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Buenos Aires, finzinho de janeiro de 2010. Havíamos acabado de jantar e caminhávamos, Mariana e eu, pelas ruas de Puerto Madero — a noite estava bonita e fresca, a vida adulta era jovem e ainda não havia nos trazido grandes preocupações — quando um guardinha nos ouviu falando em português e entrou na conversa.

Acho que ele se chamava Luís, mas confesso não ter certeza se isso é invenção de minha cabeça. O que não é invenção é que ele se apresentou como brasileiro do Rio Grande do Sul e disse que havia se mudado para a Argentina com os pais ainda nos anos 1970.

O Luís, vamos assumir aqui ser este mesmo seu nome, falava com carinho dos pais e do Brasil e demonstrava uma genuína felicidade em poder interagir com brasileiros; o que devia ser extremamente comum em sua vida, aliás, posto que boa parte dos turistas na capital portenha é composta por exemplares de nosso país.

Mas havia algo de esquisito no português do Luís. Não, ele não parecia confundir falsos cognatos, como o próprio termo esquisito que acabei de escrever. Sim, ele pronunciava as palavras com um leve sotaque estrangeiro, como se o seu palato, sua úvula, sua língua, enfim, toda essa parafernália que temos dentro da boca e que se articula organizando sons em forma de linguagem, estivesse habituada à exaustão aos movimentos relativos do falar espanhol e, portanto, não conseguisse mais se moldar com naturalidade à língua nativa que, por uma decisão imigratória dos pais, havia sido relegada ao segundo plano.

Mas, sem dúvida, o que mais nos impressionou foi que seu português, perfeitamente cabível na versão brasileira, perfeitamente identificado como a variação sulista do português brasileiro, era datado. Nos poucos minutos em que conversamos, ele empregou algumas gírias que nos soaram como algo do repertório da geração anterior, algo que só costumamos ouvir da boca de nossos pais ou em diálogos de filmes mais antigos.

É isso. Quando seus pais se mudaram para a Argentina, o Luís não deixou de falar português. Mas o português se tornou o idioma da interação com pai e mãe. O idioma das regras, das ordens, dos conselhos. E das broncas.

Ao mesmo tempo, o Luís deve ter feito muitos amiguinhos na escola. Depois deve ter tido algumas namoradas ou alguns namorados. O Luís parecia um cara legal: ele pode ser um sujeito cheio de amigos, deve ter a turma do futebol às quintas, a turma do bar às sextas. Aos domingos encarna aquele que fica provocando os hermanos, querendo mostrar que a receita do churrasco igualzinho ao que seus avós gaúchos faziam é bem melhor do que o modelo argentino. Será que ele torce para o Grêmio? Será que logo criou afeições futebolísticas por um River Plate da vida? Pelé ou Maradona? Doce de leite mineiro ou dulce de leche portenho? Vibra pelo Messi na Copa?

Se o português ficou restrito ao diálogo parental na formação do Luís, o espanhol se tornou a língua da diversão, a língua do aprendizado escolar, a língua dos relacionamentos amorosos (trocadilho involuntário), a língua da vida real, afinal. A língua que se movimenta pelas ruas, não a língua confinada dentro de casa. A língua da boca aberta, não a enclausurada na boca fechada.

E se toda língua é vida, a língua nativa do Luís não viveu solta — ficou feito macaquinho nascido em cativeiro, que nem sabe colher sozinho uma banana do pé, depende do tratador vir diariamente trazer a ração.

Dezesseis anos depois, estamos aqui na mesma posição dos pais do Luís. Chico, meu filho, viveu no Brasil apenas quatro dos quase 13 anos de idade que já tem. Não é de se estranhar, portanto, que cada vez mais tenha um português datado, reflexo dos diálogos maternos e paternos. O esloveno, evidentemente, é a sua língua prática, o idioma das dores e delícias do viver o dia a dia.

No fundo, todo imigrante com filho pequeno cria falantes de uma língua nativa que não flui. A mesma geografia que une povos também estanca sintaxes e vocabulários.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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