Veneza parece ter sido construída para que amantes cometam erros belíssimos. Os canais retardam qualquer fuga, as pontes obrigam os caminhantes a se aproximar, e a cidade inteira ostenta a aparência de um cenário no qual a prudência perde o rumo com admirável facilidade. Juan Zapata vale-se dessa geografia sentimental em “Uma Vez em Veneza”, romance de 76 minutos sobre Maximilian e Maria, dois estrangeiros hospedados na mesma cidade do norte da Itália para participar de conferências distintas. Ele é alemão, trabalha com tecnologia e tenta sobreviver às sequelas de um divórcio; ela é brasileira, química, casada e já não encontra no matrimônio a vida que imaginara. Um comentário sobre jamais terem conhecido Veneza é o bastante para que Maria proponha uma viagem de um dia.
Max aceita com a cautela típica de quem antevê o perigo e segue mesmo assim. Maria, interpretada por Bellatrix Serra, fala, provoca e insiste; Peter Ketnath compõe Maximilian como um homem recolhido, sempre a calcular a distância segura entre o passeio inocente e a traição que talvez já esteja em curso. Os dois têm companheiros esperando a centenas de quilômetros, circunstância que dá ao encontro um limite concreto. Zapata e os corroteiristas Voltaire Barbieri, Vinicius Fontoura e o próprio Ketnath não precisam criar antagonistas. Uma passagem de trem, algumas horas disponíveis e a certeza de que aquela convivência terminará antes do anoitecer fornecem toda a ameaça de que o filme necessita.
O diretor procura um “Antes do Amanhecer” em escala reduzida, substituindo Viena por uma Veneza tomada de fachadas antigas, água esverdeada e turistas. A comparação surge menos pela semelhança dos diálogos que pelo dispositivo. Duas pessoas andam, conversam e tentam sondar a vida alheia enquanto o relógio avança. O filme perde força quando os personagens verbalizam demais o que a cidade, os olhares e a distância física entre eles já haviam comunicado. A espontaneidade anunciada pelo passeio às vezes adquire a aparência de um itinerário obediente, feito de encontros e conversas ordenados para levar Maria e Max ao dilema previsto desde a estação.
Entre o impulso brasileiro e a contenção alemã
Serra injeta movimento na história. Maria tem o entusiasmo de quem decidiu experimentar por um dia a existência que lhe falta, sem esconder que aquele homem estranho também funciona como espelho de uma insatisfação doméstica antiga. Ketnath prefere a contenção, e sua melhor contribuição está na resistência de Maximilian, que não recebe o flerte como dádiva e tampouco se permite esquecê-lo. A diferença cultural aparece em comentários sobre amor, compromisso e felicidade, ainda que o roteiro frequentemente simplifique alemães e brasileiros em temperamentos reconhecíveis demais. Ela seria o impulso; ele, o cálculo. Quando os atores escapam desse arranjo, o filme respira.
A fotografia entrega a Veneza a tarefa de seduzir o espectador nos intervalos em que a química do casal vacila. O recurso é eficiente e também perigoso, porque igrejas, pontes e canais roubam a atenção de uma história deliberadamente pequena. Zapata rodou a produção com uma equipe internacional, fazendo da cidade uma zona neutra onde um alemão e uma brasileira podem suspender por algumas horas suas biografias e experimentar uma versão mais atrevida de si mesmos. O cenário não está ali para decorar o romance; ele torna plausível uma imprudência que, num centro de convenções qualquer, pareceria só um caso extraconjugal sem poesia.
“Uma Vez em Veneza” é ligeiro, por vezes artificioso, favorecido por dois protagonistas maduros e pela decisão acertada de não prolongar o encontro além do que ele suporta. A cidade entrega ao casal um dia apartado do mundo, sem prometer que a beleza das águas haverá de resolver casamentos gastos ou curar divórcios mal cicatrizados. Maria e Max voltam para suas vidas levando a perturbação possível. Veneza permanece onde sempre esteve, soberba e indiferente, à espera dos próximos imprudentes.

