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Hoje é aniversário de meu pai. Meu pai está morto. Meu pai está vivo. Meu pai claudica na minha memória em frangalhos. Ele morreu aos 83. Embora esperasse pela morte desde os 35. Tinha essa coisa estranha tinha essa mania boba tinha essa certeza contestável de que sucumbiria novo assim como o seu pai que fora encontrado sem vida dentro da cabine de um Fenemê. Papai cria que vovô tivesse se matado com veneno de rato. Vai saber. Naquele tempo naquele fim de mundo não se faziam necropsias em gente pobre nos rincões abandonados. Hoje é aniversário do meu velho. Vou tomar cerveja e ouvir em alto volume as canções que ele gostava. A tristeza há muito foi substituída pela melancolia e pela resignação. Faz cinco anos desde que nos vimos pela última vez. Ele que me tomou por estranho quando estava contido num leito de UTI com ataduras nos punhos e nos tornozelos. Eu disse bença pai está se sentindo melhor. Ele me fitou e franziu a testa claramente aturdido. Eu disse pai sou eu o fulano de tal o seu filho número dois o senhor não está me reconhecendo. Ele manteve o cenho contrito trêmulo e suado por causa da agitação. Daí ele disse deixa de brincadeira você não é meu filho nem aqui nem na China. Senti um aperto doído na garganta e as pernas falharam. Cambaleei. Ele disse moço por favor me solte me amarraram aqui eu não sei o motivo porque eu não fiz nada de errado. Respondi pai por favor fique calmo não tem jeito de lhe soltar porque o senhor está muito doente e com a cabeça fraca por causa da infecção na barriga os médicos não podem deixar o senhor ir embora. Ele disse rapaz se você me soltar eu te dou um dinheiro eu tenho bastante dinheiro guardado em casa por favor me acuda. O médico plantonista se aproximou e de forma gentil polida razoável disse que era melhor eu ir andando pois o paciente estava grave já não dizia coisa com coisa delirava por conta da sepse iriam sedá-lo e prepará-lo para uma nova intervenção cirúrgica a fim de desatar de vez aquele infectado nó nas tripas. Não deu certo. Ou deu. Sei lá. Quem vai saber. Ele morreu poucos minutos depois que eu saí. A gente não desejava não esperava mas aquele era o tipo de coisa que acontecia sempre e que continuava acontecendo a toda hora com todas as famílias no mundo inteiro. Perder gente amada era uma experiência desagradável dura uma merda. Mesmo para um sujeito estranho como eu um andarilho insensível às súplicas de um moribundo dotado de inconcebíveis planos de fuga os quais advinham dos comandos de um cérebro amotinado deteriorado cujas sinapses foram desvirtuadas por toxinas infecciosas. Matava-se e ainda se mata muita gente por esquecimento. E eu nunca te esqueço, pai. Tintim!

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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