A traição costuma causar estragos maiores quando vem de alguém que conhece os segredos, as fraquezas e a rota de fuga dos traídos. F. Gary Gray compreende essa regra elementar do submundo e faz dela o motor de “Uma Saída de Mestre”, releitura bastante livre do filme britânico dirigido por Peter Collinson em 1969. O ouro roubado em Veneza importa, evidentemente, assim como os carros, os cofres e o plano engenhoso; o que mantém a história em movimento é a necessidade de humilhar Steve, um ladrão sem imaginação que só consegue desejar aquilo que ouve dos outros. O longa de 2003 reúne Mark Wahlberg, Charlize Theron, Edward Norton, Jason Statham, Seth Green, Mos Def e Donald Sutherland numa aventura que se recusa a desperdiçar tempo com solenidades.
Charlie Croker lidera uma equipe especializada em crimes que exigem cálculo, precisão e certa elegância. John Bridger abre cofres, Lyle domina computadores, Rob Bonitão conduz qualquer veículo, Orelha Esquerda conhece explosivos e Steve ocupa a posição mais incerta do grupo, talvez porque desde o princípio seja o único cuja competência não vem acompanhada de personalidade. Depois de retirar barras de ouro de um palácio veneziano, a quadrilha escapa por canais subterrâneos e acredita ter concluído o golpe perfeito. Steve interrompe a comemoração, mata Bridger, toma o carregamento e desaparece. Edward Norton evita fazer do antagonista um megalomaníaco espalhafatoso; seu Steve é mesquinho, ressentido e perigosamente banal, um sujeito que compra o carro sonhado por Rob e os equipamentos desejados por Lyle porque até seus caprichos precisam ser furtados.
A herdeira entra no golpe
A morte de Bridger traz Stella para a operação. Charlize Theron dá à arrombadora de cofres uma frieza profissional que se desfaz sempre que o pai é mencionado, e Gray aproveita essa fissura para impedir que a personagem se reduza à bela mulher incorporada a uma equipe masculina. Stella trabalha para a polícia abrindo cofres de delinquentes presos, sem precisar vê-los ou participar da caçada, rotina asséptica que a mantém longe do passado de John. A proposta de Charlie obriga-a a aceitar a herança paterna inteira, inclusive a parte clandestina. Mark Wahlberg faz um líder econômico, quase apagado em alguns trechos, o que favorece Theron e também deixa espaço para que os especialistas exibam suas idiossincrasias.
A preparação do novo golpe constitui a parte mais saborosa do filme. Steve guarda o ouro numa casa protegida, compra vizinhos, instala vigilância e acredita estar seguro por ter eliminado o único homem capaz de vencê-lo. Charlie responde estudando o trânsito de Los Angeles, manipulando semáforos e adaptando três Mini Coopers para transportar o carregamento por túneis estreitos, estações e galerias pluviais. Gray filma a perseguição com clareza, permitindo que o público compreenda a posição dos carros, os obstáculos e a função de cada integrante. Mesmo quando os veículos descem escadarias, cruzam vagões do metrô e passam por espaços calculados ao centímetro, a ação conserva alguma consistência física.
Minis contra o trânsito de Los Angeles
Lyle, vivido por Seth Green, reclama o título de verdadeiro inventor do Napster; Orelha Esquerda, de Mos Def, carrega desde a infância um acidente envolvendo explosivos; Jason Statham preserva em Rob Bonitão o charme de quem transforma uma fuga em exibição automobilística. Esses tipos são esquemáticos, Gray sabe disso e lhes dá falas, gestos e pequenas manias suficientes para que o plano tenha rosto humano. O filme perde alguma força quando tenta aproximar Charlie e Stella, uma obrigação romântica que nem Wahlberg nem Theron parecem interessados em defender. Eles funcionam melhor curvados sobre mapas e fechaduras.
Steve termina cercado pelos objetos que furtou dos sonhos alheios, dono de uma fortuna que não lhe forneceu gosto, coragem ou inteligência. A vingança de Charlie consiste em esvaziar aquela casa e devolver ao traidor a única coisa que sempre lhe pertenceu, sua mediocridade. Nos túneis de Los Angeles, entre Minis carregados de ouro e um trânsito transformado em tabuleiro, “Uma Saída de Mestre” alcança a precisão que seus ladrões perseguem. Não é uma obra de grande profundidade, e F. Gary Gray jamais finge que seja. É um golpe bem planejado, executado com prazer e concluído antes que o espectador perceba as costuras.

