A água tem uma pedagogia brutal. A dezenas de metros da superfície, os pulmões se contraem, o coração desacelera, a luz desaparece e qualquer gesto executado um segundo tarde demais transforma disciplina em epitáfio. “Paixão Sufocante” encontra nesse universo da apneia no limit a moldura perfeita para uma relação em que o amor perde oxigênio gradualmente, enquanto Roxana Aubrey acredita ter descoberto em Pascal Gauthier uma passagem para uma vida livre. David M. Rosenthal, diretor e roteirista do longa francês lançado pela Netflix em 2022, acompanha o casal entre treinamentos, recordes e quartos de hotel, sempre aproximando o risco esportivo da natureza predatória de um homem incapaz de admirar a mulher que ajudou a formar. Camille Rowe, Sofiane Zermani e César Domboy conduzem uma história anunciada como inspirada em acontecimentos reais, embora transformada pelo realizador numa ficção de intenções bastante explícitas.
Roxana abandona os estudos em Paris e segue para o sul da França, onde se inscreve num curso de mergulho. A decisão tem a impetuosidade das fugas tomadas por quem ainda não sabe exatamente de que está escapando. Pascal, campeão de apneia e centro gravitacional da equipe, identifica depressa a vulnerabilidade da novata. Ele a recebe com a segurança dos homens habituados a transformar autoridade em sedução, corrige sua respiração, aproxima-se durante os exercícios e faz do oceano um lugar onde somente ele poderia mantê-la a salvo. Rowe evita a ingenuidade parva que o roteiro por vezes tenta impor à protagonista. Sua Roxana observa, hesita, sente medo e cede, conduzida por uma curiosidade física que as imagens subaquáticas de Thomas Hardmeier tornam compreensível. O mar parece acolhedor quando ela desce; Pascal só revela os dentes depois que já a convenceu a permanecer.
Sofiane Zermani interpreta o mergulhador como um sujeito cuja exuberância depende da existência de plateia. Pascal brinca, bebe, coleciona admiradores e ocupa os ambientes com uma desenvoltura que disfarça a insegurança até seu corpo começar a impor limites. Os apagamentos, as dificuldades físicas e a possibilidade de perder o posto de estrela alteram o equilíbrio do casal, sobretudo quando Roxana demonstra um talento que deixa de ser curiosidade para converter-se em ameaça. Rosenthal registra essa transferência de poder em cenas de preparação nas quais ela permanece concentrada, cercada pelos técnicos, enquanto Pascal a observa com o incômodo de quem vê sua criatura escapar-lhe das mãos. A paixão que antes lhe servia como prova de virilidade passa a humilhá-lo diante dos companheiros.
O talento que desorganiza o casal
Tom, o mergulhador vivido por César Domboy, funciona como testemunha desse processo e como uma possibilidade de vida fora do domínio de Pascal. Domboy dá ao personagem uma serenidade útil, sem transformá-lo no salvador romântico que resolveria o drama de Roxana por decreto. Ele percebe as mudanças de humor do campeão, acompanha a ascensão da moça e procura intervir quando o ambiente à volta dela já está contaminado por ciúme, infidelidade e intimidação. Rosenthal acerta ao manter Tom numa posição lateral, pois a libertação de Roxana perderia força caso dependesse somente da chegada de um homem melhor. O problema está na insistência do roteiro em tornar Pascal cada vez mais inequívoco. As humilhações, acessos de cólera e jogos de controle acumulam-se até que o personagem deixe de inspirar dúvida e se converta num vilão cuja torpeza chega sempre antes dele.
As sequências subaquáticas compensam parte dessa obviedade. Rosenthal filma os corpos suspensos no azul profundo como figuras prestes a desaparecer, acompanhando a descida pelos cabos, a pressão sobre o rosto, a imobilidade necessária e a violência da subida. O silêncio do fundo do mar oferece ao filme uma tensão que os diálogos em terra nem sempre alcançam. Atli Örvarsson reforça essa sensação com uma trilha que cresce junto da falta de ar, ao passo que a montagem alterna a aparente paz das profundezas e o tumulto da equipe na superfície. É nesses momentos que “Paixão Sufocante” abandona o melodrama sexual algo vulgar e encontra uma imagem concreta para a submissão de Roxana. Quanto mais fundo ela vai, maior se torna a dependência de pessoas encarregadas de trazê-la de volta.
Da ficção ao processo judicial
A aproximação com o caso da apneísta francesa Audrey Mestre dá ao desfecho uma gravidade que o filme explora sem grande cerimônia. Mestre morreu em 12 de outubro de 2002, aos 28 anos, durante uma tentativa de alcançar 171 metros na República Dominicana. O longa encerra-se com uma homenagem à atleta, mesmo afirmando ser uma obra ficcional, escolha que levou Francisco “Pipín” Ferreras, marido de Mestre, a processar Netflix, Nolita Cinema e Rosenthal por considerar que a produção o retratava indiretamente como responsável pela morte dela. A ação foi rejeitada em 2024, a decisão foi mantida em recurso no ano seguinte e a Suprema Corte da Califórnia recusou-se a examinar o caso em dezembro de 2025. A Justiça fechou o processo; a ambiguidade ética do filme permaneceu aberta.
Camille Rowe resiste ao sensacionalismo e preserva em Roxana alguma vida interior, principalmente quando a personagem já entende o perigo e continua avançando, movida por uma mistura de orgulho, dependência e necessidade de recuperar o controle sobre o próprio corpo. “Paixão Sufocante” teria alcançado maior força caso Rosenthal confiasse mais nessa atuação e menos na fabricação ostensiva de um monstro. Assim mesmo, o filme prende durante seus 118 minutos, seduz pela fotografia marinha e encontra na apneia uma representação incômoda de vínculos em que respirar passa a depender da vontade alheia. Roxana descobre tarde que o oceano nunca lhe prometera segurança; Pascal prometeu, e esse foi o perigo maior.

