“Noitada” é a narrativa de uma batalha. Um “Guerra e Paz” da libido contra o Espírito do Tempo. Um “Sertões” da comichão. Mas, muito além disso, é um tour de force libertino, algo que somente um mestre do idioma poderia se atrever a executar. Não lembro de tanto fôlego e resistência pornográfica em nenhum outro livro publicado em nossas plagas, senão em “Pornopopéia”, da lavra do próprio Reinaldo Moraes — que já é um clássico do século 21.
Kabeto, ou Carlos Alberto Castanho, é o herói de “Noitada”. A capacidade de resistência de Kabeto diante dos achaques de uma feminista xarope e de uma porra-louca milionete deslumbrada metida a artista é algo digno da fibra de um Leônidas contra o massivo ataque do exército do Espírito do Tempo: a exótica dupla citada acima é a síntese de todas as mulheres do mundo contra um pau ameaçado de extinção, aboletado nas trincheiras de uma cuequinha amarela.
São quase quinhentas páginas de confronto. E o fato de Moraes conduzir o leitor ao longo de uma jornada de devassidão e depravação beligerantes — sem aborrecê-lo um minuto sequer — já é mais do que uma proeza.

Sade é inspiração e encosto. O Marquês é citado várias vezes ao longo do romance e serve de lastro para uma das passagens mais engraçadas e literalmente viscerais do livro, no sentido orgânico da coisa. Não me atrevo a descrever a cena em minúcias porque o autor faz isso com maestria; só adianto que o intestino de uma abadessa — ou seria uma duquesa de teatrinho experimental? — é regurgitado de suas próprias entranhas depois de uma curra alucinada e deliciosa, ou, mais ou menos em bom português: as tripas da madame arrombada são sugadas no interregno de um estupro praticado por um “preto” cujo membro descomunal também funciona como Roto-Rooter*. Cena linda e antológica, magistralmente descrita por Moraes, com direito a lascas de cocô siciliano. Segue uma sucessão de micro e macrocenas deliciosas do mesmo naipe, aliterações e trocadilhos típicos do autor. Um banquete de escatologias e sacanagens também regado a pó, álcool, marijuana e um breve momento reflexivo de Kabeto, que cola, mas não cola, e é igualmente divertido. Reinaldo consegue até tirar uma onda e incluir na putaria o enfastiante “Viagem aos seios de Duília”, de Aníbal Machado; porém, nada é gratuito, chato ou fora da medida. Até mesmo o pedágio que ele meio que se obriga a pagar à bolha passa despercebido diante de sua potência narrativa; não precisaria, por exemplo, reverberar a versão político-partidária da “Dilma injustiçada”, mas tudo bem, o leitor dá um desconto.
Voltando a Sade. Os protocolos do Marquês, a meu ver, são verdadeiras maracuginas perto da maquinaria verbal-pornográfica de Reinaldo Moraes. “Noitada”, reafirmo, é uma proeza narrativa. Digo isso porque não é muito incomum encontrar autores — no deserto/hospício identitário no qual fomos internados compulsoriamente — que se estendem até para escrever um haicai. Isso sem falar na capacidade descritiva de Reinaldo Moraes. Algo impensável na ajambração fragmentária dos romances atuais (leia-se picaretagem).
Não bastasse, Reinaldo faz a descrição psicológica de uma arquitetura. O apartamento-covil da deslumbrete milionária, localizado no edifício Bretagne, “obra-prima” de Artacho Jurado, é algo digno de um Émile Zola. Não seria exagero cotejar a descrição das condições de trabalho humilhantes dos operários das minas de carvão de Zola com o estado ao qual Kabeto foi reduzido pelas furiosas deusas do século 21: homem branco, cinquenta e poucos anos e miseravelmente heterossexual, quase um carvoeiro do século 19.
“Noitada” é também a batalha carnal — e estética-espiritual, por que não? — pela própria sobrevivência da literatura que também é a libido despirocada de Kabeto (eu não aguentaria um minuto sequer ao lado das coadjuvantes pentelhas que o excitam). Kabeto é Leônidas, e Reinaldo é o Aretino do Baixo Augusta, o herói que resiste à noitada, priápico e deslumbrantemente literário, até onde consegue.
Desculpem o spoiler: no final, nosso herói sucumbe ao implacável Espírito do Tempo, e Kabeto e todos nós — meia dúzia de gatos-pingados —, que somos um pouco Kabetos desde quando éramos Ricardinhos da época do “Tanto Faz”, claro, tomamos no cu.
* Teatrinho, Sade de Moraes, ficção, relato de uma cena representada por personagens fictícios, tá bem?

