma história sobre obsessão, sigilo governamental e pessoas comuns tentando dar sentido ao que viram.
Roy Neary (Richard Dreyfuss) trabalha para uma companhia de energia e leva uma vida familiar bastante comum ao lado da esposa, Ronnie Neary (Teri Garr), e dos filhos. Durante uma pane elétrica, ele recebe a tarefa de verificar o problema e acaba perdido numa estrada rural. Ali, luzes intensas surgem sobre seu carro, objetos ao redor começam a tremer e uma nave atravessa o céu.
Roy volta para casa com marcas no rosto e a convicção de ter visto um objeto voador desconhecido. O problema está na ausência de provas. Seus relatos despertam desconfiança, inclusive entre pessoas próximas, enquanto as autoridades tratam as aparições com cautela ou descrédito. O eletricista insiste porque a experiência deixou sinais físicos e uma lembrança persistente, mas sua busca logo ameaça o emprego e o respeito que ainda possui dentro de casa.
Richard Dreyfuss oferece ao personagem entusiasmo, medo e uma teimosia quase infantil. Roy fica fascinado pelo céu, porém não percebe de início o peso que sua mudança impõe à esposa. Teri Garr interpreta Ronnie com uma irritação compreensível. Ela não viu as luzes, precisa cuidar dos filhos e assiste ao marido abandonar compromissos domésticos por uma história que, aos olhos dela, parece um surto.
Os mesmos sinais em outros lugares
A experiência de Roy integra um conjunto de ocorrências espalhadas pelo mundo. No deserto de Sonora, no México, aviões militares desaparecidos desde a Segunda Guerra Mundial reaparecem intactos e sem pilotos. O cientista francês Claude Lacombe (François Truffaut) chega ao local acompanhado do cartógrafo David Laughlin (Bob Balaban), responsável também pela comunicação entre o pesquisador e a equipe americana.
A investigação prossegue na Índia, onde uma multidão repete uma sequência formada por cinco notas. Lacombe associa os sons aos gestos do método Kodály, usado na educação musical, e percebe a possibilidade de estabelecer contato por meio de uma linguagem elementar. Quando os pesquisadores enviam as notas, recebem uma série de números. Laughlin reconhece coordenadas geográficas na resposta e dá à equipe um destino nos Estados Unidos.
Spielberg intercala essas descobertas com o cotidiano confuso de Roy. Essa montagem coloca o público alguns passos à frente do eletricista. Os cientistas possuem mapas, equipamentos, aviões e apoio militar. Roy tem apenas lembranças, desenhos e uma forma que não sai de sua cabeça. A diferença de recursos torna sua aflição mais dolorosa, pois o espectador sabe que ele viu algo real, embora ninguém em casa consiga confirmar sua versão.
Uma forma toma conta da casa
A mesma atividade atinge Jillian Guiler (Melinda Dillon), mãe de Barry Guiler (Cary Guffey), um menino de três anos que reage às luzes com curiosidade. Brinquedos e aparelhos começam a funcionar sozinhos durante a madrugada, levando Barry para fora de casa. Jillian tenta protegê-lo, mas a criança parece muito mais receptiva aos visitantes do que os adultos ao redor.
Depois das aparições, Jillian passa a desenhar repetidamente uma montanha larga, marcada por linhas verticais. Roy reproduz o mesmo contorno com espuma de barbear, barro, plantas e até purê de batatas. A cena do jantar possui uma graça constrangedora. O pai modela a comida com seriedade absoluta, enquanto esposa e filhos observam aquela pequena obra culinária com a expressão de quem preferia pedir uma pizza e encerrar o assunto.
A brincadeira logo perde espaço para a preocupação. Roy ocupa a casa com terra e outros materiais, dedicado a construir uma versão maior da formação que o persegue. Ronnie tenta preservar os filhos e recuperar alguma normalidade, mas o marido está cada vez mais distante. Spielberg trata a obsessão com fascínio, embora deixe um desconforto importante. Roy deseja respostas legítimas, porém faz a esposa pagar uma conta emocional que ela nunca aceitou dividir.
Jillian enfrenta uma ameaça ainda mais grave quando Barry desaparece durante outra visita das naves. A procura pela montanha ganha, para ela, um motivo urgente. Enquanto Roy quer confirmar a própria sanidade e descobrir por que recebeu aquela imagem, Jillian precisa saber onde o filho foi levado. Os dois avançam movidos pelo mesmo desenho, mas carregam perdas muito diferentes.
O governo fecha as estradas
As coordenadas decifradas por David Laughlin apontam para a Torre do Diabo, uma formação rochosa em Wyoming. Agentes públicos isolam a região e divulgam uma falsa contaminação para afastar moradores, motoristas e curiosos. A medida encobre a preparação de uma operação científica e militar destinada a receber os objetos que cruzam o céu.
Roy reconhece a Torre do Diabo durante uma reportagem na televisão. Ele não diz, mas sua reação revela que encontrou a peça ausente, pois abandona qualquer dúvida restante e parte para Wyoming antes que o bloqueio feche todas as rotas. Jillian também identifica o lugar desenhado tantas vezes e segue para a região, ainda procurando Barry.
A partir desse encontro, Roy e Jillian passam a agir juntos. Eles atravessam barreiras, desconfiam da história divulgada pelo governo e procuram uma passagem até a montanha. A ameaça extraterrestre permanece cercada de mistério, mas são soldados e autoridades humanas que impedem o acesso ao local. A ficção científica ganha força porque o perigo não depende apenas das naves. Ele também nasce da informação guardada por poucas pessoas.
Fascínio com um custo humano
Spielberg filma as aparições por meio de luzes, sons e reações humanas. Durante boa parte da história, os visitantes permanecem fora de quadro ou surgem apenas em movimentos breves. Essa escolha preserva a dúvida e aproxima o público de Roy, Jillian e Barry. Eles veem partes do fenômeno, jamais o conjunto inteiro, e precisam decidir quanto estão dispostos a perder para chegar à verdade.
As cinco notas compostas por John Williams assumem papel decisivo na comunicação. O som deixa de ser simples acompanhamento e vira uma ferramenta usada pelos cientistas. Claude Lacombe, vivido por François Truffaut com serenidade e curiosidade, aposta nessa linguagem porque palavras humanas seriam inúteis diante de seres desconhecidos. A equipe possui tecnologia sofisticada, mas depende de uma melodia curta para abrir a conversa.
“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” mantém os pés na vida doméstica mesmo quando olha para outros mundos. Há deslumbramento nas naves, mas também existe uma cozinha desorganizada, uma mãe apavorada, crianças confusas e um homem incapaz de abandonar uma pergunta. Quando Roy e Jillian deixam a estrada permitida e seguem para a área isolada, eles se aproximam da Torre do Diabo enquanto os soldados fecham o perímetro e aumentam o risco de captura.

