Uma praia pode parecer o lugar ideal para esquecer que o corpo envelhece. O mar repete o mesmo movimento, a areia apaga pegadas e o horizonte oferece a ilusão de permanência, até que M. Night Shyamalan encurrala seus personagens entre duas muralhas de pedra e transforma esse refúgio num relógio biológico fora de controle. Em “Tempo”, disponível no Prime Video, Guy e Prisca levam os filhos Maddox e Trent para um resort tropical enquanto tentam esconder deles que o casamento está próximo do fim. O gerente do hotel oferece à família uma excursão exclusiva a uma enseada isolada, onde já se encontram um cirurgião, sua mulher, a filha pequena, uma psicóloga, um enfermeiro e um rapper. Em poucas horas, as crianças crescem, os adultos adoecem e os idosos não conseguem suportar a marcha brutal dos minutos.
Shyamalan inspirou-se na graphic novel “Sandcastle”, de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters, recebida das filhas como presente de Dia dos Pais. O argumento encontrou nele um ponto especialmente sensível. Enquanto acompanhava o crescimento das filhas e a demência do pai, o diretor passou a enxergar o tempo como uma força física, capaz de comprimir décadas dentro de uma tarde ensolarada. A adaptação conserva o horror existencial da obra, acrescentando explicações, conspirações e uma resolução típica de um realizador que raramente resiste à vontade de reorganizar o mistério antes dos créditos.
A praia transforma doenças em armadilhas
Guy, atuário vivido por Gael García Bernal, tenta compreender o fenômeno por meio de cálculos; Prisca, curadora de museu interpretada por Vicky Krieps, percebe no corpo aquilo que o marido procura nos números. Cada personagem leva para a praia uma doença, um trauma ou uma fraqueza que a aceleração tratará de ampliar. Charles, o cirurgião de Rufus Sewell, perde o domínio sobre a própria mente; sua mulher Chrystal, de Abbey Lee, assiste à beleza que cultuava tornar-se uma matéria perecível; Patricia, psicóloga vivida por Nikki Amuka-Bird, descobre que nenhuma técnica de respiração pode negociar com um organismo condenado a atravessar anos em minutos. Os problemas não decoram a trama. Eles são mecanismos de tortura acionados pela enseada.
Michael Gioulakis filma em 35 milímetros e faz da paisagem aberta um espaço claustrofóbico. A câmera se afasta no instante em que o público espera ver um corpo, desliza para fora do enquadramento e retorna quando a transformação já aconteceu. Shyamalan não depende de maquiagem ostensiva a todo momento; troca os atores que interpretam Maddox, Trent e Kara, confiando na repetição de gestos para convencer o espectador de que aquelas crianças continuam lá dentro. Alex Wolff, Thomasin McKenzie e Eliza Scanlen assumem personagens que cresceram sem ter aprendido o que fazer com desejo, gravidez ou medo, e algumas das passagens mais perturbadoras nascem dessa discrepância entre organismo adulto e experiência infantil.
Os diálogos são o ponto de maior desgaste. Personagens anunciam profissões, sintomas e estados emocionais como se redigissem relatórios para uma plateia incapaz de observar a cena. Bernal parece deslocado diante de falas que exigem espanto contínuo, enquanto Krieps encontra alguma naturalidade nos momentos em que Prisca e Guy deixam de procurar uma saída e se voltam um para o outro. Sewell abraça o artificialismo e faz da deterioração de Charles uma ameaça concreta; Aaron Pierre, na pele do rapper Mid-Sized Sedan, tira dignidade de um personagem cujo nome já parecia condená-lo à anedota.
A explicação reduz o assombro
As filmagens ocorreram numa praia da República Dominicana durante a pandemia e a temporada de furacões, contingências que reforçam a sensação de luta contra uma natureza indócil. O cenário foi erodido, reconstruído e submetido às marés, e essa instabilidade passa para a tela. Shyamalan demonstra uma autoridade visual que o texto não acompanha, até que o ato final resolve explicar o mecanismo da praia e reduz parte do assombro a um imbróglio racional. O filme arrecadou cerca de 90 milhões de dólares sobre um orçamento estimado em 18 milhões, prova de que o diretor continua capaz de transformar uma ideia estranha em evento popular.
“Tempo” cresce quando observa um rosto e imagina quantos anos cabem nele; enfraquece quando insiste em contar quem colocou aquelas pessoas na praia e por quê. Shyamalan encontra ternura no casal que chegara ao resort disposto a se separar e acaba obrigado a viver ali tudo que lhe restaria, sem pausas, advogados ou uma segunda casa. Ao cair da noite, a areia continua lisa e o mar repete o movimento de sempre. Os seres humanos é que já não são os mesmos — quando ainda estão lá.

